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Os 6 Décimos de Bannister em Iffley Road

Em maio de 1954, uma pista de carvão em Oxford viu a primeira milha abaixo de 4 minutos, e o recorde durou só 46 dias

Roger Bannister no fim da milha em 3min59s4 na pista de Iffley Road, Oxford, em 6 de maio de 1954.

Bannister em Iffley Road, Oxford, 1954

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A cerca de 1 quilômetro da ponte Magdalen, no lado leste de Oxford, a pista de Iffley Road era um oval de carvão moído com 440 jardas por volta, pouco mais de 402 metros. Das arquibancadas baixas se via a torre da igreja de São João Evangelista, com uma bandeira no alto que os atletas usavam para ler o vento.

Na quinta-feira 6 de maio de 1954, a bandeira passou a tarde esticada. Rajadas de até 25 quilômetros por hora varriam a pista, e uma chuva fina tinha deixado o carvão pesado desde a manhã.

O programa do dia era modesto: um encontro anual entre a Associação Amadora de Atletismo, a AAA (a entidade que organizava o esporte na Inglaterra), e o time da Universidade de Oxford. Umas 3 mil pessoas pagaram ingresso, a maioria estudantes.

Na lista da milha, prova de 1.609 metros, havia um estudante de medicina de 25 anos que trabalhava num hospital de Londres. Ele tinha passado a manhã na enfermaria, afiado os pregos da sapatilha no laboratório e pegado o trem para Oxford sozinho.

O vento era o problema dele. Para correr a milha em menos de 4 minutos, o atleta precisava fazer quatro voltas perto de 60 segundos cada, e uma rajada de frente na reta oposta podia custar um segundo inteiro.

Às 17h50, dez minutos antes da largada, a bandeira da igreja caiu junto do mastro. O vento tinha parado. O corredor decidiu tentar ali mesmo.

Seis homens alinharam. Dois deles, amigos do estudante, tinham um trabalho combinado: puxar o ritmo nas três primeiras voltas e sair da frente na última.

Quatro minutos depois, o locutor pegou o microfone para ler o tempo. Disse "três" e a arquibancada engoliu o resto da frase.

A foto que ficou do dia mostra o homem que chegou primeiro de olhos fechados, com a cabeça jogada para trás. O que ela não mostra é quanto daquela volta final foi planejado com antecedência de meses.

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I  A Foto Histórica do Dia

I, A fita no fim da quarta volta

Roger Bannister, inglês nascido em 1929 em Harrow, cursava medicina no Hospital St Mary's, em Londres, e treinava na hora do almoço. Em 1952, tinha terminado em quarto nos 1.500 metros da Olimpíada de Helsinque, fora do pódio, e decidiu que a milha abaixo de 4 minutos seria o projeto dos dois anos seguintes.

A imagem que está no Wikimedia Commons saiu no jornal americano Los Angeles Daily News em 7 de maio de 1954, um dia depois da corrida. O jornal não creditou o fotógrafo, e a cópia está catalogada em domínio público com autor desconhecido.

O que a imagem mostra

Bannister aparece no fim da prova, o tronco inclinado para trás, a boca aberta e os olhos quase fechados. Ele contou depois que, nos últimos metros, não enxergava mais a pista direito, só a fita que marcava a chegada.

A camisa é a do time da AAA, com número no peito. Atrás dele ficam os juízes de chegada de terno e chapéu, e cronometristas com relógios de mão, porque a prova não tinha cronometragem elétrica.

Como a volta foi dividida

O plano vinha do treinador austríaco Franz Stampfl, que orientava os três corredores em Londres. O treino dele era o intervalado (tiros curtos e rápidos com pausa entre eles): séries de dez voltas de 440 jardas, cada uma perto de 60 segundos, com dois minutos de trote para recuperar.

Os dois puxadores eram Chris Brasher, colega de treino, e Chris Chataway, corredor de 5 mil metros. Brasher levou o grupo na primeira volta em 57,5 segundos e na segunda, fechando o meio da prova em 1min58s.

Chataway assumiu a terceira volta e passou pelos 1.200 metros com 3min00s5. A 275 metros do fim, Bannister saiu de trás dele e correu o último trecho sozinho, com a volta final perto de 59 segundos.

No livro que escreveu no ano seguinte, ele descreveu o instante em que passou Chataway:

O mundo pareceu parar, ou deixou de existir.

Roger Bannister, The First Four Minutes (Os Primeiros Quatro Minutos), 1955

Bannister correu a última volta em cerca de 59 segundos, e os três cronometristas pararam o relógio em 3min59s4.

Quem leu o tempo foi o locutor Norris McWhirter, jornalista que um ano depois criaria o Livro Guinness dos Recordes com o irmão gêmeo, Ross. Ele leu a lista inteira de recordes batidos antes do número, de propósito, e o público só ouviu "três".

