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Os Ministros Sem Flash de Haia

Erich Salomon levou uma Ermanox para as conferências dos anos 1920 e mostrou a diplomacia europeia sem pose, à luz das lâmpadas da sala

Fotografia de Erich Salomon com ministros em sessão noturna da segunda Conferência de Haia, em janeiro de 1930

Haia, sessão noturna, Erich Salomon, 1930

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A 4 quilômetros da praia de Scheveningen, no Mar do Norte, o Binnenhof (o conjunto de prédios medievais onde funciona o parlamento holandês) recebeu em janeiro de 1930 os governos que ainda discutiam a conta da Primeira Guerra Mundial. Era a segunda Conferência de Haia sobre as reparações, o dinheiro que a Alemanha devia pagar aos vencedores.

As sessões entravam pela noite. Na sala, sob lâmpadas de teto, ministros franceses e alemães se debruçavam sobre papéis, fumavam, apoiavam a cabeça nas mãos e esperavam a tradução do discurso seguinte.

Fotógrafo de imprensa, naquele tempo, trabalhava do lado de fora. Esperava a delegação sair para o retrato oficial na escadaria, com todos de pé, olhando para a frente e prontos para o clique.

O motivo era técnico. As câmeras de jornal usavam chapas grandes e lentes escuras, e uma sala iluminada por lâmpadas comuns exigia pó de magnésio, que explodia num clarão branco e deixava fumaça no ar. Ninguém acendia magnésio no meio de uma negociação.

Resultado prático: a fotografia de conferência mostrava o antes e o depois. O trabalho da diplomacia, a mesa no meio da madrugada, ficava sem imagem.

Naquela noite de janeiro, um homem de terno escuro estava sentado num canto da sala de Haia. Tinha 43 anos, era doutor em direito e segurava junto ao corpo uma câmera pequena, do tamanho de um livro grosso.

Ele não pediu que ninguém posasse. Esperou que o político francês André Tardieu, então primeiro-ministro, e o alemão Julius Curtius, ministro das Relações Exteriores, se esquecessem dele, e abriu o obturador (a cortina que deixa a luz entrar) por uma fração longa de segundo.

A cópia mostra a sala como estava: homens cansados, cinzeiros, papéis espalhados, ninguém olhando para a lente. A revista Time incluiu a imagem, em 2016, na lista 100 Photographs: The Most Influential Images of All Time (100 fotografias, as imagens mais influentes de todos os tempos).

A câmera tinha nome de fábrica alemã, e o homem tinha um passado nos tribunais de Berlim antes de chegar às mesas dos chanceleres.

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I  A Foto Histórica do Dia

Um advogado com câmera de bolso

Erich Salomon nasceu em Berlim, em 28 de abril de 1886, filho de uma família judia de banqueiros. Estudou zoologia e engenharia antes de se formar em direito, e terminou o doutorado jurídico em 1913.

A inflação alemã do começo dos anos 1920 levou o patrimônio da família. Salomon passou por vários empregos até entrar, em 1926, no departamento de publicidade da Ullstein, a maior editora de jornais e revistas de Berlim.

Ali, cercado de fotógrafos e editores, ele percebeu que as revistas ilustradas pagavam por imagens que ninguém conseguia fazer. Uma delas era a do tribunal: o júri, o réu e o juiz durante o julgamento, onde câmera era proibida.

A câmera de Dresden

Em 1924, a fábrica Ernemann, de Dresden, tinha lançado a Ermanox. Era uma câmera compacta para chapas de vidro de 4,5 por 6 centímetros, com uma lente Ernostar de abertura f/2 (a medida de quanto a lente se abre; quanto menor o número, mais luz entra).

As câmeras de imprensa comuns trabalhavam com lentes bem mais escuras. A Ermanox deixava passar luz suficiente para fotografar dentro de uma sala com as lâmpadas acesas, sem magnésio, desde que o fotógrafo segurasse o aparelho firme durante a exposição.

Salomon aprendeu a usá-la sozinho. Em 1928, fotografou escondido o julgamento de um caso criminal em Berlim, com a câmera disfarçada sob o chapéu e um furo para a lente.

A Berliner Illustrirte Zeitung (a revista ilustrada semanal da Ullstein) publicou as imagens. Salomon tinha 42 anos e trocou a publicidade pela reportagem fotográfica.

Os três truques do método

Para entrar onde câmera não entrava, ele combinava três recursos:

1. A roupa: fraque ou smoking, igual ao dos convidados, para ser tomado por um deles.

2. O disfarce do aparelho: a câmera escondida num chapéu, numa pasta ou entre livros, com a lente para fora por um furo.

3. A paciência: esperar sentado, imóvel, até a sala esquecer que ele estava ali, e só então expor a chapa.

O idioma ajudava. Salomon falava francês e inglês com fluência e circulava pelas recepções diplomáticas como mais um assessor.

O que a foto mostra

A imagem no topo, catalogada no Wikimedia Commons como The Hague (Haia), foi feita na segunda Conferência de Haia, em janeiro de 1930, e está em domínio público.

O registro da foto no Wikidata identifica na cena André Tardieu, Julius Curtius e o ministro francês Louis Loucheur. Estão sentados em volta da mesa, sem gravata ajeitada para a câmera e sem expressão preparada.

