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Foto Histórica  Foto Histórica ED 001

Quatro Câmeras na Avenida Chang'an

Em 5 de junho de 1989, quatro fotógrafos registraram o mesmo homem diante da coluna de tanques, e cada filme saiu de Pequim escondido

Um rolo de filme 35 mm num saco plástico transparente, apoiado na borda de porcelana de uma caixa d'água de banheiro, com uma lente teleobjetiva escura ao lado.

O rolo que passou a noite na caixa d'água

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Uma fotografia célebre quase sempre tem um autor só. Um fotógrafo, um ângulo, um quadro que sobreviveu ao dia seguinte. A legenda cabe numa linha, o crédito cabe num canto de página, e a história costuma terminar aí.

A imagem do homem parado diante de uma coluna de tanques quebra a regra. Em 5 de junho de 1989, na Avenida Chang'an, em Pequim, quatro fotógrafos apertaram o botão sobre a mesma cena, quase da mesma altura, com poucos segundos separando um quadro do outro. Trabalhavam para quatro empresas concorrentes: Associated Press, Reuters, Newsweek e Magnum. Nenhum deles sabia, naquele instante, que os outros três estavam ali.

O quadro, porém, era metade do trabalho. A cidade estava sob lei marcial, os hotéis eram varridos por agentes à paisana, e um rolo de filme exposto valia detenção para quem o carregasse. Cada um dos quatro precisou resolver sozinho o mesmo problema de logística: tirar um pedaço de plástico enrolado de dentro de uma cidade fechada.

Os esconderijos foram diferentes. Um rolo desceu do prédio dentro da roupa de baixo de um estudante americano que pedalava uma bicicleta. Outro atravessou a fronteira numa caixa de chá, na bagagem de um viajante. Um terceiro passou horas submerso num saco plástico dentro da caixa d'água de um banheiro de hotel, enquanto a polícia revistava o quarto.

Depois vem a parte que quase ninguém confere. A imagem virou o cartaz de 1989 no mundo inteiro, e a frase colada nela diz duas coisas: que a fotografia parou os tanques e que o homem no quadro foi identificado. As duas circulam há mais de trinta anos sem documento que as sustente, e as duas ficam menores quando o acervo entra na conversa.

Comece pelo sexto andar de um hotel na mesma avenida, onde um repórter de cabeça machucada olhava a coluna descer a pista com filme contado e uma lente longa demais. No segundo do disparo, ele achou que o homem de camisa branca ia estragar o enquadramento.

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I  A Foto Histórica do Dia

O sexto andar do Hotel de Pequim

Quatro varandas do mesmo prédio, quatro agências concorrentes e um homem de sacolas parado na pista. Aqui está a ficha completa do dia, do filme emprestado no corredor ao rolo que passou a noite dentro de uma caixa d'água.

Jeff Widener, Associated Press, 5 de junho de 1989, varanda do sexto andar do Hotel de Pequim. A câmera era uma Nikon FE2, a lente uma 400 milímetros com teleconversor acoplado, e o filme, um Fujicolor de 100 ASA.

Widener trabalhava com concussão. Dias antes, uma pedra atirada na rua o acertou no rosto e destruiu uma das câmeras dele, e a semana seguiu com dor de cabeça e visão embaçada.

Na manhã de 5 de junho, o filme tinha acabado. Kirk Martsen, um estudante americano hospedado no mesmo hotel, saiu pelo corredor, conseguiu um rolo de Fuji 100 com outro hóspede e voltou com ele.

Foi com o rolo emprestado que Widener fotografou a coluna descendo a Chang'an no sentido leste. Um homem de camisa branca e calça escura entrou na pista carregando duas sacolas de compras. O primeiro pensamento do fotógrafo, contado por ele em entrevistas depois, foi de irritação: o sujeito ia atrapalhar o enquadramento da coluna.

O quadro que organizou a memória de 1989 saiu de um rolo emprestado por um estudante que passava pelo corredor.

Charlie Cole, da Newsweek, fotografava de outra varanda do mesmo hotel. Stuart Franklin, da Magnum, em serviço para a Time, ocupava uma terceira. Arthur Tsang Hin Wah, da Reuters, uma quarta.

Os enquadramentos saíram diferentes. O de Widener fecha na coluna e no homem, e virou o mais reproduzido do conjunto. O de Franklin abre a avenida e entrega a escala da via. O de Tsang foi o primeiro a entrar no circuito das agências, transmitido ainda na noite de 5 de junho.

Terminado o filme, começou o problema. Cole enrolou o rolo exposto num saco plástico e o afundou na caixa d'água do banheiro do quarto.

Quando os agentes da segurança pública entraram, encontraram a câmera com outro rolo dentro, velaram o filme na frente dele e o obrigaram a assinar um papel admitindo ter fotografado durante a lei marcial. Saíram sem abrir o banheiro.

Cole voltou à caixa d'água depois que a porta fechou. O rolo saiu seco por fora e chegou inteiro à redação da Newsweek.

O filme de Widener tinha saído antes, dentro da roupa de baixo de Martsen, que pedalou até o complexo diplomático e o entregou no escritório da Associated Press. O de Franklin deixou a China numa caixa de chá, na bagagem de um estudante francês.

Nas primeiras páginas de 6 de junho, cada jornal creditou o fotógrafo certo. O que se perdeu na soma foi a quantidade: quem abriu o jornal em Londres, em São Paulo ou em Tóquio via um quadro só, e não quatro.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Quinze em cem reconheceram

A coluna parou diante de um corpo na pista, e não diante de uma câmera. Nenhum dos quatro filmes tinha saído do prédio quando o episódio terminou.

