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Os Negativos de Ernest Cole, do Passe ao Cofre de Estocolmo

Em Joanesburgo, um fotógrafo negro registrou o passe e as minas, e 60 mil negativos dele reapareceram num banco sueco em 2017

Plataforma da estação de Doornfontein, em Joanesburgo, com quatro homens brancos de terno em primeiro plano e a multidão de passageiros negros ao fundo, fotografada por Ernest Cole

House of Bondage, Ernest Cole, anos 1960

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Numa calçada de Joanesburgo, no começo dos anos 1960, um policial para um homem negro e estende a mão. Não pede documento de identidade. Pede o passe, uma caderneta de capa marrom que os negros da África do Sul chamavam de dompas, algo como passe idiota em africâner.

Dentro dela estavam o nome, a impressão digital, o carimbo do patrão e a permissão para estar naquela cidade. Sem o carimbo certo, o homem ia preso ali mesmo, algemado a outros na calçada, à espera do camburão.

A poucos metros, um rapaz franzino segura um saco de papel pardo, como quem leva o almoço. No fundo do saco há um furo, e atrás do furo, a lente de uma câmera de 35 milímetros.

O rapaz se chamava Ernest Cole. Nasceu Ernest Levi Tsoloane Kole, em 21 de março de 1940, em Eersterust, nos arredores de Pretória. Largou a escola em 1957, aos 17 anos, quando o governo implantou a educação banta (ensino separado e rebaixado para negros, criado pela lei de 1953).

Aprendeu fotografia sozinho e por correspondência, num curso do New York Institute of Photography. Trabalhou na revista Drum, a publicação negra de Joanesburgo, ao lado do fotógrafo Jürgen Schadeberg, e passou noites com um livro de Henri Cartier-Bresson sobre o povo de Moscou.

Para circular onde negro não podia, fez um movimento ousado. Trocou o K do sobrenome por C e convenceu a junta de classificação racial a registrá-lo como mestiço. Com o novo papel, entrava em bairros e prédios que o passe antigo vedava.

A partir daí, apontou a câmera para o mecanismo inteiro: a batida policial, o trem lotado, a escola sem carteira, a fila da mina. Guardou cada rolo, porque sabia que nenhum jornal do país publicaria aquelas imagens.

Uma delas, feita numa estação de trem de Joanesburgo, abre esta edição. A seção I conta o que ela mostra e como foi feita.

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I  A Foto Histórica do Dia

A plataforma cheia e a plataforma vazia

A resposta de ontem

Onde Hippolyte Bayard passou os últimos anos?

Em Nemours, às margens do rio Loing, a uns 80 quilômetros ao sul de Paris. Bayard se aposentou do Ministério das Finanças em 1866, mudou-se para lá e viveu na cidade até 14 de maio de 1887, aos 86 anos. O acervo dele seguiu para a Sociedade Francesa de Fotografia, onde está até hoje.

A foto do topo está em House of Bondage (Casa da Servidão), o livro de Ernest Cole publicado em 1967. Cole a fez do alto, sobre a plataforma da estação de Doornfontein, bairro vizinho ao centro de Joanesburgo, na hora do rush.

Em primeiro plano, quatro homens brancos de terno esperam com folga, um deles com uma pasta na mão. Atrás da cabine de tijolo, a outra ponta da plataforma está tomada de passageiros negros, tão juntos que quase não se vê o chão.

Os vagões separados

A divisão estava na lei. Desde 1953, a Lei de Reserva de Instalações Separadas deixava o governo reservar bancos, banheiros, entradas e vagões para cada raça, sem obrigação de que fossem iguais. Nas estações, brancos e negros esperavam em trechos diferentes da plataforma, diante do vagão de cada um.

Cole fotografou a cena de cima, com a plataforma inteira no quadro. Os fios e os trilhos cortam a imagem em diagonal, e ninguém olha para a câmera.

A câmera escondida

Numa estação, um negro de câmera na mão virava suspeito. Cole trabalhava rápido, com a câmera junto ao peito. Nas ruas, usava o saco de papel; nos trens, segurava o equipamento abaixo da linha dos ombros.

Ele mesmo explicou no livro que o perigo vinha dos dois lados: da polícia, que o prenderia pelo filme, e dos próprios fotografados, que podiam tomá-lo por informante.

O que o livro reuniu

House of Bondage tem mais de 180 fotos, divididas em capítulos sobre as minas, a polícia e o passe, a escola, o trabalho doméstico, a igreja e os bairros negros. O texto acompanha cada capítulo, escrito com o jornalista Thomas Flaherty a partir dos relatos de Cole.

A foto da plataforma explica o apartheid sem precisar de legenda: o espaço sobra de um lado e falta do outro.

Cole admirava Henri Cartier-Bresson, que definiu o método numa frase de Images à la sauvette, de 1952:

“Para mim, a fotografia é o reconhecimento simultâneo, numa fração de segundo, do significado de um fato e de uma organização rigorosa das formas.”

