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Os 160 Relevos Enterrados de Borobudur Vivem em Chapas de 1891

Em Java, Kassian Cephas fotografou painel por painel a base escondida do templo, e as pedras voltaram a cobrir as cenas

Fotografia de Kassian Cephas, 1890-1891: relevo esculpido da base escondida de Borobudur, em Java

Relevo da base escondida, Kassian Cephas, 1890-1891

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A 7 graus e 36 minutos de latitude sul, numa colina da planície de Kedu, no centro de Java, Borobudur sobe em nove plataformas de pedra vulcânica empilhadas. Do terraço mais alto, num dia limpo, aparecem os cones dos vulcões Merapi e Merbabu.

O templo budista foi erguido entre os séculos 8 e 9 e não tem salão interno. Quem sobe faz o percurso pelo lado de fora, em galerias que dão voltas no monumento, e as paredes dessas galerias são cobertas de relevos (cenas esculpidas na própria pedra, em leve saliência).

Nos terraços circulares do alto ficam 72 estupas (monumentos em forma de sino), e dentro delas há estátuas de Buda sentado, voltadas para a planície.

Na base, a pedra não conta história nenhuma. Uma cinta larga de blocos lisos envolve o pé do templo e forma a plataforma onde começa a subida. Durante séculos, ninguém viu motivo para olhar atrás dela.

Em 1885, o engenheiro holandês Jan Willem IJzerman, presidente da Sociedade Arqueológica de Yogyakarta, reparou em blocos soltos nessa cinta. Atrás deles havia outra parede, mais antiga e também esculpida. A cinta escondia um embasamento inteiro de relevos.

A descoberta trouxe um impasse. Para ver as cenas, seria preciso desmontar a cinta, e a cinta segurava o peso das plataformas de cima. Tirar os blocos arriscava o monumento. Deixar os blocos no lugar condenava as esculturas ao escuro.

A saída juntou pedra e fotografia. Entre 1890 e 1891, os operários abriram a cinta por trechos, um fotógrafo registrava os painéis expostos e os blocos voltavam ao lugar. Só então o trecho seguinte era aberto.

O fotógrafo era javanês, nascido em Yogyakarta, e passou meses dentro de um corredor estreito de terra e pedra, com a câmera apontada para cenas que poucas pessoas veriam inteiras.

A imagem no topo é uma dessas chapas. Para entender o que ela guarda, o caminho começa pelo homem que a fez e pelo arquivo holandês onde ela está guardada.

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I  A Foto Histórica do Dia

Um fotógrafo javanês na vala do templo

A resposta de ontem

Em que casa Darwin mostrou as fotos de Duchenne?

Foi em Down House, a casa de Charles Darwin em Downe, no condado de Kent, a sudeste de Londres. Ali ele mostrou pranchas do atlas a visitantes e anotou as respostas, como reconstituíram Peter Snyder e colegas no Journal of the History of the Neurosciences, em 2010. A casa hoje é museu do English Heritage.

A foto se chama Relief of the hidden base of Borobudur (Relevo da base escondida de Borobudur) e foi feita entre 1890 e 1891 por Kassian Cephas, fotógrafo javanês nascido em Yogyakarta em 1845. A chapa pertence à coleção KITLV (o antigo Instituto Real Holandês de Estudos do Sudeste Asiático e do Caribe), sob o número 40091.

Desde 2014, a coleção KITLV está na Biblioteca Universitária de Leiden, na Holanda. No Wikimedia Commons, o arquivo aparece em domínio público, com a autoria atribuída a Cephas e a data registrada como 1890 a 1891.

Quem era Cephas

Cephas nasceu javanês numa colônia holandesa, num tempo em que a câmera era ofício de europeus. Foi batizado cristão em 1860, quando adotou o nome Kassian Cephas, e montou estúdio próprio em Yogyakarta.

O nome escolhido vinha da Bíblia. Cefas é a forma aramaica de pedra, o apelido que Jesus deu ao apóstolo Pedro nos Evangelhos, e o homem que levava esse nome passaria dois anos fotografando pedra.

Virou o fotógrafo da corte do sultão de Yogyakarta e registrou danças, cerimônias e retratos da família real. É lembrado como o primeiro fotógrafo profissional nascido no território da atual Indonésia.

Também trabalhava para a Sociedade Arqueológica de Yogyakarta. Já tinha fotografado templos da região para um livro de IJzerman quando recebeu a encomenda de Borobudur, paga pelo governo colonial holandês.

O trabalho na vala

O serviço seguia uma ordem fixa. Os operários retiravam os blocos da cinta num trecho da base até expor alguns painéis. Cephas montava a câmera no vão aberto, pouco mais largo que um corredor, e fotografava o relevo de frente.

Depois da chapa, os blocos voltavam. O trecho seguinte só era aberto quando o anterior estava fechado, para que a base nunca ficasse sem apoio em vários pontos ao mesmo tempo.

Ao fim de dois anos, a série cobria mais de 160 painéis, distribuídos pelos quatro lados do templo.

Cada painel ficou à vista por algumas semanas e depois passou a existir só na chapa.

O que a foto mostra

A imagem é larga e baixa, no formato dos próprios painéis. Mostra figuras esculpidas em andesito (a rocha vulcânica cinza usada em todo o templo), com a superfície gasta e manchada pela terra que ficou encostada nela por mais de mil anos.