A lenda mais repetida sobre esta imagem diz que ela parou os tanques. A cronologia devolve outra ordem. O homem entrou na pista e a coluna freou diante dele. O tanque da frente tentou contorná-lo pela esquerda, depois pela direita, e ele se deslocou nas duas vezes para continuar no caminho.

Em seguida ele subiu na blindagem, trocou algumas palavras com a tripulação, desceu e foi puxado para a calçada por um grupo de pessoas que nenhum arquivo identificou até hoje. O episódio inteiro durou poucos minutos, e as primeiras páginas com a fotografia só chegariam às bancas na manhã seguinte.

A segunda lenda diz que o homem do quadro foi identificado. Um jornal britânico publicou, ainda em junho de 1989, o nome de um operário de 19 anos, sem apresentar fonte. Passados mais de trinta anos, nenhuma agência, arquivo ou documento oficial confirmou o nome.

Quando Barbara Walters perguntou a Jiang Zemin, em 1990, o que tinha acontecido com o rapaz, o secretário-geral respondeu que acreditava que ele continuava vivo. Não citou nome, data nem paradeiro.

O efeito medido está em outro lugar, e ele é bem menor que a lenda. A jornalista Louisa Lim levou uma reprodução da fotografia a cem estudantes de quatro universidades de elite de Pequim, entre elas a Universidade de Pequim e a Tsinghua, e pediu que dissessem o que estavam vendo.

Quinze dos cem reconheceram a cena. Parte dos outros arriscou um desfile militar, e parte arriscou uma instalação de arte.

Louisa Lim, The People's Republic of Amnesia, 2014

O número explica o resto. Dentro da China a imagem não circula: fica fora do livro escolar, fora da televisão e filtrada nas plataformas de busca. Os oitenta e cinco que não reconheceram estudavam nas universidades mais concorridas do país e nasceram depois de 1989.

Fora da China o efeito foi de memória, e não de política. A imagem organizou a lembrança estrangeira daquele ano num quadro só, e o quadro é o que sobrou quando o resto do noticiário da semana saiu de cena.

Vale dizer o que a medida preserva. A fotografia manteve o episódio em circulação fora do país por trinta e sete anos, num período em que a documentação de campo desapareceu ou virou material fechado.

A troca é essa. A lenda entrega uma fotografia que parou uma coluna de tanques. O acervo entrega quatro fotógrafos em quatro varandas, um homem que ninguém confirmou e quinze estudantes em cem.

 
 

III  Depois da Foto

O que houve com os quatro

Charlie Cole levou o World Press Photo do ano de 1989 com o quadro que passou a noite dentro da caixa d'água. Seguiu trabalhando na Ásia, morou em Bali e morreu lá em setembro de 2019, aos 64 anos.

Jeff Widener foi finalista do Pulitzer em 1990 com a mesma cena. Ele conta, em entrevistas dadas ao longo de três décadas, que a fotografia virou o rótulo permanente da carreira: o resto do trabalho passou a ser apresentado depois dela.

Stuart Franklin presidiu a Magnum Photos entre 2006 e 2009 e voltou ao episódio em The Documentary Impulse, livro de 2016 em que discute o que acontece com uma fotografia depois que ela vira ícone.

Arthur Tsang Hin Wah, o primeiro a transmitir, é o menos citado dos quatro. O quadro dele chegou às redações antes de qualquer outro e saiu da conversa depois, empurrado pelo enquadramento mais fechado da Associated Press.

Existe ainda um quinto quadro. Terril Jones, também da Associated Press, fotografou a mesma cena do nível da rua, de um ângulo em que o homem aparece entre pedestres, de costas para a coluna. A imagem ficou vinte anos guardada e só foi publicada em 2009.

Kirk Martsen, o estudante do rolo na roupa de baixo, não é fotógrafo e não aparece em crédito nenhum. Sem a bicicleta dele, o quadro mais reproduzido de 1989 teria ficado num rolo dentro de um quarto de hotel vasculhado no dia seguinte.

Os quatro negativos foram parar em acervos diferentes, e a mesma cena está guardada hoje em quatro empresas que seguem concorrendo entre si. Pedir a licença de uso a uma delas não dá direito às outras três.

Dentro da China, os quatro quadros seguem fora de circulação. A busca pelo termo em plataforma local devolve resultado vazio, e a data volta todo ano com o mesmo filtro ligado.

O Hotel de Pequim continua de pé, no mesmo trecho da Chang'an. As varandas do sexto andar dão para a mesma pista, e a distância entre a janela e o ponto onde a coluna freou é a de 1989.

Sobre o homem da pista, o acervo continua vazio: nome confirmado, paradeiro e fotografia posterior seguem fora de qualquer arquivo aberto. As duas sacolas de compras que ele carregava são o detalhe mais concreto que a documentação preservou dele.

A fotografia que o mundo inteiro reconhece tem quatro autores creditados e um protagonista sem nome.

"Quantas fotografias você reconhece de imediato sem saber quem as fez?"

 
 

Quiz da edição

Quando os agentes de segurança invadiram o quarto do hotel para revistar câmeras e filmes, onde Charlie Cole tinha escondido o rolo já exposto?

ADebaixo do colchão da cama
BDentro de uma caixa de chá na bagagem de um viajante
CNum saco plástico afundado na caixa d'água do banheiro
DCosturado no forro interno da mala
Veja o ranking de quem mais acerta →
 
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