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O Último Tigre-da-Tasmânia

Em dezembro de 1933, no zoológico de Beaumaris, em Hobart, o naturalista David Fleay fotografou o único tigre-da-tasmânia vivo em cativeiro

O tigre-da-tasmânia do zoológico de Beaumaris, de pé e de frente para a câmera de David Fleay, em Hobart, em 1933

O tigre de Beaumaris, por David Fleay, 1933

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A 42 graus e 52 minutos de latitude sul, numa pedreira desativada do Queen's Domain, o morro de mata e gramado a nordeste do centro de Hobart, as jaulas do zoológico de Beaumaris tinham vista aberta para o estuário do rio Derwent. Na direção oposta, acima da cidade, subia o monte Wellington, com 1.271 metros e o topo branco nos meses frios.

O zoológico começou bem antes, em 1895, no jardim de Beaumaris, a casa de Mary Grant Roberts em Battery Point, o bairro antigo junto ao porto. Ela criava ali diabos-da-tasmânia, carnívoros do tamanho de um cão pequeno, e a coleção atraiu cientistas interessados nos bichos nativos. Mary morreu em 1921, a família doou a coleção à prefeitura de Hobart, e o novo zoológico abriu no Domain em 2 de fevereiro de 1923.

Entre os bichos da ilha, nenhum tinha fama pior que o tigre-da-tasmânia, um marsupial (mamífero que carrega o filhote numa bolsa) com cabeça de cão e listras escuras no lombo. As listras deram o apelido de tigre; a cabeça deu o nome científico, Thylacinus cynocephalus, que em grego quer dizer animal de bolsa com cabeça de cão. Os criadores o culpavam pelas ovelhas atacadas nas fazendas. Entre 1888 e 1909, o governo da Tasmânia pagou 1 libra por adulto abatido e 10 xelins (meia libra) por filhote, e quitou mais de 2.200 recompensas.

Nos anos 1920, a espécie já era raríssima. O último tigre abatido na natureza com registro caiu em 1930, com um tiro de Wilf Batty, fazendeiro de Mawbanna, no noroeste da ilha. Em 1933, o zoológico de Beaumaris guardava o único tigre-da-tasmânia vivo em cativeiro de que se tinha notícia no mundo.

Em dezembro daquele ano, um jovem naturalista chegou do estado de Victoria, no continente, para fotografar e filmar o animal dentro da jaula. Uma das chapas daquele mês é a foto do dia, com o tigre de frente para a lente do homem que ele ia morder.

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I  A Foto Histórica do Dia

De frente para a lente

A foto do dia mostra o tigre-da-tasmânia do zoológico de Beaumaris de pé, de frente para a câmera de David Howells Fleay, naturalista nascido em Ballarat, em Victoria, e formado em zoologia pela Universidade de Melbourne em 1931. A chapa foi feita em dezembro de 1933, quando Fleay tinha 26 anos. O animal está parado no chão claro da jaula, com as orelhas em pé, e olha direto para a lente.

O focinho é pálido, quase branco no queixo, e manchas claras contornam os olhos escuros. As listras só aparecem na parte de trás: faixas escuras cruzam o lombo e descem pela anca, no trecho do corpo virado de lado. As patas da frente estão firmes e afastadas, com as unhas à mostra. Atrás dele, uma tela de arame e uma mureta baixa de cimento marcam o limite do recinto.

No Wikimedia Commons, o acervo público de imagens ligado à Wikipédia, a chapa aparece em domínio público, com crédito a Fleay e a descrição de último tigre-da-tasmânia conhecido em cativeiro, fotografado no zoológico de Beaumaris.

Dois avisos debaixo do pano

Fleay entrou na jaula com câmera de fotografia e câmera de cinema. O filme, curto e em preto e branco, mostra o tigre sentado, andando rente à cerca, bocejando, farejando o ar, se coçando e deitando no chão.

Para filmar, ele trabalhava debaixo de um pano preto, o tecido que os fotógrafos do começo do século 20 jogavam sobre a cabeça e a câmera para enxergar a imagem no visor sem a luz do dia em volta.

Segundo os relatos de testemunhas que a filha dele, Rosemary Fleay, guardou na memória, o tigre deu dois bocejos antes de atacar. A boca escancarada era o sinal de ameaça da espécie, descrito por quem lidou com o animal na mata e em zoológicos, junto com rosnados e chiados. Fleay seguiu no trabalho, e o tigre deu a volta e mordeu a nádega dele.

Em 2014, o Queen Victoria Museum and Art Gallery, o museu de história e arte de Launceston, no norte da Tasmânia, pôs esses relatos numa exposição. O curador David Maynard comentou o episódio à agência de notícias australiana AAP:

“Ele teve aviso suficiente e levou o que merecia.”

Maynard disse que a mordida deve ter deixado furos de dente, porque a espécie tinha caninos grandes, mas que Fleay saiu sem ferimento sério, a não ser no orgulho. A cicatriz ficou, e ele a exibiu com gosto pelo resto da vida.

O bocejo largo era a ameaça da espécie, e Fleay recebeu dois antes da mordida.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A fera das recompensas

Antes das chapas de Fleay, uma das fotos mais espalhadas da espécie era outra. Em 1921, Henry Burrell fotografou um tigre-da-tasmânia com uma galinha na boca, e a imagem ajudou a colar no animal a fama de ladrão de aves. A cópia que circulou foi recortada para esconder a cerca do cativeiro.

As imagens de Beaumaris mostram outro bicho: um animal parado, atento, que boceja, se coça e anda de um lado para o outro junto à tela. O filme de Fleay virou referência de museus e documentários para mostrar como o tigre-da-tasmânia se movia e o tamanho da abertura da mandíbula.

