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Os 29 Cientistas de Bruxelas Diante de Couprie

Em outubro de 1927, a física quântica posou em três fileiras num parque belga, com Einstein e Bohr no mesmo quadro

Os 29 participantes da quinta Conferência Solvay posam em três fileiras em Bruxelas, em 1927

Conferência Solvay, Benjamin Couprie, 1927

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A cerca de 50,8 graus de latitude norte, no Parque Leopoldo, a leste do centro de Bruxelas, um prédio de tijolo aparece entre árvores altas e um lago. Em outubro de 1927, quem passava pela alameda via ali uma fila de cadeiras diante da fachada e um fotógrafo armando o tripé.

O prédio era o Instituto de Fisiologia, construído com dinheiro de Ernest Solvay, industrial belga que enriqueceu fabricando soda cáustica e carbonato de sódio por um processo químico próprio. Solvay gostava de ciência e pagava a conta de encontros fechados entre os maiores físicos da época.

O primeiro desses encontros aconteceu em 1911, no Hotel Metropole, e reuniu nomes como Max Planck e Marie Curie. Em 1912, o industrial criou o Instituto Internacional de Física Solvay, que passou a organizar as conferências a cada poucos anos, sempre por convite.

A quinta conferência começou em 24 de outubro de 1927 e durou seis dias. O tema era Elétrons e Fótons (as partículas da eletricidade e da luz), e a pauta real era a mecânica quântica, a teoria nova sobre o comportamento da matéria em escala atômica.

Os convidados tinham entre 25 e 74 anos. Os mais jovens tinham escrito as equações novas nos dois anos anteriores. Os mais velhos tinham fundado a física da qual aqueles jovens partiam, e alguns desconfiavam do rumo.

O presidente da conferência era o holandês Hendrik Lorentz, de 74 anos, respeitado por todos os lados da disputa. Ele falava francês, alemão e inglês sem esforço, e servia de tradutor quando a discussão travava entre as línguas.

Num dos dias da semana, os participantes saíram do prédio e se arrumaram na frente do prédio. O fotógrafo era Benjamin Couprie, dono de um estúdio em Bruxelas, contratado para registrar o grupo.

A seção I lê a foto fileira por fileira, nome por nome, e mostra onde Couprie colocou a única mulher do quadro.

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I  A Foto Histórica do Dia

Três fileiras e 17 prêmios Nobel

A fotografia de Benjamin Couprie mostra 29 pessoas em preto e branco, de terno escuro, organizadas em três fileiras: nove sentadas na frente, nove de pé no meio e onze de pé atrás, um pouco acima, num degrau.

A disposição seguia a hierarquia acadêmica. Os mais velhos e mais premiados ficaram sentados; os mais novos, de pé no fundo.

A fileira da frente

Da esquerda para a direita, sentados: o químico americano Irving Langmuir, o alemão Max Planck, a polonesa naturalizada francesa Marie Curie, o holandês Hendrik Lorentz, o alemão Albert Einstein, o francês Paul Langevin, o suíço Charles-Eugène Guye, o escocês Charles Thomson Rees Wilson e o inglês Owen Richardson.

Marie Curie, de 59 anos, está de vestido preto e mão no queixo, a terceira a partir da esquerda. Era a única mulher entre os 29 e a única pessoa do grupo com dois prêmios Nobel: física, em 1903, e química, em 1911.

Einstein senta-se bem no centro, de bigode, com o olhar fixo na lente. Tinha ganhado o Nobel de Física de 1921.

O meio e o fundo

Na fileira do meio estão, entre outros, Niels Bohr, Max Born, Louis de Broglie, Arthur Compton, Paul Dirac e William Lawrence Bragg. No fundo aparecem Erwin Schrödinger, Wolfgang Pauli e Werner Heisenberg, com 25 anos. Dirac, no meio, tinha a mesma idade e era o mais novo do quadro por alguns meses.

17 dos 29 retratados já tinham ou ganhariam o Nobel.

Na data da foto, já premiados eram Lorentz, Curie, Planck, Einstein, Bohr e Bragg. Compton e Wilson tiveram o prêmio de 1927 anunciado em novembro, semanas depois. Os outros nove vieram até 1954: Richardson, de Broglie, Langmuir, Heisenberg, Dirac, Schrödinger, Debye, Pauli e Born.

O Comitê Nobel, em Estocolmo, decidiu cada prêmio em separado, ao longo de 27 anos. A soma só aparece quando alguém conta os rostos da foto.

Einstein resumiu o desconforto dele com a teoria nova numa carta a Max Born de 4 de dezembro de 1926, publicada em 1971 no livro The Born-Einstein Letters (As cartas Born-Einstein):

“A teoria rende muito, mas mal nos aproxima do segredo do Velho. Estou convencido de que Ele não joga dados.”

O Velho, na carta, é Deus. Born, de pé na fileira logo atrás de Einstein na foto de Couprie, estava entre os autores da leitura estatística da teoria contra a qual Einstein escrevia.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A semana em que Einstein perdeu a discussão

A foto parece uma reunião tranquila. Dentro do instituto, a semana foi a de uma disputa aberta sobre o sentido da física quântica, com Bohr e Einstein nos papéis principais.

Bohr, Heisenberg e Born defendiam uma leitura da teoria que ficou conhecida como interpretação de Copenhague, nome da cidade onde Bohr dirigia o instituto de física teórica. Para eles, a teoria só dava probabilidades, e não havia trajetória exata de um elétron antes da medição.

O princípio da incerteza

Heisenberg tinha publicado em março de 1927 o princípio da incerteza: não se pode medir ao mesmo tempo, com precisão total, a posição e a velocidade de uma partícula. Quanto mais exata uma, mais vaga a outra.

Einstein não aceitava esse limite como regra da natureza. Para ele, a teoria estava incompleta, e um dia alguém acharia as variáveis escondidas por trás das probabilidades.

Os cafés da manhã no Metropole

Os convidados dormiam no Hotel Metropole, no centro de Bruxelas. Heisenberg descreveu a rotina no livro de memórias Der Teil und das Ganze (A parte e o todo), de 1969.

No café da manhã, Einstein apresentava um experimento imaginário (um teste feito só no raciocínio, sem laboratório) que parecia derrubar o princípio da incerteza. Bohr passava o dia pensando com Heisenberg e Pauli e, no jantar, mostrava onde o raciocínio de Einstein falhava.

Segundo o relato de Heisenberg, o ciclo se repetiu dia após dia. Einstein trazia um caso novo de manhã, e à noite Bohr o desmontava.

A lousa de Ehrenfest

O físico austríaco Paul Ehrenfest, amigo dos dois, assistia de perto. Durante uma das sessões, foi até a lousa e escreveu uma frase do Gênesis sobre a Torre de Babel, a passagem em que Deus confunde as línguas dos homens.

Era uma piada sobre a sala: cada um falava sua língua, e ninguém entendia o argumento do vizinho.

Ehrenfest escreveu depois a amigos que Einstein, diante de Bohr, se comportava como os adversários dele tinham se comportado diante da relatividade, recusando a teoria nova por princípio.

O que saiu de Bruxelas

Ao fim da semana, a maioria dos presentes aceitou a interpretação de Copenhague como a leitura padrão da física quântica. Os anais da conferência saíram em francês em 1928, com o título Électrons et Photons (Elétrons e fótons).

Einstein perdeu a discussão de 1927 e nunca aceitou o resultado.

Einstein voltou a Bruxelas em 1930, na sexta conferência, com um novo experimento imaginário, uma caixa com relógio cheia de luz. Bohr respondeu usando a própria teoria da relatividade de Einstein.

A discussão entre os dois continuou por carta e em artigos até a morte de Einstein, em 1955.

 

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III  Depois da Foto

O que aconteceu com os retratados

Lorentz, o presidente da mesa, morreu quatro meses depois da foto, em 4 de fevereiro de 1928, em Haarlem, na Holanda. No enterro, os telégrafos do país pararam por três minutos em homenagem a ele.

Em 1933, com a chegada do nazismo ao poder na Alemanha, a foto se desfez geograficamente. Einstein estava fora do país quando Hitler assumiu e nunca voltou; foi para Princeton, nos Estados Unidos.

Max Born, de família judia, perdeu o cargo em Göttingen e foi para a Escócia, onde ensinou em Edimburgo. Schrödinger deixou Berlim por discordar do regime e acabou em Dublin. Pauli passou a guerra nos Estados Unidos.

A foto guardou junto um grupo separado pelo nazismo seis anos depois.

Os que ficaram

Planck e Heisenberg ficaram na Alemanha. Planck perdeu o filho Erwin, executado em 1945 por ligação com o atentado contra Hitler. Heisenberg chefiou o programa nuclear alemão durante a Segunda Guerra.

Marie Curie continuou em Paris, à frente do Instituto do Rádio. Morreu em julho de 1934, de anemia aplástica (falha da medula óssea), ligada aos anos de exposição à radiação.

A foto depois da foto

Durante décadas, a imagem de Couprie circulou em livros de física e paredes de departamentos universitários. Na internet, ganhou versões colorizadas e passou a ser chamada de foto mais inteligente já tirada.

O arquivo original pertence ao Instituto Internacional de Física Solvay, que mantém as conferências até hoje, com o mesmo formato fechado e por convite. A página da foto no Wikimedia Commons registra Benjamin Couprie como autor.

Pouco se sabe sobre Couprie fora dessa imagem. Os arquivos públicos não guardam biografia detalhada do fotógrafo, e o crédito dele quase sempre some quando a foto é reproduzida.

O prédio do parque

O Instituto de Fisiologia deixou de abrigar pesquisa. O prédio de tijolo no Parque Leopoldo passou a funcionar como escola, o Liceu Émile Jacqmain.

As árvores e o lago continuam no mesmo lugar, a cerca de 50,8 graus de latitude norte. Na fachada onde Couprie arrumou as cadeiras e o degrau dos 29, hoje passam alunos de ensino médio, diante da parede que aparece atrás de Heisenberg, Pauli e Schrödinger no fundo da foto de outubro de 1927.

 
 
Quiz da edição

Durante as discussões acaloradas entre Einstein e Bohr na conferência de 1927, quem foi até a lousa e escreveu uma frase do Gênesis sobre a Torre de Babel?

AWolfgang Pauli
BMax Born
CPaul Ehrenfest
DNiels Bohr

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