Salomon fotografava a reunião enquanto ela acontecia, e a sala inteira entrava no quadro como estava.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A mesa vista de dentro

Antes de Salomon, a imagem pública de um chanceler era a do retrato oficial: corpo inteiro, rosto sério, olhar para o horizonte. O cidadão via o político como o político queria ser visto.

As fotos da Ermanox trouxeram outra cena. O leitor da revista passou a ver o ministro bocejando, discutindo com o colega, lendo um papel de óculos na ponta do nariz, à uma ou duas da manhã.

Por que os políticos deixavam

No começo, muitos não percebiam que estavam sendo fotografados. Depois, passaram a aceitar a presença dele, e alguns a pedir.

O alemão Gustav Stresemann, ministro das Relações Exteriores e Nobel da Paz de 1926, tolerava Salomon nas reuniões. O francês Aristide Briand, que dividiu aquele prêmio com ele, foi além e transformou o fotógrafo em parte do cenário.

A frase de Briand sobre ele circulou pelas redações europeias e ficou ligada ao nome de Salomon desde então:

“Para uma conferência da Liga das Nações bastam alguns ministros das Relações Exteriores, uma mesa e Salomon.”
Aristide Briand, citado na imprensa europeia do fim dos anos 1920

Em 1931, numa recepção no Quai d'Orsay (a sede do Ministério das Relações Exteriores da França, em Paris), Briand avistou o fotógrafo e apontou o dedo para ele. Salomon registrou a cena: o anfitrião denunciando o intruso que todos já esperavam.

Briand o chamava de “le roi des indiscrets” (o rei dos indiscretos).

O nome que a imprensa deu

A revista inglesa The Graphic publicou as fotos de Salomon com a expressão candid camera (câmera franca, a que fotografa sem a pessoa posar). O termo ficou em inglês para todo um gênero de foto feita sem aviso.

Em 1931, a editora Engelhorn, de Stuttgart, publicou o livro dele, Berühmte Zeitgenossen in unbewachten Augenblicken (Contemporâneos famosos em momentos desprevenidos). A capa e várias páginas estão hoje no Wikimedia Commons.

A Ermanox tirou o magnésio da sala, e com ele saiu a pose.

O método atravessou o oceano. Em 1932, Salomon fotografou escondido a Suprema Corte dos Estados Unidos em sessão, onde a câmera era vetada, e a imagem também está no Commons.

Ele trocou depois a Ermanox por uma Leica, a câmera alemã de filme de 35 milímetros, que permitia fazer 36 fotos sem trocar a chapa. O princípio continuou igual: luz da sala, nenhum clarão, nenhum aviso.

 

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III  Depois da Foto

As chapas guardadas na Holanda

Em 1933, com a chegada de Adolf Hitler ao poder, Salomon perdeu o espaço na imprensa alemã por ser judeu. Mudou-se com a família para a Holanda, país da mulher, Maggy, e seguiu trabalhando para revistas estrangeiras.

A invasão alemã de maio de 1940 fechou a saída. A família ficou presa em território ocupado, e Salomon escondeu parte do acervo com amigos holandeses.

O que aconteceu com a família

Em 1943, os Salomon foram denunciados e levados ao campo de Westerbork, no norte da Holanda, e de lá a Theresienstadt, na atual República Tcheca.

Em 1944, Erich, Maggy e o filho mais novo, Dirk, foram deportados para Auschwitz. Nenhum dos três voltou. As placas de memória com os nomes deles estão hoje na calçada da Hölderlinstraße, em Berlim, em frente ao endereço onde moraram.

O filho mais velho, Otto, estava na Inglaterra desde antes da guerra e escapou. Adotou lá o sobrenome Hunter e passou a assinar Peter Hunter.

O resgate das chapas

Depois de 1945, Peter Hunter voltou à Holanda e recuperou as chapas e os negativos que o pai tinha deixado escondidos. Dedicou as décadas seguintes a organizar o material e a mostrá-lo em exposições e livros.

Em 1971, a Deutsche Gesellschaft für Photographie (a sociedade alemã de fotografia) criou o Prêmio Dr. Erich Salomon, entregue a fotojornalistas pelo conjunto da carreira.

Em 1980, a Berlinische Galerie, o museu de arte de Berlim, comprou o arquivo. É lá que as chapas de vidro da Ermanox estão guardadas.

A foto de Haia sobreviveu à guerra escondida na casa de amigos, e o fotógrafo que a fez não sobreviveu à deportação.

O registro do Wikidata não guarda a hora exata em que a chapa foi exposta, e as fontes divergem sobre o horário da sessão. A data no Commons é 3 de janeiro de 1930.

O que se sabe é o que a cópia mostra. Os ministros continuam na sala do Binnenhof, a 4 quilômetros do Mar do Norte, cansados em volta da mesa, sem saber que a luz das lâmpadas do teto bastou para uma lente f/2 guardá-los ali.

“Se alguém fotografasse sem aviso a sua mesa de trabalho às duas da manhã, o que a foto mostraria?”

 
 
Quiz da edição

Qual era a abertura da lente da câmera Ermanox que Erich Salomon usava para fotografar salas iluminadas só por lâmpadas comuns, sem magnésio?

Af/4,5
Bf/8
Cf/2
Df/1

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