In partnership with

Foto Histórica   Foto Histórica
ED 067
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

Você escolhe as próximas edições: a votação está no fim desta edição.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Os 15 Retratos do Armário de Harvard

Em 1850, um fotógrafo de Columbia retratou sete pessoas escravizadas para um professor de Harvard tentar provar uma teoria racial

Daguerreótipo de Jack, homem escravizado em Columbia, Carolina do Sul, feito por Joseph T. Zealy em 1850

Jack, daguerreótipo de J. T. Zealy, 1850

▼
 

A 34 graus de latitude norte e 90 metros acima do mar, Columbia, a capital da Carolina do Sul, nasceu no ponto onde o rio Congaree deixa de ser navegável. Em 1850, dali se viam algodoais até o horizonte, trabalhados por gente escravizada.

No centro da cidade funcionava um estúdio de daguerreótipos (fotografias feitas direto numa placa de cobre prateada, sem negativo, cada uma única). O dono anunciava retratos à luz de claraboia, o vidro no teto que deixava entrar o sol necessário para a exposição.

Em março daquele ano, o estúdio recebeu clientes que não tinham pedido para ir. Eram sete pessoas, trazidas de fazendas da região, e nenhuma delas pagaria pelo retrato nem levaria a placa para casa.

Elas tiraram a roupa diante da câmera. Foram fotografadas de frente, de perfil e de costas, algumas nuas da cintura para cima, outras inteiramente nuas, paradas o tempo da exposição, que pedia segundos de imobilidade total. Ninguém anotou o que disseram, se disseram algo, nem quanto tempo passaram ali dentro.

Quem encomendou as imagens não estava na Carolina do Sul por acaso. Era um naturalista suíço, professor em Harvard, recém-chegado de uma reunião científica em Charleston, e queria prova visual para uma tese sobre a origem dos povos.

As placas foram guardadas em estojos, com etiquetas escritas à mão: um primeiro nome, a origem africana atribuída, o nome do dono. Seguiram para Massachusetts e sumiram dos inventários por mais de um século.

Quando reapareceram, em 1976, ninguém na instituição sabia direito o que eram. Quase cinco décadas depois, uma mulher que se diz descendente de um dos retratados ainda brigava na Justiça pelo direito de tirá-las de lá.

A imagem no topo é uma dessas placas. O homem nela se chamava Jack, e a etiqueta do estojo diz de onde ele teria vindo e a quem pertencia.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

Read less, know more.

That's it. That’s the pitch.

Morning Brew is a free daily email that explains the news shaping your life in a way you won't hate. From how geopolitics hits your wallet to AI eating entire industries, it's all explained in about 5 minutes, with just enough puns to keep things interesting.

Heck, you might even enjoy the news for once. No jargon. No pretending you understood that stock market headline.

See why over 4 million people start their day with Morning Brew.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  A Foto Histórica do Dia

Sete nomes em estojos de couro

Os Daguerreótipos de Zealy são 15 placas feitas em março de 1850 pelo fotógrafo Joseph T. Zealy, em Columbia, por encomenda do naturalista Louis Agassiz. Retratam sete pessoas escravizadas, cinco homens e duas mulheres, identificadas só pelo primeiro nome.

Zealy, nascido em 1812, era um dos daguerreotipistas conhecidos da cidade. Fez o serviço como faria com qualquer encomenda: câmera fixa, retratado sentado, um suporte de metal escondido atrás da cabeça para ninguém tremer.

O intermediário foi Robert W. Gibbes, médico e naturalista de Columbia, colecionador de fósseis e defensor da escravidão. Foi ele quem escolheu as pessoas nas fazendas de conhecidos e providenciou que fossem levadas ao estúdio.

Quem está nas placas

As etiquetas dos estojos, escritas na época, registram nome, origem e proprietário:

• Renty, nascido no Congo, da fazenda de B. F. Taylor.

• Delia, filha de Renty, nascida na Carolina do Sul, da mesma fazenda.

• Jack, nascido na Guiné, também da fazenda de Taylor.

• Drana, filha de Jack, nascida na Carolina do Sul.

• Fassena, mandinga (povo da África Ocidental), carpinteiro, do coronel Wade Hampton.

