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Os 5.381 Flocos de Neve Fotografados em Jericho

Num galpão sem aquecimento, a câmera presa ao microscópio guardou cada cristal antes do primeiro sopro de calor

Prancha com dezenas de cristais de neve de seis braços fotografados ao microscópio sobre fundo preto

Cristais de neve, Wilson A. Bentley, c. 1902

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AUma placa de vidro fosco

Numa dessas fazendas, um galpão de madeira ficava aberto ao vento de propósito. Lá dentro não havia fogão, nem lampião aceso perto da mesa. Qualquer grau a mais desmancharia o objeto de trabalho antes da fotografia.

Sobre a mesa ficava uma bandeja forrada de veludo preto. Quando a neve começava, a bandeja ia para fora, aparava os flocos por alguns segundos e voltava para dentro. Contra o tecido escuro, cada cristal aparecia como um desenho de giz.

O passo seguinte exigia mão firme e fôlego curto. Com uma lasca fina de madeira, o cristal escolhido era empurrado para uma lâmina de vidro, e uma pena de ave acertava a posição. Respirar perto da lâmina bastava para derreter a peça.

A lâmina seguia para baixo de um microscópio. Em cima do microscópio, presa por um fole de couro, havia uma câmera de chapas de vidro, apontada na vertical. A luz vinha da janela, e a exposição durava de alguns segundos a mais de um minuto.

A primeira chapa bem-sucedida saiu em 15 de janeiro de 1885. A última série foi feita no inverno de 1931. No meio, ficaram 5.381 negativos de cristais de neve, quase todos de um só fotógrafo, um fazendeiro sem diploma chamado Wilson Alwyn Bentley.

O vizinho achava a ocupação inútil. A neve, diziam na vila, servia para atrapalhar a colheita do bordo e mais nada. As chapas mostravam o contrário: dentro de cada floco havia uma geometria de seis braços, sempre diferente.

A seção I mostra como a câmera e o microscópio viraram uma peça só, e por que a primeira foto custou dois anos de tentativas.

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I  A Foto Histórica do Dia

O fole entre a lente e o cristal

Na imagem mais conhecida da série, publicada como prancha no começo do século XX, aparecem dezenas de cristais em quadrados pretos, lado a lado. Cada um tem seis braços, mas nenhum repete o desenho do vizinho.

Há estrelas de pontas largas, placas hexagonais lisas, agulhas e flocos cheios de ramos finos, como samambaias geladas. O fundo preto não é o veludo: Bentley raspava a emulsão em volta do cristal na chapa, para isolar a forma.

O microscópio de presente

Aos 15 anos, ele ganhou da mãe, Fanny Colton Bentley, um microscópio velho que ela usava nas aulas da escola rural. O menino passou a examinar gotas de água, folhas, penas e, no inverno, a neve.

Tentou desenhar os flocos à mão. Fez centenas de esboços, mas os cristais derretiam antes do fim de cada desenho, e o lápis nunca acompanhava o detalhe dos ramos.

O fole e a câmera de chapas

Aos 17 anos, convenceu os pais a gastar cerca de 100 dólares, o preço de uma pequena manada de vacas leiteiras, numa câmera de fole com chapas de vidro. O pai, Alwyn, achava a compra um desperdício.

O plano era acoplar o fole da câmera à ocular do microscópio. Durante dois invernos, as chapas saíram borradas ou escuras. A solução veio com a abertura da lente fechada ao mínimo e exposições longas, com a luz natural da janela.

O ajuste do foco exigia outra adaptação. O tubo do microscópio ficava longe da mão quando o olho estava no visor da câmera, então ele montou um sistema de cordas e roldanas para girar o botão de foco de longe.

A rotina da bandeja

A cada nevada, a sequência se repetia no galpão frio, sempre com o fotógrafo de luvas finas e o rosto virado para longe da lâmina:

1. A bandeja de veludo preto saía para o tempo e aparava os flocos.

2. A lupa escolhia o cristal inteiro, sem braço quebrado.

3. A lasca de madeira levava o floco até a lâmina, e a pena o centralizava.

4. A chapa era exposta antes do primeiro sinal de derretimento.

Um floco intacto vivia menos de um minuto no vidro, e a câmera tinha de chegar antes do calor.

Em 1925, numa entrevista a Mary B. Mullett para a revista The American Magazine, ele descreveu o que via pela lente:

“Ao microscópio, descobri que os flocos de neve eram milagres de beleza.”

Na mesma conversa, acrescentou que cada cristal era uma obra-prima de desenho e que nenhum desenho se repetia, frase que acompanha o nome dele até hoje.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A neve virou objeto de ciência

Antes das chapas de Jericho, o cristal de neve era assunto de desenho e de palpite. Johannes Kepler escreveu sobre os seis braços em 1611, e o explorador William Scoresby desenhou flocos do Ártico em 1820, mas ninguém tinha mostrado tantos exemplos reais lado a lado.

