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Os 50 Mil Dólares Que Korda Cobrou em Londres

Cuba não protegia a foto de Che. Em 2000, um anúncio de vodca levou o fotógrafo a um tribunal inglês

Ernesto Che Guevara de boina escura com estrela, cabelo comprido e jaqueta fechada até o pescoço, olhando para o alto, na foto Guerrillero Heroico de Alberto Korda, 1960.

Guerrillero Heroico, Alberto Korda, 1960

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A 51 graus de latitude norte, no Strand, centro de Londres, as Royal Courts of Justice ocupam um quarteirão inteiro de pedra cinza, com torres góticas e um saguão de mais de 70 metros de comprimento. Da porta principal se veem os ônibus vermelhos subindo para Trafalgar Square.

No ano 2000, um fotógrafo cubano de 71 anos levou um processo para dentro daquele prédio. Ele nunca tinha recebido dinheiro pela imagem mais conhecida que fez, e ela circulava fazia quatro décadas em pôsteres, camisetas, canecas e capas de disco.

Os advogados dele não discutiam a beleza da foto nem a política do retratado. Discutiam papel: quem era o autor, desde quando, e quem tinha autorizado cada cópia vendida.

Em Havana, ninguém cobrava por ela. A ilha não protegia obra de autor pela via internacional, e o próprio governo revolucionário tratava a propriedade intelectual como privilégio de burguês. Fora de Cuba, a foto ficou com quem chegasse primeiro.

O que levou o fotógrafo ao tribunal foi um anúncio de vodca. Uma agência de publicidade britânica estampou o rosto do retratado numa campanha da Smirnoff, com uma pimenta vermelha desenhada perto da estrela da boina.

Ele tinha aceitado ver a foto em bandeira de passeata, em muro de universidade e em quarto de estudante. Uma garrafa de bebida alcoólica, para ele, passava do limite.

A foto em disputa tinha 40 anos de estrada e nenhum contrato assinado em lugar nenhum do planeta.

A Justiça inglesa tinha uma vantagem sobre a cubana: reconhecia que uma fotografia tem autor, mesmo sem registro, e que esse autor decide quem lucra com ela. Foi por essa porta que ele entrou, quatro décadas depois do clique.

O caso nunca chegou à sentença. Terminou num acordo de 50 mil dólares, e o dinheiro não ficou com ele.

Antes do tribunal, a edição olha a imagem que motivou a briga: um rosto, uma boina e um olhar que mira um ponto fora do quadro.

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I  A Foto Histórica do Dia

A boina com a estrela

Alberto Díaz Gutiérrez, que assinava Alberto Korda, fotografava moda em Havana antes de virar fotógrafo do governo revolucionário. O retratado é Ernesto Guevara, o médico argentino conhecido como Che, então presidente do Banco Nacional de Cuba. A imagem ganhou o título Guerrillero Heroico (guerrilheiro heroico).

A versão que abre esta edição está no Wikimedia Commons, catalogada com data de 1960 e autoria de Korda, e no Wikidata, que registra o fotógrafo como criador da obra.

O sobrenome artístico vinha do estúdio que ele abriu em Havana antes de 1959 com o sócio Luis Pierce. Os dois assinavam juntos como Korda, nome tirado dos irmãos Korda, cineastas húngaros radicados na Inglaterra.

O que a imagem mostra

Che aparece do peito para cima, em preto e branco, virado de leve para a esquerda do quadro. Usa uma boina escura com uma estrela de metal de cinco pontas presa na frente.

A estrela é a insígnia de comandante do Exército Rebelde, o posto mais alto da guerrilha cubana. É o único sinal de patente da imagem, e foi justamente perto dela que o anúncio de vodca pôs a pimenta.

O cabelo comprido escapa da boina e cobre as orelhas. A barba é rala, falhada no queixo, e o bigode é fino.

A jaqueta é de campanha, fechada por zíper até o pescoço, com a gola alta levantada. Não há medalha, insígnia de patente nem arma à vista.

O olhar não encontra a câmera. Mira um ponto alto, à frente, com a sobrancelha contraída e a boca fechada. O fundo é céu claro, sem nuvem definida.

Nos cartazes, o pescoço costuma ser cortado logo abaixo do zíper, e o rosto vira quase um emblema de bandeira, sem corpo nem cenário.

Por que o recorte importa

O enquadramento que o mundo conhece é vertical e fechado no rosto. A margem de céu acima da boina dá a impressão de alguém que olha para longe, e o contraste alto apaga quase todos os tons intermediários da pele.

Esse contraste facilitou a vida de quem copiava. Um rosto reduzido a preto chapado e branco chapado cabe num estêncil (molde vazado para pintura), numa serigrafia de camiseta ou num muro pintado à mão, sem perder a semelhança.

O rosto de Che sobreviveu a milhões de cópias porque cabia em duas cores.

Korda guardou o negativo no próprio arquivo, em Havana. A fama da imagem não veio da imprensa cubana: veio de fora da ilha, e veio sem contrato nenhum.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Uma foto sem dono

Em 1967, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli passou por Havana e pediu a Korda um retrato de Che. O fotógrafo lhe entregou duas cópias da Guerrillero Heroico e não cobrou nada, como favor a um simpatizante da revolução.

Em outubro daquele ano, Che foi capturado e executado na Bolívia. Feltrinelli imprimiu a foto em pôsteres e, no ano seguinte, a pôs na capa do diário de campanha do guerrilheiro, que sua editora vendeu em vários países.

Em Havana, Fidel Castro discursou na Praça da Revolução, em homenagem a Che, diante de um retrato de vários andares tirado da mesma foto.

Por que Korda não cobrou ninguém

A Cuba revolucionária tratava o direito autoral como herança capitalista. Em 1967, Fidel Castro anunciou que o país deixaria de pagar direitos sobre livros estrangeiros, para imprimir manuais técnicos e didáticos sem acerto com as editoras.

A primeira lei cubana de direito de autor só saiu em 1977. A ilha ficou fora da Convenção de Berna (o tratado internacional que obriga cada país a proteger obra de autor estrangeiro) até 1997.

Na prática, a foto não tinha registro em lugar nenhum. Korda, funcionário do regime e simpatizante declarado, nunca tentou frear a circulação.

Em 1968, o artista irlandês Jim Fitzpatrick redesenhou o rosto em vermelho e preto, com a estrela em amarelo, e espalhou o pôster pela Europa sem cobrar direitos. Ele queria que a imagem se multiplicasse.

A diferença pesava no bolso. Em países com lei de autor em vigor, cada pôster vendido rende uma parcela ao fotógrafo; com a foto de Korda, ninguém fora da ilha sabia a quem pagar, e ninguém dentro dela cobrava.

Sem dono no papel, a foto passou a pertencer a quem tivesse uma prensa.

Vieram as camisetas, os bottons, os relógios, as latas de refrigerante e as capas de disco de rock. Korda contou em entrevistas que, por todos esses anos, não recebeu um centavo de nenhuma delas.

Os fabricantes copiavam de cópias. A imagem que chegava às lojas vinha muitas vezes de um pôster, não do negativo guardado em Havana, e perdia detalhe a cada geração de reprodução.

Ele dizia não se importar. A imagem levava adiante as ideias do retratado, e só um tipo de uso o incomodava: o que vendia produto.

 

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III  Depois da Foto

A vodca no tribunal

Em 1999, a agência britânica Lowe Lintas usou o rosto de Che numa campanha da vodca Smirnoff. A foto foi licenciada pela Rex Features, agência de imagens de Londres, que a oferecia aos clientes como se tivesse os direitos.

Korda soube do anúncio e processou as duas empresas no Tribunal Superior de Londres, em 2000. A lei britânica reconhecia a autoria dele sem registro algum, porque protege obra de autor de qualquer país signatário da Convenção de Berna, e Cuba já tinha assinado.

Na saída de uma das audiências, ele explicou por que tinha cruzado o Atlântico:

Como apoiador dos ideais pelos quais Che Guevara deu a vida, não me oponho à reprodução da foto por quem quer propagar a memória dele e a causa da justiça social, mas sou categoricamente contra a exploração da imagem de Che para promover produtos como o álcool.

Alberto Korda, declaração à imprensa em Londres, 2000

Em setembro de 2000, as empresas fecharam um acordo fora do tribunal. Korda recebeu 50 mil dólares e doou a quantia inteira ao sistema de saúde de Cuba, para a compra de remédios para crianças.

Era a primeira vez que o autor da Guerrillero Heroico ganhava uma disputa pela foto, e ganhava num país onde nunca tinha morado, com base num tratado que a própria Cuba só assinou quase 40 anos depois da revolução.

Quarenta anos de pôsteres não renderam nada a Korda; um anúncio de vodca rendeu 50 mil dólares, e ele não ficou com nenhum.

Depois do acordo

Korda seguiu contestando usos comerciais da foto pelo resto da vida. Morreu em Paris, em 25 de maio de 2001, aos 72 anos, durante uma exposição do seu trabalho.

Depois dele, a filha Diana Díaz passou a contestar na Justiça anúncios que usavam a imagem, em nome da família. A circulação política, de bandeira e de muro, seguiu livre, como o pai queria.

Em 2011, Jim Fitzpatrick anunciou que entregaria os direitos do seu pôster vermelho ao governo cubano, para que a renda fosse a um hospital infantil da ilha.

No prédio de pedra do Strand, a 51 graus de latitude norte, o processo de Korda terminou sem sentença e sem juiz. Ficaram a assinatura de um acordo de 50 mil dólares, gastos em remédio infantil em Havana, e um rosto de boina que ninguém ali tinha pago para usar.

“Se uma foto sua virasse símbolo no mundo inteiro, você cobraria pelo uso ou deixaria a imagem correr solta?”

 
 
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Quiz da edição

O que levou o fotógrafo Alberto Korda ao Tribunal Superior de Londres?

AUm pôster de Jim Fitzpatrick vendido por toda a Europa
BUm anúncio de vodca que estampou o rosto de Che, com uma pimenta vermelha perto da estrela
CUma cópia da foto vendida pelo governo cubano em Havana
DUma capa de disco de rock com a imagem de Che

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