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Os 30 Mil Negativos de Vidro de Martín Chambi

De um estúdio aberto em Cusco em 1920, Martín Chambi registrou a cidade por cinco décadas, e a família guardou as chapas

Câmara ardente de Velasco Astete na catedral de Cusco, foto de Martín Chambi, 1925

Velório de Velasco Astete em Cusco, Martín Chambi, 1925

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A 3.400 metros de altitude, na antiga capital dos incas, o ar de Cusco é ralo e a luz da serra deixa as sombras recortadas. Em setembro de 1925, a catedral da Plaza de Armas estava de luto, com faixas de pano negro descendo da abóbada e lâmpadas acesas em volta de um estrado.

Sobre o estrado repousava o caixão de um piloto de 28 anos, nascido na própria cidade. Poucos dias antes, ele tinha cruzado os Andes de avião, de Lima até Cusco, e a população tinha saído à rua para ver o aparelho baixar no campo de pouso.

Diante do estrado, um fotógrafo armou o tripé no chão de pedra. Soldados de farda clara e braçadeira escura faziam a guarda de honra, um frade de hábito franciscano esperava num canto, e coroas de flores cobriam as paredes até a altura dos ombros.

O homem atrás da câmera tinha nascido numa família quéchua (povo indígena dos Andes, com língua própria), no departamento de Puno, do outro lado da cordilheira. Aprendeu a fotografar ainda menino, perto de uma mina de ouro, e cinco anos antes daquele velório tinha aberto estúdio em Cusco.

Durante a semana, ele fazia retratos de família, casamentos e formaturas para pagar o aluguel. Nas folgas, subia às ruínas, às aldeias e às feiras, e guardava cada tomada num negativo de vidro, arrumado em caixas de madeira.

Ele seguiu fotografando a cidade por mais quatro décadas. Quando parou, as caixas somavam dezenas de milhares de chapas, e quase ninguém fora do Peru sabia que elas existiam, nem os museus que mais tarde exporiam as cópias.

A foto do topo saiu de uma dessas caixas. Para lê-la, o caminho passa pelo piloto do caixão, pelo estúdio do fotógrafo e pela família que manteve o acervo inteiro depois dele.

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I  A Foto Histórica do Dia

Uma catedral de luto por um piloto

A foto se chama Capilla ardiente del aviador Alejandro Velasco Astete en la Catedral del Cuzco (Câmara ardente do aviador Alejandro Velasco Astete na Catedral de Cusco), feita em 1925 por Martín Chambi, fotógrafo peruano de origem quéchua que mantinha estúdio em Cusco desde 1920.

No Wikimedia Commons, o arquivo aparece em domínio público, com o crédito de Chambi e o ano da tomada. A câmara ardente (sala de velório montada em torno do corpo, com luzes e guarda de honra) ocupou a catedral erguida pelos espanhóis sobre a base de um palácio inca.

Quem era o piloto

Alejandro Velasco Astete nasceu em Cusco em 1897 e se formou piloto na aviação militar peruana. Naquela década, avião ainda era máquina de madeira, lona e arame, sem cabine fechada, e cruzar os Andes obrigava a passar acima de 5 mil metros com o rosto exposto ao vento gelado.

Em setembro de 1925, ele saiu de Lima e pousou em Cusco, no primeiro voo entre as duas cidades por cima da cordilheira. O trajeto que levava dias de trem e mula caiu para poucas horas, e a chegada virou festa na terra natal do piloto.

Dias depois, ele seguiu para Puno, às margens do lago Titicaca, onde outra multidão o esperava. Na manobra de pouso, em 23 de setembro, o público invadiu o campo. Segundo o relato guardado em Cusco, Velasco Astete desviou o aparelho para não atingir as pessoas, e o avião caiu. Ele não sobreviveu à queda.

O corpo voltou para Cusco e foi velado na catedral. A cidade inteira passou diante do estrado, e Chambi recebeu a tarefa de registrar a cena.

Como a foto foi feita

Chambi trabalhava com câmera de grande formato e negativos de vidro (chapas cobertas por uma emulsão de prata sensível à luz). Cada chapa entrava na câmera uma de cada vez, dentro de um chassi (estojo de madeira que protege o vidro da claridade até a hora do disparo).

Dentro da catedral, a luz vinha das lâmpadas penduradas e das portas abertas. Os pontos brilhantes espalhados pela imagem são essas lâmpadas, estouradas na chapa pela exposição longa, enquanto os cantos da nave somem no escuro.

Na nave escura, cada lâmpada virou um sol pequeno na chapa, e só ficou nítido quem aguentou parado.

O que a foto mostra

No centro, um crucifixo de flores se ergue diante do estrado, entre candelabros altos. Do alto da abóbada descem faixas largas de pano negro, abertas em leque, como uma tenda armada sobre o caixão.

Na parte de baixo, soldados de quepe e braçadeira de luto montam guarda dos dois lados do corredor. À direita, um frade franciscano de capuz e cordão olha para a câmera. As bordas escuras e irregulares do quadro são as do próprio vidro do negativo, que o arquivo preservou sem cortar.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O menino da mina e o estúdio de Cusco

Martín Chambi Jiménez nasceu em 5 de novembro de 1891 em Coaza, na província de Carabaya, no departamento de Puno, filho de camponeses quéchuas. O pai trabalhava para a Santo Domingo Mining Company, empresa estrangeira que explorava ouro nos vales da região.

