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O Sorriso Verdadeiro Saiu de um Eletrodo em 1862

Em Paris, Duchenne de Boulogne fotografou um velho sem sensibilidade no rosto e mapeou, com choques, cada músculo da expressão

Fotografia de Duchenne e Tournachon, 1854-1856: velho com eletrodos no rosto e expressão de dor

Dor e desespero, Duchenne e Tournachon, 1854-1856

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A 48 graus e 50 minutos de latitude norte, na margem esquerda do Sena, o hospital da Salpêtrière ocupava em meados do século 19 um terreno do tamanho de um bairro de Paris, com pátios, capela e enfermarias para milhares de internos.

Pelas enfermarias da cidade circulava um médico sem cargo fixo, com uma caixa de madeira debaixo do braço. Dentro dela havia uma bobina, um ímã e dois fios terminados em pontas cobertas de pano úmido.

Ele encostava as pontas na pele de um paciente, girava uma manivela e a corrente fazia um músculo só se contrair. Chamava o método de faradização localizada (estímulo com corrente elétrica induzida, aplicado num ponto exato do corpo).

Entre os pacientes havia um velho sapateiro, desdentado, com o rosto quase sem sensibilidade. O choque não doía nele. Os eletrodos podiam ficar parados na testa, nas sobrancelhas e no canto da boca pelo tempo que a câmera pedisse.

E a câmera pedia muito. No colódio úmido dos anos 1850, uma pose de retrato exigia segundos de imobilidade, e nenhum rosto real segura um susto ou um choro por tanto tempo. A expressão espontânea desmancha antes de a placa terminar de receber luz.

Com o velho, o médico resolveu a dificuldade por outro caminho. Não pedia a expressão ao modelo. Fabricava a expressão, um músculo por vez, e mandava fotografar.

A imagem no topo saiu desse trabalho. Mostra o velho com os cantos da boca puxados para baixo e o meio das sobrancelhas erguido, a cara que o médico batizou de dor e desespero. Nas pranchas da série, os fios aparecem encostados na pele, seguros pela mão dele.

Em 1862 essas fotos viraram livro. Dez anos depois, um naturalista inglês reproduziu algumas delas para defender uma ideia sobre a origem das emoções humanas.

O caminho até lá começa pela prancha do velho sapateiro e pelos dois músculos ligados na testa e na boca dele.

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I  A Foto Histórica do Dia

A cara de dor feita sob comando

A resposta de ontem

Quem doou a Lacock Abbey ao National Trust em 1944?

Foi Matilda Talbot, neta de William Henry Fox Talbot. Em 1944 ela doou a abadia e quase toda a vila de Lacock ao National Trust. Em 1975 o celeiro medieval da entrada virou o Fox Talbot Museum, e a porta da foto de 1844 segue no pátio, aberta à visita.

A foto se chama Pain and despair (Dor e desespero) e foi feita entre 1854 e 1856 pelo neurologista francês Guillaume-Benjamin-Amand Duchenne, conhecido como Duchenne de Boulogne, com o fotógrafo Adrien Tournachon, irmão mais novo de Nadar, o retratista mais famoso de Paris.

Duchenne nasceu em Boulogne-sur-Mer, no litoral norte da França, em 1806, estudou medicina em Paris e voltou à cidade natal como clínico. Mudou-se de vez para Paris em 1842 e passou a atender nas enfermarias como médico sem vínculo, levando a própria máquina de choque.

O que a foto mostra

A cópia catalogada no Wikimedia Commons pertence à National Gallery of Art, de Washington, com o número de acervo 169284, e está registrada no Wikidata como obra de Duchenne e Tournachon. Está em domínio público.

O velho aparece de frente, cabelo ralo, olhos abertos. Os cantos da boca descem, o queixo se enruga e o meio das sobrancelhas sobe, riscando rugas oblíquas na testa. O resto do rosto fica quase parado, como se a dor tivesse sido pintada só em dois pontos.

Esses dois pontos eram os eletrodos. Duchenne estimulava o triangular dos lábios (o músculo que puxa o canto da boca para baixo) e o superciliar (o músculo que franze e ergue a ponta interna da sobrancelha). A expressão inteira nascia de duas correntes.

O modelo sem dor

Duchenne descreveu o paciente no livro como um velho sapateiro, desdentado, de rosto magro, com a pele da face quase insensível. Não registrou o nome dele. Nenhuma fonte conhecida conta quem era o homem nem como terminou a vida: o que se sabe dele está nas pranchas e nas poucas linhas do médico.

A insensibilidade facilitava o trabalho. Em outra pessoa, a corrente provocaria careta de dor e misturaria músculos. No velho, cada choque movia só o músculo tocado, e a câmera registrava o efeito limpo.

Duchenne não fotografou emoções: fotografou músculos ligados um por um.

O teste mais citado veio com o riso. Duchenne comparou o sorriso produzido pela corrente no zigomático maior (o músculo que puxa o canto da boca para cima e para fora) com o sorriso do velho ao ouvir uma piada. No primeiro, os olhos ficavam frios. No segundo, contraía-se também o orbicular dos olhos (o músculo em anel em volta de cada olho), que enruga a pálpebra de baixo.