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

II, A marca que durou 46 dias

O recorde anterior era do sueco Gunder Hägg, 4min01s4, marcado em Malmö em 1945. Durante nove anos, nenhum corredor desceu dele, e os jornais ingleses passaram a chamar os 4 minutos de barreira, como se fosse um muro no fim da pista.

A barreira caiu por seis décimos. A Federação Internacional de Atletismo homologou a marca de Iffley Road como recorde mundial da milha, e a foto correu jornais de vários países na manhã seguinte.

O australiano que vinha logo atrás

Havia também um americano no páreo, Wes Santee, do Kansas, que corria a milha na casa dos 4min02s. Os três sabiam que o primeiro a descer dos 4 minutos levaria o nome na história, e o segundo, só o recorde por um tempo.

Bannister não era o único na caça. Na Austrália, John Landy tinha corrido a milha abaixo de 4min03s seis vezes entre 1952 e 1954, sempre sem conseguir descer mais, e viajou à Europa atrás de pistas mais rápidas e de adversários melhores.

Em 21 de junho de 1954, em Turku, na Finlândia, Landy correu em 3min58s0. O recorde de Bannister ficou de pé 46 dias, e a marca de Landy foi a que a federação passou a registrar como a nova melhor do mundo.

A corrida dos dois recordistas

Os dois se encontraram em 7 de agosto de 1954, nos Jogos do Império Britânico e da Comunidade, em Vancouver, no Canadá. Foi a primeira vez que dois homens correram a milha abaixo de 4 minutos na mesma prova, e os jornais batizaram a disputa de Milha Milagrosa.

Landy liderou quase o tempo todo. Na última curva, olhou por cima do ombro esquerdo para achar o rival, e Bannister passou pela direita. Venceu com 3min58s8, contra 3min59s6 do australiano.

Landy ficou conhecido menos pela derrota do que por um gesto de 1956, no campeonato australiano em Melbourne. O jovem Ron Clarke caiu na pista, Landy voltou para ajudá-lo a levantar, perdeu uns bons metros e ainda assim ganhou a prova.

Seis décimos bastaram: em três meses, dois homens tinham corrido a milha abaixo de 4 minutos quatro vezes somadas.

A marca, antes tratada como teto, virou referência de corredor de ponta. O marroquino Hicham El Guerrouj detém o recorde mundial atual, 3min43s13, corrido em Roma em 1999, quase 16 segundos abaixo do tempo de Oxford.

 

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III  Depois da Foto

III, O médico que largou a pista

Bannister ganhou ainda os 1.500 metros do Campeonato Europeu de Berna, em agosto de 1954, e parou de correr no fim daquele ano, aos 25. Tinha dito que a medicina era a carreira dele e que a pista cabia só nos anos de faculdade.

Formou-se e virou neurologista, especialista no sistema nervoso autônomo (a parte que controla, sem a pessoa perceber, pressão, batimento e suor). Escreveu e editou por décadas um dos manuais de referência da área e foi sagrado cavaleiro em 1975.

O que foi feito dos puxadores

Chris Chataway bateu o recorde mundial dos 5 mil metros ainda em 1954, em Londres, e depois foi deputado e ministro no Parlamento britânico. Chris Brasher ganhou o ouro nos 3 mil metros com obstáculos na Olimpíada de Melbourne, em 1956, e em 1981 fundou a Maratona de Londres.

A medalha de Brasher quase não veio. Os juízes de Melbourne o desclassificaram por ter esbarrado num adversário na última volta, e a vitória só foi devolvida depois do recurso da equipe britânica, com o apoio dos próprios corredores que ele tinha passado.

As sapatilhas de couro que Bannister usou em Iffley Road, feitas à mão pelo sapateiro G.T. Law & Son, foram leiloadas pela Christie's em 2015 por 266,5 mil libras.

O relógio e a doença

Nas entrevistas da velhice, Bannister dizia que considerava a pesquisa sobre o sistema nervoso a contribuição mais importante da vida dele, maior que os 3min59s4. Mesmo assim, voltava a Iffley Road para as datas redondas da corrida, e em 2004, nos 50 anos da marca, participou da cerimônia na pista com Chris Chataway.

Em 2011, Bannister recebeu o diagnóstico de Parkinson, doença do sistema nervoso que ele tinha estudado a vida inteira. Viveu até março de 2018, aos 88 anos, em Oxford.

John Landy também deixou a pista cedo, virou naturalista e governador do estado de Vitória, na Austrália. Em Vancouver, uma estátua de bronze guarda a cena da última curva, com Landy olhando para trás e Bannister passando do outro lado.

O estudante que pegou o trem sozinho parou de correr no mesmo ano da marca e passou décadas tratando o cérebro dos outros.

Em Iffley Road, a pista de carvão virou pista sintética e ganhou o nome de Roger Bannister. Uma placa azul no portão marca o 6 de maio de 1954, e da reta de chegada ainda se vê a torre de São João Evangelista, com a bandeira que caiu dez minutos antes da largada.

“Se o vento não tivesse parado às 17h50, quem teria corrido a primeira milha abaixo de 4 minutos?”

 
 
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