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O Vendedor de Bíblias Que Fotografou o Carvão
Em janeiro de 1911, um investigador entrou disfarçado no Ewen Breaker e saiu com os rostos, os nomes e as idades dos meninos do carvão
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Breaker boys no Ewen Breaker, Lewis Hine, 1911
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Nos Estados Unidos de 1911, a idade de um trabalhador era uma declaração, não um fato. Não existia registro civil nacional, poucos estados exigiam certidão de nascimento para admitir alguém, e a prova aceita no escritório de uma mina de carvão era um papel assinado pelo pai afirmando que o filho já tinha idade suficiente para entrar.
Esse papel custava quase nada e resolvia tudo. Se o inspetor estadual aparecesse, a empresa mostrava a declaração, o menino repetia o número escrito nela, e a visita terminava ali, porque ninguém tinha instrumento para contestar uma idade que não se conseguia medir.
Uma reforma trabalhista construída sobre um número inverificável não anda. Ela precisa de uma prova externa, alguma coisa que exista fora da palavra do empregador e da assinatura do pai, e que um deputado em Washington consiga examinar sem viajar até o poço.
A fotografia entrou exatamente nessa lacuna, com uma vantagem técnica que nenhum relatório tinha. Um corpo de dez anos não finge quatorze dentro do quadro. Altura, mão, ombro e proporção de cabeça ficam registrados no negativo, comparáveis a qualquer adulto que apareça ao lado, e nenhum cartório reescreve o que a lente mediu.
Por causa disso, quando o Comitê Nacional do Trabalho Infantil decidiu contratar alguém em tempo integral em 1908, não escolheu um advogado nem um estatístico. Escolheu um professor de sociologia que fotografava, porque o que faltava não era argumento jurídico e sim o rosto individual, com nome, endereço e medida anotados ao lado.
O método precisou ser inventado no caminho, e boa parte dele consistia em mentir na portaria. Fotógrafo identificado como investigador não passava do escritório, então o crachá tinha que ser outro: vendedor de bíblias, corretor de seguros, fotógrafo industrial contratado para registrar as máquinas, vendedor de cartão-postal da cidade.
Dentro da fábrica, o problema virava aritmético. Com o caderno guardado no bolso do casaco e a mão escrevendo às cegas, ele anotava nome e endereço de cada criança, e usava os botões do próprio paletó como régua para estimar a altura de quem estava ao lado.
Em janeiro de 1911, essa engenharia toda chegou a uma cidade de carvão no nordeste da Pensilvânia, onde a peneira de uma companhia empregava turmas inteiras de meninos sentados sobre calhas de pedra em movimento.
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I A Foto Histórica do Dia
Dez horas sobre a calha de carvão
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O prédio se chamava breaker, e era a primeira etapa do carvão depois que ele subia do poço. Uma estrutura de madeira de vários andares triturava a pedra bruta e a despejava por calhas inclinadas, onde a mistura de carvão, xisto e rejeito descia por gravidade até os vagões.
Separar essa mistura era trabalho de mão, e a mão escolhida era pequena. Os meninos ficavam sentados em tábuas atravessadas sobre as calhas, curvados para a frente, catando pedra do fluxo que passava embaixo das pernas durante todo o turno.
O turno era de dez horas, seis dias por semana, e o pagamento ficava entre quarenta e cinco e setenta e cinco centavos por dia. A lei da Pensilvânia proibia menores de doze anos no breaker e menores de quatorze dentro da mina, e as duas idades eram cumpridas apenas nos papéis do escritório.
O custo do serviço aparecia no corpo antes de aparecer em qualquer estatística. O carvão bruto corta, e os dedos ficavam com a ponta em carne viva, condição tão comum que tinha apelido próprio na região. O pó do xisto entrava no pulmão de quem passava dez horas debruçado sobre a calha.
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Um menino que escorregasse da tábua caía dentro do fluxo de carvão em movimento e, se não fosse alcançado a tempo, era arrastado pela calha junto com a pedra.
