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Os 62 Que Saíram do Fogo do Hindenburg

Em maio de 1937, Sam Shere fotografou o dirigível em chamas em Lakehurst, e a imagem esconde que 62 das 97 pessoas a bordo sobreviveram

O dirigível Hindenburg em chamas sobre a torre de amarração de Lakehurst, em 6 de maio de 1937.

O Hindenburg em Lakehurst, Sam Shere, 1937

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A cerca de 90 quilômetros ao sul de Manhattan, a Estação Aeronaval de Lakehurst, em Nova Jersey, era um descampado de areia e pinheiro baixo com um mastro de aço plantado no meio. Dali se via o céu inteiro, sem prédio nem morro, e um hangar comprido o bastante para guardar um dirigível.

Na tarde de 6 de maio de 1937, chovia em pancadas sobre o campo. O LZ 129 Hindenburg, dirigível alemão de 245 metros de comprimento, chegava de Frankfurt com horas de atraso, depois de enfrentar vento contrário no Atlântico e esperar uma tempestade passar sobre a base.

Em terra, uma turma de duas centenas de marinheiros e civis esperava para segurar as cordas de atracação. Atrás da cerca, parentes dos passageiros, fotógrafos de jornal e equipes de cinejornal (os noticiários filmados que passavam nos cinemas antes do filme) apontavam as câmeras para o nariz prateado da nave.

A bordo estavam 97 pessoas: 36 passageiros e 61 tripulantes. Às 19h21, o dirigível largou as primeiras cordas pela proa, a pouco menos de 60 metros do chão, e a turma de terra correu para agarrá-las.

Quatro minutos depois, uma chama apareceu perto da cauda. O hidrogênio que enchia as células de gás pegou fogo, e o casco inteiro virou uma tocha que desceu de rabo, com a proa apontada para o céu.

Entre os fotógrafos estava um homem de 32 anos da agência International News Photos, do grupo do editor William Randolph Hearst. Ele ergueu a câmera sem tempo de mirar e fez a chapa que corre o mundo até agora: a proa em chamas, o mastro em primeiro plano, a fumaça cobrindo metade do quadro.

Quem olha a foto conclui que ninguém saiu dali. Nos filmes dos cinejornais que rodavam no campo, o fogo leva pouco mais de meio minuto para consumir a nave. E mesmo assim, das 97 pessoas a bordo, 62 saíram vivas.

A foto registra o segundo em que o fogo ocupa tudo. As pessoas que pulavam pelas janelas ficaram fora do quadro, e a história da imagem continua pelo homem que apertou o botão.

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I  A Foto Histórica do Dia

I, A chapa tirada sem mirar

Sam Shere, fotógrafo americano nascido em 1905, trabalhava para a International News Photos, a agência de fotos da cadeia de jornais de Hearst. Naquela tarde, estava em Lakehurst escalado para uma pauta de rotina: a chegada do Hindenburg na primeira viagem da temporada de 1937, que os jornais cobriam como chegada de navio de luxo.

A imagem é de 6 de maio de 1937, segundos depois das 19h25. Está no Wikimedia Commons em domínio público, catalogada com o nome de Shere e a data do desastre.

O que o enquadramento mostra

O dirigível corta o quadro na diagonal. A cauda já desceu e sumiu na fumaça, e a proa, ainda inteira e prateada, aponta para cima enquanto uma bola de fogo sobe do meio do casco. Em primeiro plano, a torre de amarração, o mastro de aço onde o nariz deveria encaixar, aparece escura contra o clarão.

Não aparece gente. A turma de terra corria para longe, e quem pulava pelas janelas dos conveses de passageiros, na barriga do casco, estava debaixo da fumaça, fora do alcance da lente.

Shere não foi o único a registrar a queda. Outros fotógrafos de jornal e várias equipes de cinejornal filmaram a nave de ângulos diferentes, mas a chapa dele, com a proa inteira e o mastro no quadro, foi a que as primeiras páginas escolheram.

Como a chapa foi feita

Shere usava uma câmera de imprensa de fole, que pedia uma chapa de filme nova a cada disparo. Ele contou depois que disparou com a câmera na altura do quadril, sem levar o olho ao visor, porque não havia tempo. Teve um disparo, e a chapa saiu nítida.

A poucos metros dali, o locutor Herbert Morrison gravava para a rádio WLS, de Chicago, uma reportagem que só iria ao ar depois. Quando o fogo começou, ele continuou narrando, com a voz quebrando no microfone:

Esta é uma das piores catástrofes do mundo. Oh, a humanidade!

Herbert Morrison, reportagem gravada para a rádio WLS, Chicago, 1937

A chapa de Shere guarda o fogo no auge e deixa fora do quadro as pessoas que estavam saindo dele.

A foto também não mostra onde a chama nasceu. Nenhuma câmera no campo filmou o primeiro instante do fogo na cauda, e a causa exata virou assunto de inquérito nos Estados Unidos e na Alemanha.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

II, O gás que os americanos não venderam

O Hindenburg voava com hidrogênio, o gás mais leve que existe e também inflamável. A Zeppelin, empresa alemã que construiu a nave, tinha projetado o casco para hélio, gás que não queima, mas os Estados Unidos eram praticamente o único produtor do mundo e proibiam a exportação.