Em Doornfontein, a fração de segundo de Cole guardou as duas partes: a geometria dos trilhos e da multidão, e o sentido dela. Na primeira edição, a imagem de uma plataforma dividida abria o livro em página dupla, logo depois da capa.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O livro que Pretória proibiu

Em 1966, Ernest Cole saiu da África do Sul com os negativos e nunca mais voltou. Chegou a Nova York, onde a agência Magnum apoiou o projeto, e a editora Random House lançou House of Bondage em 1967.

Foi a primeira vez que o público de fora viu o apartheid fotografado por dentro, por um negro que vivia sob as mesmas leis. Até então, as imagens do país que chegavam aos Estados Unidos e à Europa vinham quase sempre de repórteres brancos e estrangeiros.

O passe em sequência

O capítulo da polícia mostra o sistema de passes em etapas, como Cole o via na rua:

1. O policial, às vezes à paisana, aborda o homem e pede a caderneta.

2. Sem carimbo válido, o homem é preso e algemado a outros detidos.

3. A fila de presos espera na calçada, sentada no meio-fio.

4. O camburão leva todos para a delegacia e, dali, para o tribunal de passes.

5. O julgamento dura minutos, e a pena é multa, prisão ou trabalho forçado numa fazenda.

O passe era o centro do apartheid. Ele decidia onde o negro podia morar, trabalhar e dormir, e foi contra ele que a multidão protestou em Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia abriu fogo e 69 pessoas ficaram no chão.

A proibição

O governo sul-africano proibiu House of Bondage logo após o lançamento. O livro não podia ser vendido, importado nem guardado no país, e Cole passou a ser tratado como inimigo do Estado.

Os sul-africanos ficaram anos sem ver, dentro do próprio país, as fotos mais completas já feitas sobre a vida deles.

Fora dali, o livro circulou entre jornalistas, estudantes e militantes contra o apartheid, e as fotos do passe e das minas entraram em reportagens e cartazes. O exemplar contrabandeado virou objeto de leitura escondida em Soweto.

Um olhar de dentro

O que mudou foi o ponto de vista. As fotos de Cole não mostram o negro como paisagem nem como vítima genérica. Mostram o empregado doméstico cansado no trem da madrugada, o menino sem caderno, a mãe no portão do patrão.

Cada foto vem com uma legenda longa e precisa, que explica a lei por trás da cena. O leitor sai do livro sabendo como o sistema funcionava, artigo por artigo.

 

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III  Depois da Foto

O cofre de Estocolmo

Depois de 1967, Ernest Cole fotografou o Sul dos Estados Unidos com uma bolsa da Fundação Ford, de olho na vida dos negros americanos. O projeto não virou livro. Ele se mudou entre Nova York e a Suécia, onde trabalhou com a agência Tio Fotografer, de Estocolmo.

No fim dos anos 1970, perdeu as câmeras e o rumo. Viveu sem casa fixa em Nova York, e os amigos o perderam de vista por longos períodos. Morreu de câncer no pâncreas em 19 de fevereiro de 1990, aos 49 anos, oito dias depois de Nelson Mandela sair da prisão.

As cópias de Gotemburgo

Por décadas, o que se conhecia dele estava em House of Bondage e num conjunto de cópias guardado pela Fundação Hasselblad, em Gotemburgo, na Suécia. Os negativos originais pareciam perdidos.

O telefonema do banco

Em 2017, o banco sueco SEB procurou a família de Cole. Num cofre de uma agência de Estocolmo havia caixas com cerca de 60 mil negativos dele, guardados ali desde as décadas anteriores.

O sobrinho Leslie Matlaisane foi a Estocolmo e voltou com o material. Até hoje ninguém explicou em público quem abriu o cofre, quem pagou o aluguel durante tantos anos nem por que o banco só avisou a família depois de tanto tempo.

Os 60 mil negativos passaram quase três décadas trancados a poucos quilômetros das cópias da Hasselblad, e ninguém sabia.

O que o cofre trouxe

O lote incluía as fotos sul-africanas de antes do exílio e milhares de imagens americanas inéditas, feitas nos anos em que Cole parecia ter parado de fotografar. A Ernest Cole Family Trust passou a organizar o acervo com a Magnum.

A partir de 2017, exposições em Joanesburgo, Nova York e Paris mostraram pela primeira vez as fotos tiradas do cofre. Os curadores encontraram rolos inteiros nunca copiados, com a sequência de cada cena quadro a quadro, do primeiro disparo ao último.

Pela primeira vez, foi possível ver o que vinha antes e depois das fotos famosas: o policial chegando, o homem tirando a caderneta do bolso, a fila crescendo na calçada. O livro de 1967 mostrava o instante; o cofre mostrou o filme inteiro.

Na África do Sul, House of Bondage hoje está nas livrarias e nas escolas, e a foto da plataforma de Doornfontein voltou à cidade onde foi feita. O caso dos negativos de Estocolmo também ganhou as telas, contado com as imagens achadas no banco.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual cineasta transformou os negativos do cofre de Estocolmo num filme sobre Ernest Cole?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quantos mortos deixou a polícia ao abrir fogo contra o protesto do passe em Sharpeville, em março de 1960?

A21
B45
C69
D92

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