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A visita ao Ewen Breaker
Em janeiro de 1911, o investigador do comitê chegou a South Pittston e conseguiu entrar no breaker da Pennsylvania Coal Company. O que ele encontrou lá dentro era uma sala inclinada, com fileiras de meninos alinhados sobre as calhas e a luz entrando por janelas altas cobertas de poeira.
A fotografia que ficou mostra essa geometria inteira: dezenas de figuras curvadas na mesma direção, todas do mesmo tamanho, todas com boné, formando uma escada humana que sobe da frente do quadro até o fundo escuro do galpão.
A legenda que ele registrou no verso da chapa vale tanto quanto a imagem, porque traz o que a chapa não podia mostrar. O pó era tão denso em certos momentos que impedia a visão, penetrava até o fundo do pulmão dos meninos, e um capataz circulava entre as fileiras empurrando e chutando quem desacelerava.
Nenhuma dessas informações era novidade para quem morava na região. A novidade era o formato: um retrato individualizado, com data, cidade, nome da empresa e nomes das crianças, produzido por alguém sem vínculo com a indústria nem com o sindicato local.
Entre 1908 e 1918, esse trabalho de campo se repetiu em minas, fiações, indústrias de vidro, plantações de algodão e ruas de cidade grande, e produziu por volta de cinco mil fotografias com anotação de campo anexada a cada uma.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
A lei que passou e a Corte derrubou
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O comitê nunca tratou essas chapas como acervo artístico. Elas eram material de campanha, e foram distribuídas na forma que a época permitia: panfleto ilustrado, cartaz, painel de exposição itinerante, projeção de lanterna mágica em auditório de igreja e páginas da revista The Survey.
O painel de exposição foi o formato mais eficiente. Uma prancha combinava três ou quatro fotografias, o texto curto da legenda e um número de estatística, e o conjunto viajava de cidade em cidade para ser lido em pé, por qualquer pessoa, em menos de um minuto.
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A prova deixou de depender de quem estivesse disposto a acreditar no relatório: passou a depender apenas de quem tivesse olhos e um minuto diante da prancha.
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O censo de 1900 já havia contado cerca de um milhão e setecentos mil trabalhadores com menos de dezesseis anos no país. O número circulava havia uma década sem provocar decisão nenhuma, porque número de censo não tem rosto, cidade nem nome de empregador.
Com o material em circulação, o Congresso finalmente legislou. Em 1916, a Lei Keating-Owen proibiu o comércio interestadual de mercadoria produzida por fábricas que empregassem menores de quatorze anos e por minas que empregassem menores de dezesseis, e foi assinada pelo presidente Woodrow Wilson.
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Se eu pudesse contar a história em palavras, não precisaria carregar uma câmera.
Lewis Hine, citado em Lewis W. Hine and the American Social Conscience, de Judith Mara Gutman, 1967
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O que a lei encontrou pela frente
A vitória durou dois anos. Em 1918, no caso Hammer contra Dagenhart, a Suprema Corte derrubou a lei por cinco votos a quatro, sob o argumento de que regular as condições de produção dentro de um estado não cabia ao poder federal.
O Congresso tentou o caminho tributário logo em seguida, criando em 1919 um imposto pesado sobre o lucro de empresas que usassem trabalho infantil. Em 1922, no caso Bailey contra Drexel Furniture, a mesma Corte derrubou também esse imposto.
Em 1924 veio a tentativa mais ambiciosa, uma emenda constitucional específica sobre o assunto, aprovada pelas duas casas do Congresso. Ela precisava da ratificação de três quartos dos estados e nunca chegou perto desse número, ficando parada por décadas.
A proibição federal só ficou de pé em 1938, com a Lei de Padrões Justos de Trabalho, que fixou idade mínima de dezesseis anos para a indústria e de dezoito para ocupações perigosas, entre elas a mineração. Em 1941 a Suprema Corte confirmou a lei, e as fotografias tinham levado trinta anos para virar norma estável.
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