A Lei de Controle do Hélio, aprovada pelo Congresso americano em 1927, tratava o gás como material de interesse militar. Com o governo nazista no poder desde 1933, Washington não abriu exceção para a empresa alemã, e a nave foi cheia com o gás que pega fogo.

O inquérito

O Departamento de Comércio dos Estados Unidos abriu inquérito em Lakehurst dias depois do desastre. O relatório, publicado em 1937, concluiu que o hidrogênio vazou perto da cauda e foi incendiado por uma descarga de eletricidade estática, com a nave carregada pela tempestade que tinha acabado de passar.

A tese de sabotagem, defendida por parte da tripulação alemã, nunca achou prova. Em 1997, o engenheiro Addison Bain, aposentado da NASA, propôs que a tinta do tecido do casco tinha queimado primeiro. Outros pesquisadores contestaram a ideia, e o vazamento de hidrogênio segue como a explicação mais aceita.

A empresa conhecia o risco do gás. O Hindenburg tinha uma sala de fumantes pressurizada, com um único acendedor elétrico preso à parede, e os passageiros entregavam fósforos e isqueiros à tripulação ao embarcar.

O fim das viagens de passageiros

A foto e os filmes rodaram jornais e cinemas de vários países em poucos dias. Na temporada de 1936, o Hindenburg tinha feito viagens regulares à América do Norte e ao Rio de Janeiro sem ferir passageiro, e a empresa vendia o dirigível como o jeito mais confortável de cruzar o oceano.

A imagem da nave em chamas desmontou a propaganda. O Graf Zeppelin, o outro dirigível de passageiros da empresa, voltou do Brasil e foi aposentado em junho de 1937. O LZ 130, irmão do Hindenburg, ficou pronto em 1938 e nunca levou passageiro pagante.

A viagem de passageiros em dirigível terminou em Lakehurst, e a chapa de Shere virou a imagem do fim.

A Marinha americana seguiu usando os blimps (dirigíveis menores, sem estrutura interna, cheios de hélio) para patrulhar a costa na Segunda Guerra. Nenhum grande dirigível rígido voltou a cruzar o Atlântico com passageiros.

 

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III  Depois da Foto

III, Quem saiu pelas janelas

Dos 36 passageiros, 13 não sobreviveram; dos 61 tripulantes, 22. Um civil da turma de terra, Allen Hagaman, também perdeu a vida, e o total chegou a 36 mortos.

Os sobreviventes saíram porque a nave desceu de cauda e tocou o chão antes de o fogo alcançar todos os conveses. Quem estava perto das janelas pulou de poucos metros; quem estava na proa caiu de mais alto, ou ficou preso no casco.

Três saídas

1Werner Franz, grumete (ajudante de bordo) de 14 anos, estava na copa quando um tanque de água estourou sobre ele e apagou as chamas da roupa. Ele saiu por uma escotilha e correu contra o vento. Viveu até 2014, o último tripulante vivo.
2Joseph Späh, acrobata de vaudeville (espetáculo de variedades), quebrou uma janela e se pendurou do parapeito até a nave chegar perto do chão. Caiu com um tornozelo fraturado e saiu andando. A cadela dele, Ulla, que viajava no compartimento de carga, não saiu da nave.
3Werner Doehner, de 8 anos, foi jogado pela janela pela mãe, Matilde, com o irmão Walter; ela pulou em seguida. O pai, Hermann, e a irmã, Irene, não sobreviveram. Werner viveu até 2019, o último sobrevivente do voo.

O comandante Max Pruss saiu vivo, com queimaduras no rosto. Ernst Lehmann, ex-comandante que viajava como observador, sofreu queimaduras graves e não resistiu ao dia seguinte.

O fogo levou meio minuto; o menino que a mãe jogou pela janela viveu mais 82 anos.

Sam Shere seguiu na fotografia de imprensa e morreu em 1982. Em 1969, a banda inglesa Led Zeppelin estampou na capa do primeiro disco um desenho de George Hardie feito a partir da chapa, e a imagem ganhou uma geração que nunca tinha ouvido falar do dirigível.

A primeira faísca continua sem prova definitiva. O inquérito de 1937 apontou a descarga estática como causa provável, e sem destroços preservados da cauda nenhum estudo posterior fechou a questão.

Em Lakehurst, o descampado de areia e pinheiro virou parte da Base Conjunta McGuire-Dix-Lakehurst. O ponto onde a gôndola de comando bateu no chão é marcado por uma laje de concreto com o contorno da nave, à vista do hangar que continua de pé, o mesmo que esperava o Hindenburg naquela tarde de chuva.

“Se o Hindenburg tivesse voado com hélio, a foto de Sam Shere existiria?”

 
 
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Segundo o inquérito do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, publicado em 1937, o que provocou o incêndio no Hindenburg?

AUm raio atingiu diretamente o casco durante a tempestade
BHidrogênio vazado perto da cauda foi incendiado por descarga de eletricidade estática
CSabotagem de um tripulante alemão contrário ao governo nazista
DUma faísca saiu do motor a diesel da popa

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