A pedra aparece suja, sem a limpeza que um restaurador faria. Cephas fotografou o relevo do jeito que a escavação o devolvia, com a luz entrando de cima, pela abertura da vala.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A vida comum gravada atrás da cinta

As chapas de Cephas tiraram os painéis do escuro e os puseram nas mesas de estudiosos da Europa e de Java. Quem nunca iria a Borobudur passou a ler a base escondida pela fotografia.

As cenas fogem do tema das galerias de cima, dedicadas à vida de Buda e aos textos sagrados. Na base aparecem lavradores, pescadores, músicos, mães com crianças, cozinheiros e caçadores do centro de Java de mais de mil anos atrás.

Aparecem também castigos e recompensas. Há figuras sofrendo em cenas de inferno e figuras celebrando em cenas de festa. A lógica é de causa e efeito: um painel mostra um ato, bom ou ruim, e o vizinho mostra o destino de quem o praticou.

Para historiadores, a série virou um catálogo raro do cotidiano javanês da época: roupas, instrumentos, casas, barcos e ferramentas aparecem com detalhe.

Sem as fotos, esse catálogo teria ficado restrito a quem o viu durante a escavação: os operários, IJzerman e o próprio fotógrafo. Com elas, pesquisadores de outros países puderam comparar painel com painel, sem pisar em Java.

As palavras escondidas

Acima de alguns painéis, as fotos revelaram palavras curtas gravadas na pedra, em escrita kawi (o alfabeto do javanês antigo). Pareciam instruções para os escultores, indicando a cena que devia ser esculpida naquele trecho. Nem todos os painéis trazem essas palavras, e as que existem chegaram legíveis porque a cinta protegeu a parede do sol e da chuva por mais de mil anos.

O traçado das letras serviu de pista para os epigrafistas (especialistas em inscrições antigas). A forma da escrita corresponde ao fim do século 8 e ao começo do século 9, o que ajudou a situar a construção no tempo da dinastia Sailendra, que governava o centro de Java nesse período.

As instruções aos escultores, feitas para sumir sob a pedra, viraram prova da idade do templo.

Por que a base foi coberta

A cinta de blocos foi posta ainda durante a construção, sobre relevos já esculpidos. A explicação mais aceita entre arqueólogos é estrutural: o pé do monumento cedia com o peso das plataformas, e o reforço funcionava como contraforte (parede de apoio que segura outra).

Há quem defenda um motivo religioso, como uma mudança de plano dos construtores. Nenhum documento da época explica a decisão, e ninguém sabe com certeza por que a base foi fechada: o que se conhece vem só da própria pedra.

Assim, a escavação de 1890 terminou como tinha começado, com a base coberta. O governo colonial holandês não quis arriscar o monumento para expor um mural que a câmera já tinha guardado.

 

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III  Depois da Foto

A base que só se vê num canto

Kassian Cephas morreu em Yogyakarta em 1912, aos 67 anos. O filho Sem Cephas seguiu o ofício do pai e também fotografou a corte do sultão.

Entre 1907 e 1911, o engenheiro militar holandês Theodoor van Erp restaurou as plataformas superiores de Borobudur. A base escondida ficou como Cephas a deixou.

Entre 1975 e 1982, o governo da Indonésia e a Unesco desmontaram e remontaram as galerias para refazer a drenagem e conter a infiltração de água. A cinta continuou no lugar.

Os técnicos dessa obra voltaram a discutir a ideia de expor a base inteira e chegaram à mesma conclusão de 1891: sem a cinta, o pé do templo perderia o apoio. Em 1991, Borobudur entrou na lista de Patrimônio Mundial da Unesco.

O canto aberto

Hoje, no canto sudeste do templo, um trecho da cinta foi retirado e alguns painéis ficam à vista do visitante. É o único ponto onde a base original aparece sem a mediação de uma fotografia.

Para os demais painéis, valem as chapas. O museu do parque arqueológico de Borobudur expõe reproduções das fotos de Cephas, e guias e livros sobre o templo usam as mesmas imagens até hoje, com o nome dele no crédito.

Mais de um século depois, quem estuda a base inteira estuda as fotos de Cephas.

Onde estão as chapas

As cópias da série se dividem entre a coleção KITLV, em Leiden, e o antigo Tropenmuseum, de Amsterdã, hoje parte do Wereldmuseum. As duas coleções publicaram as imagens em domínio público no Wikimedia Commons, com o número de catálogo de cada relevo.

Os painéis voltaram ao escuro há mais de 130 anos. As cenas de lavradores, músicos e castigos continuam legíveis porque um javanês da corte de Yogyakarta trabalhou dois anos dentro de uma vala.

Borobudur segue na mesma colina da planície de Kedu, a 7 graus e 36 minutos de latitude sul, com o Merapi e o Merbabu no horizonte e os relevos da base sob a cinta de pedra.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem identificou, em 1929, o texto budista ilustrado pelos 160 painéis escondidos de Borobudur?

 
 
Quiz da edição

Em que ano o engenheiro holandês Jan Willem IJzerman reparou nos blocos soltos que escondiam o embasamento de Borobudur?

A1890
B1885
C1891
D1929

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