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Os 65 Minutos de Mao no Yangtzé
Em julho de 1966, a agência Xinhua anunciou que um homem de 72 anos tinha nadado quase 15 km em Wuhan, mais rápido que qualquer recordista
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Mao no Yangtzé, Wuhan, julho de 1966
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A cerca de 1.100 quilômetros da foz, o rio Yangtzé atravessa Wuhan com mais de 1 quilômetro de largura e água cor de barro. Da margem de Wuchang, em julho, se viam as torres da ponte de ferro e concreto inaugurada em 1957, a primeira a cruzar o rio inteiro.
No verão, a correnteza ali desce forte, engrossada pelas chuvas que caem rio acima. Barcos de carga atravessam em diagonal, porque quem tenta cruzar em linha reta é levado rio abaixo antes de chegar ao meio.
Na manhã de 16 de julho de 1966, a margem estava cheia. Milhares de nadadores, soldados e estudantes esperavam a largada da travessia anual que a cidade organizava desde a década anterior, com bandeiras vermelhas e faixas de slogan presas nas boias.
Uma lancha encostou num barco maior, ancorado perto da margem. Dela desceu um homem de roupão, cabelo ralo penteado para trás, corpo pesado, que completaria 73 anos em dezembro.
Ele entrou na água sem pressa. Boiou de costas por um tempo, virou de lado, acenou para os barcos em volta. Guarda-costas nadavam a poucos metros, e uma lancha seguia o grupo com fotógrafos e cinegrafistas a bordo.
Ninguém de fora sabia que ele estava em Wuhan. Fazia meses que ele não aparecia em público, e jornais estrangeiros tinham começado a perguntar se estava doente.
Nove dias depois, em 25 de julho, a agência oficial de notícias Xinhua distribuiu a notícia com fotos. O texto dizia que ele tinha nadado quase 15 quilômetros em 65 minutos.
A conta não fechava. Para cobrir a distância nesse tempo, um nadador teria de manter um ritmo bem acima do recorde mundial dos 1.500 metros livres da época, que passava de 16 minutos. Só que a correnteza do Yangtzé, de julho, entrava inteira na soma.
As fotos rodaram o mundo em poucos dias. Mostravam a cabeça do homem acima da água marrom, o rosto sorridente, e mais nada que permitisse medir o tempo. O que se lia nelas era outra mensagem, e quem a escreveu estava na lancha.
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I A Foto Histórica do Dia
I, A cabeça acima da água marrom
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Mao Tsé-tung, nascido em 1893 na aldeia de Shaoshan, na província de Hunan, governava a China desde 1949 como presidente do Partido Comunista. Em 1966, aos 72 anos, estava longe de Pequim havia meses, e a ausência alimentava boatos de doença dentro e fora do país.
A imagem que está no Wikimedia Commons é de Hou Bo, fotógrafo oficial que acompanhava Mao desde os anos 1940. A cópia saiu pela Xinhua em julho de 1966 e está catalogada em domínio público, com Hou Bo como autor.
O que a imagem mostra
Mao aparece de frente, a cabeça e os ombros fora da água, o rosto virado para a câmera e um meio sorriso. A água ao redor é opaca, sem margem à vista, e não há boia, raia ou relógio que dê escala à cena.
Ao fundo, em outras fotos da mesma série, aparecem os nadadores da escolta e as faixas vermelhas presas nos barcos. A foto escolhida para circular foi a mais fechada, só o rosto e o rio, sem ninguém por perto.
O ritmo que o relógio não registra
A Xinhua não informou de onde a contagem começou nem onde terminou. A distância de quase 15 quilômetros acompanhava o sentido da correnteza, rio abaixo, e não a travessia de margem a margem.
Li Zhisui, médico pessoal de Mao por mais de duas décadas, escreveu em 1994 no livro A Vida Privada do Presidente Mao que o líder quase não batia os braços no rio. Segundo o médico, Mao boiava de costas e deixava a água levar o corpo, com a barriga para cima.
O nado lateral e a flutuação eram o estilo dele desde a juventude em Changsha, onde atravessava o rio Xiang. Dez anos antes de Wuhan, em 1956, ele já tinha cruzado o Yangtzé três vezes e escrito um poema sobre a experiência:
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Pouco importa o vento que sopra e as ondas que batem, é melhor que passear sem pressa num pátio tranquilo.
Mao Tsé-tung, Natação (poema), 1956
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A correnteza fez a maior parte da distância, e a Xinhua contou o percurso inteiro como se fosse braçada.
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Hou Bo e a mulher, a cinegrafista Xu Xiaobing, registravam Mao em viagens e reuniões desde a guerra civil. Foi Hou Bo quem fotografou, em 1º de outubro de 1949, Mao no alto do portão da Praça da Paz Celestial anunciando a fundação da República Popular. Coube ao casal, naquela manhã de 1966, escolher o enquadramento que faria do passeio no rio uma prova de vigor.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
II, O recado que chegou a Pequim
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Em 18 de julho de 1966, dois dias depois do nado, Mao voltou a Pequim. A notícia da Xinhua ainda não tinha saído, mas dentro do partido a viagem já era conhecida, e a chegada mudou o equilíbrio de forças na capital.
Desde maio, a Revolução Cultural (campanha que Mao lançou para expurgar o partido de quem ele chamava de revisionistas, os acusados de abandonar a linha revolucionária) estava sendo conduzida em Pequim pelo presidente da República, Liu Shaoqi, e pelo secretário-geral Deng Xiaoping.
O líder de volta à capital
Liu e Deng tinham mandado equipes de trabalho às universidades para controlar os estudantes rebeldes. Mao chegou criticando as equipes como freio à revolução, e elas foram retiradas no fim de julho.
Em 5 de agosto, ele escreveu à mão um cartaz chamado Bombardeiem o Quartel-General, pregado na sede do Comitê Central. O alvo, sem nome no texto, era o próprio Liu Shaoqi.
Em 18 de agosto, Mao subiu à Praça da Paz Celestial, em Pequim, para o primeiro de oito grandes comícios com os Guardas Vermelhos (estudantes organizados em milícias de apoio a ele). Usava farda verde do exército e recebeu uma braçadeira vermelha.
O rio como cartaz
A foto do Yangtzé entrou na mesma campanha. Jornais e cartazes repetiram o slogan de seguir o presidente Mao e avançar contra o vento e as ondas, tirado do poema de 1956, e escolas organizaram travessias de rios e lagos em homenagem a ele.
A data de 16 de julho virou aniversário oficial. Nos anos seguintes, multidões entravam em rios de várias províncias para repetir o gesto, com retratos de Mao presos nos barcos de apoio.
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Um homem de 72 anos boiando num rio serviu de prova de que ele estava forte o bastante para retomar o partido.
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A comparação mais citada usava a Olimpíada de Tóquio, dois anos antes. O australiano Bob Windle venceu ali os 1.500 metros livres em 17min01s7, e no ritmo anunciado pela Xinhua, Mao teria coberto a mesma distância em menos de 7 minutos.
Fora da China, a notícia virou piada. Jornais ocidentais publicaram a conta do ritmo e compararam o feito aos recordistas olímpicos, sem que a Xinhua corrigisse uma vírgula do anúncio.
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