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Os Penteados de Costas de Ojeikere

Em Lagos, em 1968, o fotógrafo nigeriano começou a registrar penteados pela nuca e juntou cerca de mil imagens anotadas como fichas de arquivo

Dez fotos de penteados de J. D. Okhai Ojeikere, quase todas de costas, numa parede do MAMCO, em Genebra, em 2001

Penteados de Ojeikere no MAMCO, arquivo do museu, 2001

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A 6 graus ao norte da linha do Equador, a ilha de Lagos fica espremida entre a lagoa e o golfo da Guiné. Em 1968, quem cruzava a ponte Carter, vindo do continente, via prédios de escritórios de vários andares subindo acima dos telhados de zinco dos mercados.

Lagos era a capital da Nigéria, independente desde 1960. Desde julho de 1967, o país enfrentava uma guerra civil contra a secessão de Biafra, no sudeste, e o governo militar despachava da ilha as ordens para a frente de batalha.

Nas ruas, o cabelo das mulheres também subia. Umas trançavam os fios rentes ao couro cabeludo, em linhas que se cruzavam como ruas num mapa. Outras enrolavam mechas com linha preta até formar hastes duras, apontadas para o alto.

Cada desenho levava horas nas mãos de uma cabeleireira, em salões de bairro ou na varanda de casa. A cliente passava a tarde sentada, com a cabeça entre as mãos da trançadeira, enquanto um pente fino repartia o couro cabeludo em quadrados e linhas.

O desenho durava pouco: em algumas semanas as tranças eram desfeitas, outro desenho tomava o lugar, e o anterior sobrevivia só na memória de quem tinha visto.

Naquele ano, o fotógrafo J. D. Okhai Ojeikere, funcionário de uma agência de publicidade de Lagos, passou a abordar mulheres na rua, em festas, em casamentos e em escritórios. Pedia licença para fotografar o cabelo.

O pedido vinha com uma condição estranha para um retratista. A mulher tinha de virar de costas, e a câmera ficava apontada para a nuca, longe dos olhos e do sorriso.

Ojeikere manteve o método por três décadas e juntou cerca de mil imagens, quase todas pela nuca, batizadas pelo penteado retratado e anotadas com data e lugar.

O motivo da pose, e o arquivo nascido dela, aparecem numa parede de museu em Genebra, descrita logo abaixo.

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I  A Foto Histórica do Dia

A parede de Genebra

A foto do dia mostra dez penteados fotografados por J. D. Okhai Ojeikere, enfileirados numa parede branca do MAMCO, o Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Genebra, na Suíça. O arquivo do museu fez a imagem durante a exposição Hairstyles 1968-1999 (Penteados 1968-1999), aberta de 21 de fevereiro a 29 de abril de 2001.

As dez molduras brancas estão na mesma altura, com espaço igual entre elas, sobre um piso de concreto. Nove cabeças aparecem de costas ou de lado, pela nuca. Só a sexta, contando da esquerda, mostra uma mulher de perfil, de brinco, e nenhuma olha para a câmera.

Sob as imagens, dentro das molduras, corre uma linha curta de texto. A montagem lembra um mostruário de catálogo: o mesmo enquadramento repetido dez vezes deixa à vista a única variação de uma cabeça para outra, o desenho do cabelo.

O MAMCO liberou a foto em 2018, numa parceria com a Wikimedia da Suíça, a associação que apoia a Wikipédia no país. A imagem ilustra hoje o verbete de Ojeikere nas enciclopédias livres em inglês e em francês.

O homem da Brownie

Ojeikere nasceu em 10 de junho de 1930 em Ovbiomu-Emai, aldeia do atual estado de Edo, no sul da Nigéria. O nome de batismo era Johnson Donatus Aihumekeokhai Ojeikere: o J. D. abrevia os dois primeiros, e Okhai encurta o terceiro.

Em 1950, comprou por duas libras uma Brownie D, câmera simples da Kodak, sem flash, e um amigo ensinou a ele o básico. Em 1951 escreveu ao Ministério da Informação, em Ibadan, pedindo emprego, e mandou a carta de novo a cada 15 dias durante dois anos.

O ministério respondeu nos últimos meses de 1953. Em 1954 ele entrou como assistente de câmara escura, a sala sem luz onde se revelam os filmes.

Em 1961 virou fotógrafo de estúdio da Television House, a emissora de televisão de Ibadan. Em 1963 mudou para Lagos, contratado pela agência West Africa Publicity, e em 1967 recebeu convite para entrar no Conselho de Artes da Nigéria. No ano seguinte começou os penteados.

Por que de costas

A pose tirava a dona do cabelo do centro da foto. Sem rosto, sobrava a construção da cabeça: as divisões do couro cabeludo, as tranças convergindo para um ponto, as hastes enroladas em linha.

O fundo era liso, sem objeto de cena, e a luz caía macia, sem sombra dura no pescoço. Distância e enquadramento se repetiam de uma imagem para a outra, como numa ficha técnica.

O título de cada foto era o penteado retratado. Quando o desenho pedia, Ojeikere fotografava a cabeça pelos dois lados.

O Museu de Arte de Cleveland, nos Estados Unidos, guarda um desses pares, de 1971: um penteado de kiko, o cabelo enrolado em linha, visto pelo perfil esquerdo e pelo direito, sob os números de inventário 2015.17.1 e 2015.17.2.

Ojeikere fotografava o penteado, e a mulher que o usava ficava de costas para a lente.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Um penteado com data e lugar

Antes da série, o penteado nigeriano passava de mão em mão. Cabeleireiras aprendiam umas com as outras, os desenhos mudavam de bairro para bairro, e quase nada ficava guardado depois que as tranças eram desfeitas.