Na mina, o menino conheceu o fotógrafo contratado pela companhia para registrar as obras e os operários. Chambi ajudava a carregar o equipamento, olhava a revelação das chapas e, pelos relatos da família, decidiu ali o ofício que ia seguir.

Os anos de Arequipa

Por volta de 1908, ainda adolescente, ele foi para Arequipa, a maior cidade do sul do Peru, e entrou como aprendiz no estúdio de Max T. Vargas, o retratista mais procurado da região. Ficou cerca de nove anos ali, aprendendo a iluminar rostos, retocar negativos e tratar o cliente.

Vargas fazia retrato de elite, com cenário pintado e pose estudada. Chambi aprendeu essa gramática do estúdio e depois a levou para fora dele, para a rua, a montanha e a aldeia.

Em 1917, ele se mudou para Sicuani, cidade de feira no caminho entre Puno e Cusco, e abriu o primeiro estúdio próprio. Lá começou a vender cartões-postais com paisagens e ruínas andinas, impressos a partir dos negativos dele.

O estúdio de 1920

Em 1920, Chambi se instalou em Cusco. O estúdio virou ponto de encontro de intelectuais do indigenismo (movimento de escritores e artistas peruanos que defendia o valor das culturas indígenas), gente que via nas fotos dele um Peru andino retratado de dentro, e não pelo olhar do viajante europeu.

A clientela pagante era a de qualquer estúdio de cidade: famílias ricas, noivos, crianças de primeira comunhão, autoridades. Esse trabalho bancava as viagens. Com o lucro, Chambi subia a Machu Picchu, então pouco visitada, e fotografava as pedras, os terraços e as montanhas ao redor.

Ele também fotografava gente que nunca entraria num estúdio de elite: carregadores, músicos, camponeses na feira, mulheres de saia rodada. Com o mesmo cuidado de luz que dava ao retrato do juiz, registrou o povo de onde ele próprio tinha saído.

Chambi usou o dinheiro do retrato de elite para pagar o registro de quem nunca tinha sido fotografado.

Em 1925, quando a cidade precisou de alguém para guardar a imagem do velório de Velasco Astete, o nome óbvio em Cusco era o dele. Cinco anos de estúdio tinham bastado para isso.

 

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III  Depois da Foto

O terremoto de 1950 e as caixas da família

Na tarde de 21 de maio de 1950, um terremoto atingiu Cusco. Casas de adobe vieram abaixo, igrejas coloniais racharam e parte da catedral fotografada em 1925 sofreu danos. Milhares de moradores ficaram sem teto.

Chambi, então com 58 anos, saiu com a câmera pelas ruas. Registrou fachadas partidas, torres sem sino, entulho nas praças e famílias acampadas ao ar livre. As chapas viraram documento do estrago e serviram de referência para a reconstrução.

O tremor revelou também paredes incas escondidas sob construções espanholas. Em vários pontos, o reboco colonial caiu e deixou à vista a pedra encaixada sem argamassa, que tinha resistido melhor ao abalo.

Os últimos anos

Depois do terremoto, Chambi trabalhou cada vez menos. Os filhos Víctor e Julia assumiram parte do estúdio, e ele saía pouco da cidade. Ficou em Cusco até 13 de setembro de 1973, aos 81 anos.

Os negativos ficaram com a família. A filha Julia Chambi tomou conta das caixas e, mais tarde, o neto Teo Allain Chambi organizou o acervo, que reúne cerca de 30 mil negativos de vidro, segundo o Archivo Fotográfico Martín Chambi, mantido pelos herdeiros.

Cinco décadas de trabalho couberam em caixas de madeira, e quem cuidou delas foram os filhos e o neto.

Como o mundo viu as fotos

Em 1977, o fotógrafo americano Edward Ranney e uma equipe de voluntários começaram a limpar, catalogar e copiar parte das chapas, com apoio da família. Desse trabalho saiu a exposição de Chambi no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 1979, a primeira grande mostra dele fora da América do Sul.

Desde então, as fotos rodaram museus da Europa e das Américas, e o trabalho dele entrou nos manuais de história da fotografia latino-americana. A cópia digital que circula no Wikimedia Commons, em domínio público, vem desse acervo cuidado pela família.

A 3.400 metros de altitude, a catedral de Cusco foi restaurada depois do terremoto e voltou a abrir as portas. Velasco Astete virou nome do aeroporto da cidade, onde pousam os voos que hoje cruzam os Andes em uma hora. E o velório de 1925 segue numa chapa de vidro de bordas escuras, com os soldados parados, o frade no canto e as lâmpadas acesas, guardada numa caixa da família Chambi.

 
 
Quiz da edição

Em que dia o avião de Alejandro Velasco Astete caiu em Puno, segundo o relato guardado em Cusco?

A15 de setembro de 1925
B30 de setembro de 1925
C23 de setembro de 1925
D5 de outubro de 1925

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