“O primeiro obedece à vontade; o segundo só é posto em jogo pelas doces emoções da alma.”
Guillaume Duchenne, Mécanisme de la physionomie humaine, 1862

Com essa observação, o sorriso de cortesia e o sorriso de alegria ficaram separados no papel, e o de alegria ganhou músculo próprio.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Um livro de rostos para Darwin

O atlas saiu em Paris em 1862 com o título Mécanisme de la physionomie humaine (Mecanismo da fisionomia humana), pela editora Jules Renouard. Trazia o texto e um álbum de cópias em albumina (papel coberto de clara de ovo e sais de prata, que guardava detalhe fino).

O livro tinha duas partes. A científica mostrava o velho e outros pacientes com um músculo estimulado por vez. A estética usava as mesmas técnicas em poses compostas, como as de uma jovem parcialmente cega encenando passagens de Lady Macbeth, a personagem de Shakespeare.

Duchenne queria provar uma tese de anatomia: cada paixão tem músculos próprios, e pintores e escultores erravam quando inventavam expressões impossíveis para o rosto humano. Usou as fotos para apontar erros até em estátuas da Antiguidade.

A leitura de Darwin

Charles Darwin, naturalista inglês e autor de A origem das espécies, recebeu o atlas e trabalhou com ele por anos. Preparava uma obra sobre a expressão das emoções e precisava de rostos registrados sem a interpretação de um desenhista.

Em 1872, publicou em Londres, pela editora John Murray, The Expression of the Emotions in Man and Animals (A expressão das emoções no homem e nos animais). Pediu licença a Duchenne e reproduziu várias das fotos dele, por heliotipia (processo que transforma a foto em matriz de impressão) e em gravuras.

No livro, o velho de Duchenne ajudou Darwin a defender que as expressões têm raiz comum na espécie humana e vêm de hábitos herdados dos ancestrais, sem ser invenção de cada povo.

Antes de publicar, Darwin fez um teste doméstico. Mostrou fotos do atlas a convidados, sem dizer qual emoção o médico tinha buscado, e anotou o que cada visitante via. Algumas caras eram lidas quase sempre da mesma forma; outras dividiam as respostas.

O velho sapateiro virou prova numa discussão sobre a origem das emoções.

O que o atlas pôs na medicina

Para a neurologia, o mapa de Duchenne pesou mais que a estética. Saber qual músculo move qual traço permitiu ler paralisias pelo rosto e localizar a lesão pelo movimento perdido.

Com o mesmo método elétrico, Duchenne descreveu doenças nervosas e musculares. Uma delas, a distrofia muscular que leva o nome dele, uma doença genética que enfraquece os músculos de meninos, ainda é diagnosticada com esse nome.

Jean-Martin Charcot, que transformou a Salpêtrière em centro de neurologia nos anos 1860 e 1870, tratava Duchenne como mestre e abriu espaço para ele nas enfermarias do hospital.

 

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III  Depois da Foto

O sorriso com o nome do médico

Guillaume Duchenne morreu em Paris em 15 de setembro de 1875, aos 68 anos. O atlas seguiu nas bibliotecas de medicina e de escolas de arte, citado por anatomistas e por professores de desenho.

Por quase um século, o nome dele ficou preso à doença muscular. A volta ao sorriso veio pela psicologia americana.

O nome no sorriso

Em 1978, os psicólogos Paul Ekman e Wallace Friesen publicaram o Facial Action Coding System (sistema de codificação da ação facial), que dá número a cada movimento muscular visível no rosto. No sistema, a ruga do olho é a unidade 6, e o canto da boca puxado para cima é a unidade 12.

Em 1990, Ekman, Richard Davidson e Friesen publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um artigo que chamou de sorriso de Duchenne o sorriso com as duas unidades juntas. O termo pegou em laboratório, em livro de divulgação e em treino de fotógrafo de retrato.

A tese também ganhou contestação. Eva Krumhuber e Antony Manstead, num artigo de 2009 na revista Emotion, mostraram que muita gente contrai o músculo dos olhos de propósito, e que o sorriso de Duchenne pode ser encenado.

O atlas de 1862 deu nome ao sorriso de alegria, e o modelo ficou sem nome.

Onde estão as fotos

Cópias do atlas estão em bibliotecas e museus da Europa e dos Estados Unidos. A National Gallery of Art, de Washington, guarda a prova de Dor e desespero; o Cleveland Museum of Art e o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, têm outras pranchas da série.

As fotos que Darwin usou ficaram com os papéis dele, hoje no acervo da biblioteca da Cambridge University, na Inglaterra. As máquinas de choque de Duchenne também sobreviveram, em coleções de história da ciência.

A Salpêtrière continua no mesmo terreno, a 48 graus e 50 minutos de latitude norte, hoje parte do hospital Pitié-Salpêtrière, e o rosto do sapateiro que não sentia o choque segue nos manuais de psicologia com o nome do médico no sorriso.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que casa Darwin mostrou as fotos de Duchenne aos convidados antes de publicar o livro?

 
 
Quiz da edição

Na foto Pain and despair (Dor e desespero), quais dois músculos Duchenne estimulou com eletrodos para montar a expressão no rosto do velho sapateiro?

AZigomático maior e orbicular dos olhos
BTriangular dos lábios e superciliar
CMasseter e frontal
DOrbicular da boca e corrugador do supercílio

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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