Ojeikere deu a esse ofício um arquivo. Os títulos das fotos registravam os penteados na língua de quem os usava, e esses títulos guardam pedaços da história da cidade.

Os prédios na cabeça

Muitos dos desenhos que ele fotografou eram chamados de Onile Gogoro, expressão da língua iorubá, a do sudoeste da Nigéria, que significa “erguer-se alto”. O termo nasceu para os prédios de vários andares que brotavam nas cidades nigerianas e se espalhou pelas canções dos anos 1960.

No Onile Gogoro, o cabelo sobe da nuca e se junta num pico, como uma torre de concreto. A cidade que crescia para cima aparecia, em miniatura, na cabeça das mulheres que andavam por ela.

A série também separa os dois grandes ofícios das cabeleireiras iorubás. O irun didi, a trança rente ao couro cabeludo, desenha linhas como as de um mapa. O irun kiko, o cabelo enrolado em linha preta, levanta hastes duras que seguram a forma no ar.

O ângulo escolhido por Ojeikere é o mesmo da cabeleireira, que trabalha de pé atrás da cliente. A foto mostra o penteado do ponto de vista de quem o fez, com as divisões e os cruzamentos legíveis, e serve de molde para quem quiser refazer o desenho.

A leitura do museu

Em março de 2014, a pesquisadora Giulia Paoletti, do departamento de artes da África, Oceania e Américas do Metropolitan Museum of Art, publicou no blog do museu uma homenagem a Ojeikere. Ela listou o vocabulário dele: nenhum fundo ou objeto de cena, mulheres elegantes, penteados elaborados, luz suave e ampliação impecável em preto e branco. E concluiu:

“Nas mãos de Ojeikere, a fotografia virou um meio de registrar a criatividade passageira que dava forma à vida social e cultural nigeriana.”

Segundo a crítica de arte Allison Meier, em texto de 2014, o arquivo de Ojeikere passava de 10 mil fotos da Nigéria. Os penteados ocupam cerca de mil delas, e o resto registra a vida da cidade e do campo, da independência aos governos militares.

Um penteado durava semanas, e a ficha de Ojeikere guarda o desenho há mais de meio século.

Com a série, o cabelo entrou nos museus como documento de uma cidade em obra, registrado com o rigor de um inventário. Cada nuca carrega o título do penteado, e cada título carrega um pedaço de Lagos.

 

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III  Depois da Foto

Da ilha de Lagos a Londres

Em 1975, depois de 12 anos na West Africa Publicity, Ojeikere ocupava o posto de chefe da fotografia comercial quando a agência extinguiu o cargo. Com a demissão, abriu o próprio estúdio, o Foto Ojeikere, na ilha de Lagos.

Do estúdio, ele manteve a série de penteados por mais de duas décadas. A exposição de Genebra fecha a contagem em 1999.

A estrada para fora da Nigéria

As fotos saíram do país em 1995, numa mostra na Suíça, no mesmo ano da primeira exposição individual dele na Nigéria.

Em 2000, a Fondation Cartier, a fundação de arte contemporânea da joalheria Cartier em Paris, fez uma exposição só dele e publicou um livro organizado pelo curador francês André Magnin. Em 2001 veio a mostra do MAMCO, a da foto do dia.

Em 2004, o Museu Hara, em Tóquio, juntou as imagens dele às do fotógrafo malinês Seydou Keïta. Em 2013, o curador italiano Massimiliano Gioni levou uma grande seleção dos penteados à Bienal de Veneza, na exposição Il Palazzo Enciclopedico (O palácio enciclopédico), montada no Arsenal, o antigo estaleiro da cidade.

Ojeikere morreu em Lagos em 2 de fevereiro de 2014, aos 83 anos. O cineasta nigeriano Tam Fiofori fez sobre ele o documentário J. D. Okhai Ojeikere: Master Photographer (Mestre fotógrafo).

As herdeiras da série

A fotógrafa Medina Dugger, radicada em Lagos, chegou à cidade em 2011 a convite de um colega de curso, um dos fundadores do festival de fotografia LagosPhoto. Ali conheceu os penteados de Ojeikere.

Deles saiu Chroma: An Ode to J. D. Okhai Ojeikere (Croma: uma ode a J. D. Okhai Ojeikere), série em cores fortes com versões atuais dos mesmos desenhos.

As ampliações dele entraram nas coleções do Metropolitan Museum of Art e do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York, do Instituto de Arte de Chicago e do Museu de Belas Artes de Houston.

Em 2013, a Tate, em Londres, comprou oito imagens de 1971 a 1975, ampliadas em 2012 em gelatina e prata, o papel clássico do preto e branco. O dinheiro veio de um fundo para arte africana apoiado pelo banco nigeriano Guaranty Trust.

Em 2025, a Tate Modern pendurou as oito na exposição Nigerian Modernism (Modernismo nigeriano), numa sala chamada Eko, a palavra iorubá para Lagos.

As nucas fotografadas em Lagos chegaram a museus de Paris, Tóquio, Nova York e Londres.

A 6 graus ao norte do Equador, a ilha de Lagos tem hoje torres bem mais altas que as de 1968. A 5 mil quilômetros da ponte Carter, o Onile Gogoro de Ojeikere segue de costas no acervo da Tate, e a etiqueta traz o título do penteado e as datas 1971 a 1975.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano J. D. Okhai Ojeikere começou, em Lagos, a fotografar penteados nigerianos pela nuca?

A1963
B1954
C1968
D1967

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