• Alfred, fula (povo pastor da faixa ao sul do Saara), de I. Lomas.

• Jem, gullah (descendente de africanos das ilhas costeiras da Carolina), de F. N. Green.

Os pais, Renty e Jack, vieram da África. As filhas, Delia e Drana, nasceram já no cativeiro. A escolha servia à tese de Agassiz: mostrar traços que, segundo ele, passavam iguais de uma geração para a outra, sem nada em comum com os do europeu.

O que a foto mostra

A imagem no topo, catalogada no Wikimedia Commons como Jack1850FrontZealy.jpg e registrada no Wikidata no conjunto Agassiz Zealy slave portraits, mostra Jack de frente, sem camisa, olhando para a lente. Está em domínio público.

A etiqueta dele traz a palavra driver, que na fazenda queria dizer capataz (o escravizado encarregado de vigiar o trabalho dos outros). Jack ocupava o posto mais alto que a fazenda permitia a um cativo, e mesmo assim foi despido para a câmera.

Zealy fez o retrato que um cientista pediu, e o retratado não teve escolha em nenhuma etapa.

A placa de daguerreótipo funciona como espelho. Para ver o rosto de Jack, é preciso inclinar o estojo até a prata escurecer; posta contra a luz, a placa devolve o reflexo de quem olha por cima do rosto dele.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A prova que Agassiz encomendou

Louis Agassiz nasceu na Suíça em 1807, ficou famoso estudando peixes fósseis e geleiras e chegou aos Estados Unidos em 1846. Em 1847, Harvard lhe deu uma cátedra (posto de professor titular) de zoologia e geologia.

Nos primeiros meses no país, num hotel da Filadélfia, ele teve o primeiro contato próximo com pessoas negras: os garçons que o serviam. Escreveu à mãe sobre o encontro.

“Não consigo reprimir a sensação de que eles não são do mesmo sangue que nós.”
Louis Agassiz, carta à mãe, 1846, citada por Stephen Jay Gould em A Falsa Medida do Homem, 1981

A tese da origem separada

Agassiz defendia o poligenismo (a ideia de que as raças humanas foram criadas separadas, cada uma numa região do mundo). Contra ele estava a leitura bíblica de uma origem comum e, a partir de 1859, a evolução de Charles Darwin.

Em março de 1850, ele apresentou a tese em Charleston, na reunião da Associação Americana para o Avanço da Ciência. A plateia sulista gostou: se os povos tinham origens diferentes, a hierarquia entre eles parecia natural, e a escravidão ganhava verniz de ciência.

Os daguerreótipos deveriam servir de prova. Em julho, Agassiz publicou na revista Christian Examiner o ensaio The Diversity of Origin of the Human Races (A diversidade de origem das raças humanas).

As placas, no entanto, não aparecem em nenhum texto dele. Não há registro de que Agassiz as tenha mostrado em palestra ou citado em artigo, e os historiadores não sabem dizer com certeza por que o material encomendado ficou na gaveta.

Uma tese que não resistiu

O poligenismo perdeu terreno depois de Darwin e saiu da biologia no século 20. Os retratos sobreviveram à teoria e mudaram de função: deixaram de ser amostra e viraram documento sobre quem faz ciência com o corpo alheio.

A ciência que encomendou as fotos caiu, e as fotos passaram a acusar quem as pediu.

Em 1995, o curador Brian Wallis publicou na revista American Art o ensaio Black Bodies, White Science (Corpos negros, ciência branca), que levou as placas para fora do círculo dos especialistas.

Na mesma época, a artista Carrie Mae Weems usou os retratos na série From Here I Saw What Happened and I Cried (Daqui eu vi o que aconteceu e chorei), tingidos de vermelho e com frases gravadas no vidro. Harvard ameaçou processá-la e, depois, comprou a série para o próprio acervo.

Em 2010, a historiadora Molly Rogers publicou Delia's Tears (As lágrimas de Delia), pela Yale University Press. O título vem da placa da filha de Renty: sob a luz certa, aparece no rosto dela um brilho que muitos leem como lágrima.

