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As chapas de Cephas tiraram os painéis do escuro e os puseram nas mesas de estudiosos da Europa e de Java. Quem nunca iria a Borobudur passou a ler a base escondida pela fotografia.
As cenas fogem do tema das galerias de cima, dedicadas à vida de Buda e aos textos sagrados. Na base aparecem lavradores, pescadores, músicos, mães com crianças, cozinheiros e caçadores do centro de Java de mais de mil anos atrás.
Aparecem também castigos e recompensas. Há figuras sofrendo em cenas de inferno e figuras celebrando em cenas de festa. A lógica é de causa e efeito: um painel mostra um ato, bom ou ruim, e o vizinho mostra o destino de quem o praticou.
Para historiadores, a série virou um catálogo raro do cotidiano javanês da época: roupas, instrumentos, casas, barcos e ferramentas aparecem com detalhe.
Sem as fotos, esse catálogo teria ficado restrito a quem o viu durante a escavação: os operários, IJzerman e o próprio fotógrafo. Com elas, pesquisadores de outros países puderam comparar painel com painel, sem pisar em Java.
As palavras escondidas
Acima de alguns painéis, as fotos revelaram palavras curtas gravadas na pedra, em escrita kawi (o alfabeto do javanês antigo). Pareciam instruções para os escultores, indicando a cena que devia ser esculpida naquele trecho. Nem todos os painéis trazem essas palavras, e as que existem chegaram legíveis porque a cinta protegeu a parede do sol e da chuva por mais de mil anos.
O traçado das letras serviu de pista para os epigrafistas (especialistas em inscrições antigas). A forma da escrita corresponde ao fim do século 8 e ao começo do século 9, o que ajudou a situar a construção no tempo da dinastia Sailendra, que governava o centro de Java nesse período.
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As instruções aos escultores, feitas para sumir sob a pedra, viraram prova da idade do templo.
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Por que a base foi coberta
A cinta de blocos foi posta ainda durante a construção, sobre relevos já esculpidos. A explicação mais aceita entre arqueólogos é estrutural: o pé do monumento cedia com o peso das plataformas, e o reforço funcionava como contraforte (parede de apoio que segura outra).
Há quem defenda um motivo religioso, como uma mudança de plano dos construtores. Nenhum documento da época explica a decisão, e ninguém sabe com certeza por que a base foi fechada: o que se conhece vem só da própria pedra.
Assim, a escavação de 1890 terminou como tinha começado, com a base coberta. O governo colonial holandês não quis arriscar o monumento para expor um mural que a câmera já tinha guardado.
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