Em 1898, o professor George Henry Perkins, da Universidade do Vermont, ajudou Bentley a publicar o primeiro artigo sobre os cristais. Em 1902, a Monthly Weather Review, revista do serviço meteorológico americano, abriu espaço para as fotos e para as observações dele.

O cristal conta a nuvem

Bentley anotava a temperatura, o vento e o tipo de tempestade de cada nevada. Com os anos, percebeu um padrão: as estrelas de ramos finos caíam em certas condições, e as placas lisas e as colunas, em outras.

A forma do floco passou a ser lida como registro da nuvem onde ele cresceu. Umidade e temperatura definiam o desenho, braço por braço, durante a queda.

As gotas de chuva

Ele não ficou só na neve. No verão de 1898, começou a medir gotas de chuva com bandejas de farinha: cada gota formava uma bolinha de massa do tamanho dela. Mediu centenas e publicou os resultados em 1904, também na Monthly Weather Review.

O método era caseiro, mas os dados ajudaram a ligar o tamanho da gota ao tipo de nuvem. Meteorologistas do século XX voltaram a esse estudo como um dos primeiros do gênero.

O livro de 1931

O físico William Jackson Humphreys, do Serviço Meteorológico dos Estados Unidos, propôs reunir o acervo num volume. Snow Crystals saiu pela McGraw-Hill em novembro de 1931, com 2.453 fotografias escolhidas entre as chapas.

O livro virou referência em laboratórios de física, em escolas de desenho e em fábricas de tecido, joias e papel de parede, que usavam os cristais como modelo de ornamento.

Um fazendeiro sem diploma deu à meteorologia o primeiro catálogo fotográfico da neve.

Em 1936, no Japão, o físico Ukichiro Nakaya produziu o primeiro cristal de neve artificial em laboratório, na Universidade de Hokkaido. Nakaya usou as pranchas de Snow Crystals como ponto de partida para classificar as formas que obtinha.

 

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III  Depois da Foto

As chapas guardadas no frio

Bentley nunca ficou rico com a neve. Vendia cópias em lâmina de vidro a universidades e escolas por poucos centavos cada uma e gastou boa parte da renda da fazenda em chapas, lentes e produtos de revelação.

Em dezembro de 1931, semanas depois do lançamento do livro, voltou a pé para casa no meio de uma tempestade de neve. Pegou uma pneumonia e não resistiu, em 23 de dezembro, aos 66 anos, na mesma fazenda onde nasceu.

O destino dos negativos

A maior parte das chapas originais foi parar no Buffalo Museum of Science, no estado de Nova York, que guarda o acervo em vidro até hoje. Outras ficaram com a família, com colecionadores e com instituições de ensino que tinham comprado as lâminas.

Em Jericho, a sociedade histórica da cidade montou uma exposição permanente no Old Red Mill, um moinho antigo à beira do rio Browns, com a câmera, o microscópio e cópias das fotos.

O apelido

Os jornais da época o chamavam de Snowflake Man, o homem dos flocos de neve. Em 1998, a escritora Jacqueline Briggs Martin publicou o livro infantil Snowflake Bentley, ilustrado por Mary Azarian, que ganhou a Medalha Caldecott em 1999.

A obra levou a história a escolas primárias dos Estados Unidos, e o nome dele voltou a aparecer nas aulas de ciência sobre o inverno.

A física de hoje

No século XXI, o físico Kenneth Libbrecht, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, passou a cultivar e fotografar cristais em laboratório, com câmeras digitais e controle fino de temperatura e umidade.

Os catálogos novos confirmaram a regra observada no galpão: a forma muda conforme a temperatura e a umidade da nuvem, e dois cristais complexos crescidos em condições naturais quase nunca saem iguais.

Uma bandeja de pano escuro abriu caminho para um campo inteiro de estudo.

As fotos de Bentley entraram em domínio público e circulam em cartões, selos e embalagens de inverno.

A prancha reproduzida no Wikimedia Commons saiu de uma dessas publicações do começo do século XX e mostra cristais coletados no mesmo vale do Winooski, sem nenhum retoque além da raspagem do fundo.

Em Jericho, a 44 graus de latitude norte, os três metros de neve de cada inverno seguem caindo sobre o vale. Na exposição do Old Red Mill, ao lado da câmera de fole, uma bandeja de veludo preto espera a próxima nevada, como esperou de 1885 a 1931, até somar 5.381 chapas.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, quantas chapas de vidro com cristais de neve Bentley deixou ao todo, entre 1885 e 1931?

A2.453
B1.339
C5.381
D100

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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