 

Quem banca a edição de hoje

Silver Has Beaten Gold Before. It's Doing It Again.

From 1974 to 1987, silver more than doubled gold's returns. After 2008, it beat gold five-fold in three years. Since March 2020, silver is up 402% against gold's 186%. Our research team's free playbook explains why, and how the team would position.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Depois da Foto

Do armário de Harvard a Charleston

As 15 placas ficaram no Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia, de Harvard, sem catálogo que dissesse o que eram. Em 1976, a pesquisadora Elinor Reichlin, que fazia um levantamento do acervo, abriu um armário no sótão do museu e encontrou os estojos.

As etiquetas permitiram ligar as placas a Agassiz e a Zealy. Harvard passou a controlar a reprodução das imagens, cobrando pelo uso e escolhendo onde elas apareciam.

A descendente de Renty

Tamara Lanier, funcionária pública aposentada de Connecticut, cresceu ouvindo da mãe a história de um antepassado africano chamado Renty, o “Papa Renty”, que aprendeu a ler escondido e ensinava os outros. Com pesquisa genealógica, concluiu que era o homem das placas.

Em 2019, ela processou Harvard pedindo a entrega das imagens. Um dos argumentos: a universidade tinha posto o retrato de Renty na capa de um livro de 2017, vendido a 40 dólares.

A primeira instância rejeitou o caso. Em 2022, a Suprema Corte de Massachusetts manteve a negativa sobre a posse das placas, mas deixou seguir o pedido de reparação por sofrimento emocional, apontando o descaso de Harvard com a família.

Harvard nunca aceitou a prova de parentesco. A genealogia segue sem confirmação independente, porque o documento escrito sobre um escravizado em 1850 costuma ser só o inventário ou o recibo de compra do dono, sem sobrenome nem família.

O acordo de 2025

Em 2025, as partes fecharam acordo. Harvard cedeu os daguerreótipos ao International African American Museum (Museu Internacional Afro-Americano), aberto em 2023 em Charleston, no Gadsden's Wharf, o cais onde desembarcaram milhares de africanos escravizados.

As 15 placas deixaram Harvard sem que a Justiça decidisse a quem pertenciam.

Os termos completos não foram tornados públicos, e o acordo, até onde se divulgou, não declara Lanier descendente de Renty. A disputa sobre o parentesco terminou sem sentença.

Do destino dos sete depois de março de 1850 quase nada se sabe. Não há registro conhecido de quando Jack, Renty, Delia, Drana, Fassena, Alfred e Jem deixaram as fazendas, nem se algum deles viveu para ver a abolição de 1865: os papéis das fazendas não guardaram essa resposta.

Columbia continua a 34 graus de latitude norte, na margem do Congaree. A placa de Jack saiu de lá em 1850 e voltou à Carolina do Sul 175 anos depois, a 160 quilômetros do estúdio, num museu de frente para o cais por onde homens como ele chegaram da Guiné.

“Se alguém tivesse feito um retrato seu sem pedir licença, a quem você confiaria a guarda dele?”

 
 
Quiz da edição

Quantas pessoas escravizadas foram fotografadas nas 15 placas encomendadas por Agassiz em março de 1850?

A15, uma pessoa por placa
B7, entre cinco homens e duas mulheres
C10, incluindo as duas filhas nascidas no cativeiro
D5, só os homens trazidos das fazendas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🎞️🎞️🎞️🎞️🎞️  ótima 🎞️🎞️🎞️🎞️  boa 🎞️🎞️🎞️  ok 🎞️🎞️  ruim 🎞️  péssima
 
Escolha uma das próximas edições

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai nos próximos dias.

Voto aberto até 14/10, 15h30

A Kassian Cephas em Borobudur →
B As Fotos Noturnas de Shiras →
C Arquivos do Planeta de Kahn →
D O Estúdio de Martín Chambi →
 
Recomendação de Newsletter
Mitologia do Dia

Mitologia do Dia

Todo dia, 12:12. Um mito grego virado do avesso: o padrão que ele descreve, e onde ele aparece em você.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
 
 

Toda foto tem um nome atrás.

Foto Histórica

FOTO HISTÓRICA

A história por trás da foto

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter