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Os 400 Jagunços de Canudos

No sertão da Bahia, em 1897, Flávio de Barros legendou como jagunços presos um grupo feito sobretudo de mulheres e crianças

Mulheres, crianças e velhos rendidos em Canudos sentados no chão do acampamento do Exército, sertão da Bahia, 1897.

Rendidos de Canudos, Flávio de Barros, 1897

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A cerca de 70 quilômetros ao norte de Monte Santo, no sertão da Bahia, o rio Vaza-Barris corta uma bacia de morros pelados e só corre cheio na estação das chuvas. Quem subia o morro da Favela em outubro de 1897 via lá embaixo um arraial de casas de taipa (barro socado numa trama de varas) e as torres de duas igrejas, uma delas já rachada pelos canhões.

Os moradores chamavam o lugar de Belo Monte; o resto do país dizia Canudos. O arraial tinha sido fundado em 1893 por Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, beato (pregador leigo, sem ordenação) cearense que andava pelo sertão havia duas décadas reformando igrejas e cemitérios. Em quatro anos, milhares de sertanejos pobres se mudaram para lá.

A República, proclamada em 1889, enxergou no arraial um foco monarquista. Três expedições militares fracassaram entre 1896 e março de 1897, a terceira com o coronel Antônio Moreira César, abatido no ataque. A quarta, sob o general Artur Oscar, cercou Belo Monte em junho com milhares de soldados e artilharia pesada.

Em setembro, o próprio ministro da Guerra, o marechal Carlos Machado Bittencourt, desembarcou em Monte Santo para apressar o cerco. Na comitiva que subiu ao front havia um repórter de O Estado de S. Paulo, o engenheiro Euclides da Cunha, e um fotógrafo contratado pelo Exército, com câmera de fole e caixas de chapas de vidro.

Conselheiro morreu dentro do arraial em 22 de setembro, provavelmente de disenteria. Os combatentes que sobravam seguiram atirando entre as casas queimadas. No começo de outubro, uma trégua curta abriu passagem para quem quisesse se entregar, e uma fila de gente desceu das ruínas até o acampamento militar.

O fotógrafo armou o tripé diante dessa fila. A primeira seção examina a chapa que saiu dali e a legenda que ele escreveu sobre ela.

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I  A Foto Histórica do Dia

I, Sentadas na poeira do acampamento

Augusto Flávio de Barros, fotógrafo com estúdio em Salvador, foi contratado pelo Exército para documentar a quarta expedição contra Canudos. Em outubro de 1897, apontou a câmera para o grupo que tinha deixado o arraial durante a trégua e escreveu sobre a imagem a legenda que a acompanha até hoje: 400 jagunços prisioneiros.

Jagunço, no sertão, era o capanga armado, o homem pago para brigar a mando de um fazendeiro. Na boca da tropa, a palavra passou a nomear qualquer morador de Canudos. A legenda, portanto, prometia ao público um bando de combatentes rendidos.

O quadro mostra outra gente. Na frente, sentadas no chão de terra, estão mulheres de lenço na cabeça e saia comprida, várias com criança no colo. Atrás, de pé, amontoam-se dezenas de rostos, e raros homens adultos aparecem entre eles. Há velhos, meninos magros e mulheres que encaram a lente sem baixar os olhos.

Quem entrou no quadro

O grupo saiu do arraial em 2 de outubro, conduzido por Antônio Beatinho, auxiliar de Conselheiro que negociou com o comando a entrega das famílias. Euclides da Cunha, que assistiu à cena, descreveu em Os Sertões, livro de 1902, uma procissão de mulheres, crianças e velhos esfarrapados, quase todos doentes de fome e de sede.

Barros trabalhava com chapas secas de gelatina, vidros sensibilizados de fábrica que podiam ser expostos no campo e revelados semanas depois, sem tenda escura ao lado. O equipamento subiu de Monte Santo em lombo de burro, no mesmo comboio da munição.

Os homens que ainda podiam lutar ficaram nas trincheiras. A exposição da chapa pedia alguns segundos de imobilidade, e a imagem registra a exaustão de quem obedeceu: corpos encolhidos, braços cruzados sobre o peito, rostos queimados de sol.

A legenda fala de 400 jagunços; a imagem mostra famílias famintas que desceram das ruínas sem arma na mão.

Barros, pago pelo Exército, usou o vocabulário do Exército. A câmera, sem vocabulário nenhum, gravou quem estava na frente dela, e o desencontro entre as duas versões ficou preso no mesmo pedaço de vidro.

Enquanto a fila de rendidos posava, os tiros continuavam do lado de dentro. Euclides resumiu a resistência numa frase que abre o capítulo final do livro.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo.

Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902

O arraial caiu em 5 de outubro. Segundo Euclides, os últimos defensores eram quatro: um velho, dois homens feitos e uma criança, diante de milhares de soldados.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

II, A faca depois da pose

Parte das pessoas que Barros fotografou não chegou viva a Salvador. Nos dias seguintes à queda do arraial, soldados degolaram prisioneiros homens, execução que a tropa apelidou de gravata vermelha. Euclides denunciou a prática em Os Sertões, e depoimentos de militares e de sobreviventes, recolhidos depois por historiadores, confirmaram as execuções.

Mulheres e crianças seguiram a pé, sob escolta, para Monte Santo, Queimadas e a capital. No caminho, muitas crianças foram separadas das mães e repartidas entre oficiais, soldados e famílias de Salvador. Algumas viraram criadas sem salário; outras foram vendidas.

O comitê que foi buscar as crianças

Em Salvador, cidadãos criaram em 1897 o Comitê Patriótico da Bahia, de início para socorrer soldados feridos. O secretário, o jornalista Lélis Piedade, passou a rastrear meninos e meninas sertanejos espalhados pelas casas da cidade e por fazendas do interior, e a devolvê-los a parentes quando os achava.

O relatório do comitê, publicado por Piedade em 1901, registra nomes, idades e destinos de dezenas de crianças recuperadas. Piedade anotou casos de meninos entregues como presente a conhecidos de oficiais e de meninas levadas para longe da Bahia, a Rio de Janeiro e a São Paulo. Parte delas nunca foi localizada, e o relatório admite as buscas encerradas sem resultado.

O documento mostra que os prisioneiros da foto tinham famílias, sobrenomes e endereços, justamente o que a palavra jagunço apagava.

O livro de Euclides fez a outra metade do trabalho. Os Sertões esgotou edições seguidas e virou leitura obrigatória no país. Quem cresceu lendo a guerra como vitória da ordem passou a ler um massacre.

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime.

Euclides da Cunha, Os Sertões, nota preliminar, 1902

A fotografia de Barros demorou mais a chegar ao público. As cópias ficaram guardadas em acervo e só circularam com força no centenário da guerra, quando o historiador Cícero Antônio Fonseca de Almeida publicou a série em 1997 no livro Canudos: Imagens da Guerra, pelo Museu da República.

A chapa virou prova contra a própria legenda: quem olha a foto hoje enxerga, no lugar do inimigo anunciado, as famílias que o Exército levou presas.

Desde então, a imagem aparece em livros didáticos, exposições e capas sobre Canudos. Quase sempre vem acompanhada da legenda original, citada entre aspas, porque o erro de Barros passou a fazer parte do documento.

 

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III  Depois da Foto

III, O açude sobre o arraial

Depois da tomada, a tropa arrasou o que restava. Euclides registrou em Os Sertões que os soldados contaram 5.200 casas antes de incendiá-las, e a contagem virou a medida mais citada da extensão de Belo Monte.

Em 6 de outubro, o corpo de Antônio Conselheiro foi desenterrado e Barros o fotografou, deitado sobre uma esteira. A cabeça foi cortada e enviada à Faculdade de Medicina da Bahia, onde o médico Raimundo Nina Rodrigues procurou no crânio sinais de loucura e não achou nenhum. O crânio se perdeu no incêndio que atingiu a faculdade em 1905.

Da vida de Barros depois da guerra sobraram poucos papéis. As chapas de Canudos, reunidas no acervo do Museu da República, no Rio de Janeiro, são quase tudo o que se conhece da obra dele.

Os sobreviventes voltaram aos poucos e ergueram um povoado novo perto das ruínas. Nos últimos anos da década de 1960, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas concluiu o açude de Cocorobó, e a represa do Vaza-Barris cobriu o sítio do arraial. Nas secas fortes, a água baixa e deixa ver pedaços de parede e de igreja.

O que a chapa não responde

1O dia exato da exposição. A série é datada do começo de outubro, em 1897, e a saída do grupo de Beatinho aponta para os primeiros dias do mês, mas nenhuma anotação do fotógrafo fixa a data.
2Quem são as pessoas do quadro. Nenhum rosto foi identificado, porque o Exército não anotou os nomes das mulheres e crianças que prendeu.
3Quantas figuras cabem na imagem. O número 400 vem da legenda, e nenhuma contagem publicada das pessoas visíveis confirma ou derruba a cifra.

Barros escreveu 400 jagunços; o vidro guardou famílias, e a legenda seguiu colada a elas por 129 anos.

Do alto do morro da Favela, onde o Exército instalou os canhões, hoje se vê a água parada do açude de Cocorobó cobrindo a curva do Vaza-Barris. Na cópia guardada no Museu da República, as mulheres de lenço continuam sentadas na poeira do acampamento, sob a legenda que as chama de jagunços.

“Se Barros tivesse escrito mulheres e crianças prisioneiras, a degola dos dias seguintes teria passado como vitória?”

 
 
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Segundo Euclides da Cunha registrou em Os Sertões, quantas casas os soldados contaram em Canudos antes de incendiá-las?

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