Na mesma entrevista de 2014, Maynard rebateu a acusação que sustentou as recompensas do governo:

“Eles foram perseguidos pelo suposto impacto na criação de ovelhas, mas esse impacto foi muito exagerado.”

Para o curador, os ataques aos rebanhos vinham mais provavelmente de cães selvagens, cachorros trazidos pelos colonos que viviam soltos na ilha.

De Hobart a Healesville

Para Fleay, a visita a Beaumaris abriu uma carreira. Ele entendeu ali, diante do único tigre em cativeiro, que espécie rara precisava nascer em cativeiro antes de sumir da mata.

Em 1934, o zoológico de Melbourne o chamou para projetar e montar a seção de animais australianos. Em quatro anos de trabalho, ele fez nascer em cativeiro emus, coalas e podargos-australianos, aves noturnas de bico largo que passam o dia imóveis em galhos.

Em 1937, a direção do zoológico o dispensou, porque ele insistia em dar aos bichos nativos a comida que eles achariam na mata. Fleay assumiu então o santuário de Healesville, a 90 quilômetros de Melbourne.

Ali, em novembro de 1943, nasceu Corrie, o primeiro ornitorrinco (o mamífero de bico de pato que bota ovos) criado em cativeiro. O feito só se repetiu em 1998, no mesmo santuário.

Entre 1945 e 1947, Fleay voltou à Tasmânia atrás de um casal de tigres para reproduzir. A expedição recolheu pelos atribuídos à espécie e voltou sem nenhum animal.

Em 1951, uma lei de Victoria proibiu particulares de cobrar ingresso para mostrar coleções de bichos, e Fleay levou os dele para Burleigh, na Gold Coast de Queensland. O governo de Queensland comprou o terreno em partes, entre 1982 e 1985, e o mantém como David Fleay Wildlife Park.

Fleay saiu de Beaumaris com uma cicatriz e a ideia de fazer espécie rara nascer em cativeiro.

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III  Depois da Foto

Duas biografias para um tigre

Em 10 de julho de 1936, o governo da Tasmânia pôs o tigre-da-tasmânia sob proteção legal, depois de 35 anos de pressão de conservacionistas. O exemplar de Beaumaris viveu mais 59 dias.

Na noite de 7 de setembro de 1936, o último tigre do zoológico morreu. Robert Paddle, no livro The Last Tasmanian Tiger (O último tigre-da-tasmânia), de 2000, atribuiu a perda a descuido: o bicho teria ficado trancado do lado de fora do abrigo, exposto ao calor do dia e ao frio da noite.

Visitantes de 1936 e as duas últimas fotos dele mostram um animal velho, com sarna e mancando, e outros pesquisadores atribuem a perda à idade.

Qual tigre era

A identidade do animal também está em disputa. Para os pesquisadores Gareth Linnard e Stephen Sleightholme, era um macho preso num laço ainda filhote, em 1930, perto do monte Bischoff, no noroeste, e exibido por uma família local antes da venda ao zoológico. A cicatriz do laço na perna, segundo eles, aparece nas fotos e filmes do tigre de Beaumaris dos anos 1930.

Robert Paddle e a pesquisadora Kathryn Medlock contam outra história. O macho de 1930 teria vivido em Beaumaris só de 1930 a maio de 1936, e o último seria uma fêmea velha, capturada com laço pelo caçador Elias Churchill e vendida ao zoológico no mesmo mês, sem anúncio.

Em 2022, os dois apresentaram um registro de taxidermista (o profissional que empalha animais), de 1936 ou 1937, que cita o animal. Pela versão deles, os restos foram para o Tasmanian Museum and Art Gallery, o museu estadual de Hobart, sem catálogo.

Linnard e Sleightholme respondem que esconder a venda não fazia sentido em maio de 1936, quando o tigre ainda não tinha proteção legal. Ninguém resolve a disputa porque não sobrou registro de tigre vivo manuseado depois de 1931. Se a fêmea existiu, o tigre da foto do dia foi o penúltimo da espécie em cativeiro.

Benjamin, apelido de 1968

Em maio de 1968, Frank Darby, que se dizia tratador do zoológico, contou ao naturalista Graham Pizzey que o tigre se chamava Benjamin, e a história se espalhou pelos jornais de Melbourne. Darby nunca trabalhou em Beaumaris, e nenhum documento da época registra apelido para o bicho.

As regras internacionais da época só permitiam declarar uma espécie extinta depois de 50 anos sem registro confirmado. A União Internacional para a Conservação da Natureza, a UICN, fez a declaração em 1982, e o governo da Tasmânia, em 1986.

Desde 1996, a Austrália marca o 7 de setembro como Dia Nacional das Espécies Ameaçadas. Em 2021, para a data, o National Film and Sound Archive, o arquivo nacional de filmes e som do país, divulgou o filme de Fleay colorido em computador.

Em 2020, pesquisadores identificaram as imagens mais tardias da espécie: um trecho de 1935, filmado por Sidney Cook para o filme turístico Tasmania the Wonderland (Tasmânia, a terra das maravilhas). Fleay morreu em 7 de agosto de 1993, aos 86 anos.

Sem papel de compra depois de 1931, ninguém prova qual tigre foi o último.

A 42 graus e 52 minutos sul, a pedreira do Queen's Domain serviu de depósito de combustível à Marinha australiana de 1943 a 1991 e depois de depósito à prefeitura. Restos das jaulas de Beaumaris continuam lá, atrás de um portão instalado em 2000 para contar a história do zoológico a quem passa. Do terreno onde o tigre bocejou duas vezes para Fleay, ainda se vê o estuário do Derwent.

 
 
Quiz da edição

Quantos dias depois de o governo da Tasmânia proteger por lei o tigre-da-tasmânia o último exemplar de Beaumaris morreu?

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