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O Sobrenome Que Assina 484 Mil Negativos

Agustín Víctor Casasola tocava uma agência com irmão, filhos e empregados, e a Fototeca Nacional ainda devolve a autoria chapa por chapa

Coluna de zapatistas com chapéus de palha a cavalo e a pé diante do Palácio Nacional, no Zócalo da Cidade do México, foto creditada a Agustín Casasola, 1914.

Zapatistas no Zócalo, Casasola, 1914

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A 2.240 metros de altitude, no Zócalo da Cidade do México, o ar é rarefeito e o fôlego de quem caminha encurta. Em 24 de novembro de 1914, quem cruzava a praça a pé via chapéus de palha de aba larga, cartucheiras cruzadas no peito e cavalos parados diante do Palácio Nacional.

Eram os soldados do Exército Libertador do Sul, a tropa camponesa de Morelos. Tinham descido das montanhas ao sul da capital e entravam no centro do poder sem disparar um tiro, porque o governo anterior tinha abandonado a cidade dias antes.

Uma câmera estava na praça. A chapa mostra a coluna de homens avançando em fila, com Eufemio Zapata, irmão de Emiliano, à frente do grupo.

A foto entrou nos livros de história, nas capas de revista e nos murais de escola. Na legenda, quase sempre, vem um sobrenome só: Casasola.

O problema começa aí. Casasola não era um homem com uma câmera. Era uma família, uma empresa e uma rede de fotógrafos contratados, que vendia imagens aos jornais da capital e carimbava todas com a mesma marca.

Quem apertou o obturador naquela manhã de novembro? A resposta mais repetida aponta o chefe da casa. A resposta honesta é mais curta: o negativo não diz.

Hoje o acervo inteiro mora num antigo convento em Pachuca, a cerca de 90 quilômetros ao norte da praça. São quase meio milhão de negativos e cópias guardados sob uma etiqueta de família, e uma equipe de pesquisadores tenta, chapa por chapa, devolver a cada imagem a mão que a fez.

A tarefa é lenta porque o carimbo foi feito para apagar a diferença. Durante décadas, vender tudo sob um sobrenome era o negócio.

Antes de seguir o carimbo até Pachuca, vale conhecer quem emprestou o sobrenome à marca, e olhar a chapa dos zapatistas com atenção.

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I  A Foto Histórica do Dia

A coluna de chapéus diante do Palácio

Agustín Víctor Casasola nasceu na Cidade do México em 1874. Começou na tipografia (a oficina que compõe e imprime texto com letras de metal) e foi repórter antes de pegar a câmera, nos últimos anos do século XIX.

Nos primeiros anos de 1900 ele já fotografava para jornais como El Imparcial, o diário de maior tiragem do governo de Porfirio Díaz. Cobria posse, banquete, desfile militar e inauguração de obra pública.

A foto que abre esta edição está no Wikimedia Commons como Zapatistas in Zócalo, datada de 24 de novembro de 1914 e creditada a Agustín Casasola, em domínio público. O Wikidata registra o fotógrafo como Agustín Casasola, entidade Q4694662.

O que a imagem mostra

A praça ocupa quase todo o quadro. Ao fundo, a fachada longa do Palácio Nacional fecha o horizonte, com janelas iguais repetidas em fila.

Em primeiro plano, homens a cavalo e a pé seguem na mesma direção. Usam chapéu de palha de copa alta, camisa clara de algodão e calça de camponês.

Muitos levam cartucheira cruzada no peito e fuzil pendurado no ombro. Não há farda: quem olha sabe que se trata de tropa pelas armas, não pela roupa.

Nas bordas, curiosos param para ver a coluna passar. Alguns estão de terno e chapéu-coco, a roupa da classe média da capital, que tinha medo dos zapatistas e acabou por recebê-los sem resistência.

O enquadramento é largo e o ponto de vista fica um pouco acima da multidão, como quem subiu num degrau ou numa carroça para ter a praça inteira na chapa.

No canto do quadro, as torres da Catedral Metropolitana marcam o lado norte da praça. Os dois prédios juntos, igreja e palácio, permitem localizar com precisão onde a câmera estava.

Por que a cena importava

Emiliano Zapata liderava desde 1911 uma revolta de camponeses de Morelos que pediam a devolução de terras tomadas pelas fazendas de açúcar. A bandeira dele cabia numa frase: terra para quem trabalha nela.

Para a imprensa da capital, os zapatistas eram bandidos do sul. Ver aqueles homens montados diante do Palácio Nacional foi, para muitos leitores de jornal, a prova de que o país tinha virado.

A imagem fixou a Revolução Mexicana na cabeça do público com o rosto do camponês armado, e o crédito dela ficou com uma marca, não com uma pessoa.

Duas semanas depois, em 6 de dezembro de 1914, Zapata e Pancho Villa entraram juntos na capital. As fotos daquele dia, com Villa sentado na cadeira presidencial, também saíram com o carimbo Casasola.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Uma agência inteira sob um carimbo

Em 1912, no meio da Revolução, Agustín Víctor Casasola abriu uma agência de fotografia de imprensa na Cidade do México. A ideia era vender imagens a vários jornais ao mesmo tempo, em vez de trabalhar para um diário só.

O modelo pedia gente. O irmão, Miguel Casasola, também fotografava e cobria eventos que Agustín não alcançava. Os filhos cresceram dentro do laboratório: Gustavo, Ismael, Agustín filho, Mario e a filha Dolores trabalharam na casa em funções diferentes.

Havia ainda os empregados e os colaboradores de fora. Fotógrafos contratados por evento entregavam as chapas à agência, que copiava, legendava e vendia com o próprio carimbo.

Como o carimbo engolia o autor

A cópia ia para a redação com a marca da agência no verso. O jornal publicava com crédito de casa ou sem crédito nenhum, como era costume na época.

Com os anos, a família comprou também acervos de outros fotógrafos e de estúdios que fechavam. Esses negativos entraram nas mesmas caixas e ganharam o mesmo carimbo.

O resultado foi um arquivo que crescia como um rio recebe afluentes, sem registro de onde vinha cada água.

Para a agência, o modelo fazia sentido comercial. Um cliente que comprava uma foto Casasola sabia o que levava, e o jornal não precisava negociar com cada fotógrafo avulso.

O caso mais famoso

A foto de uma mulher pendurada na porta de um vagão de trem, conhecida como a Adelita da estação de Buenavista, passou décadas creditada a Agustín Víctor Casasola. O historiador Miguel Ángel Berumen, no livro México: fotografía y revolución, de 2009, atribuiu a chapa ao fotógrafo Jerónimo Hernández.

A atribuição saiu do cruzamento entre o negativo, as publicações da época e outras fotos de Hernández feitas no mesmo lugar.

Como se devolve a autoria a uma chapa

O caminho de quem pesquisa a autoria no acervo segue três passos.

1. Ler tudo o que acompanha o negativo: envelope, número de inventário, anotação a lápis e carimbo no verso das cópias.

2. Procurar a mesma imagem na imprensa da época, onde às vezes ela saiu com o crédito do fotógrafo antes de entrar no arquivo da agência.

3. Comparar o suporte, o formato da chapa e o ponto de vista com outras séries de autoria conhecida, para achar a câmera e o estilo de quem fotografou.

 

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III  Depois da Foto

O acervo que Pachuca ainda separa

Agustín Víctor Casasola morreu em 1938. Gustavo Casasola assumiu o arquivo e transformou as imagens em livro: a Historia gráfica de la Revolución Mexicana, publicada em fascículos e reeditada por décadas, com o sobrenome da família na capa.

Os livros espalharam as fotos pelo mundo e reforçaram a ideia de um autor único. Para o leitor comum, Casasola virou sinônimo de foto da Revolução.

Enquanto a família mantinha o arquivo, as cópias saíam para editoras, museus e jornais estrangeiros, sempre cobradas. O sobrenome funcionava como garantia de origem, e cada nova edição do livro repetia os créditos das anteriores.

Onde o arquivo foi parar

Em 1976, o governo do México comprou o arquivo da família. O acervo foi para o Instituto Nacional de Antropologia e História, o INAH, que criou no mesmo ano a Fototeca Nacional em Pachuca, capital do estado de Hidalgo.

A sede ocupa o antigo convento de San Francisco, construído pelos franciscanos no período colonial. As caixas que saíram da Cidade do México viraram o núcleo de um acervo que hoje recebe coleções de todo o país.

O INAH contabiliza cerca de 484 mil peças no Fondo Casasola, entre negativos de vidro, negativos de película e cópias em papel. É a maior coleção individual da Fototeca Nacional.

O material de vidro pede cuidado próprio. As chapas ficam em envelopes de papel neutro, em salas com temperatura e umidade controladas, e cada uma ganha número de inventário antes de ser digitalizada para consulta pública.

O que ainda não se sabe

Para a maioria dessas imagens, o fotógrafo real continua desconhecido. O carimbo, o envelope sem anotação e a cópia vendida sem crédito apagaram o rastro, e muitos colaboradores da agência nunca deixaram arquivo próprio para comparar.

Daí vem o catálogo da Fototeca registra a autoria em camadas: há chapas creditadas a um fotógrafo identificado, chapas atribuídas com reserva e chapas que seguem apenas como Casasola, a marca.

Um sobrenome em quase meio milhão de negativos guarda o trabalho de uma agência inteira, e cada autoria devolvida corrige um crédito que os livros repetiram por um século.

A chapa dos zapatistas está entre as que seguem sob a marca da família. Ela continua em Pachuca, a 2.400 metros de altitude e cerca de 90 quilômetros ao norte do Zócalo, com a coluna de chapéus de palha parada diante do Palácio Nacional e nenhum nome de fotógrafo escrito no envelope.

“Se uma foto famosa da sua família estivesse sem autor, que pista você seguiria primeiro para descobrir quem a fez?”

 
 
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Quiz da edição

No texto, quem aparece à frente da coluna de zapatistas na chapa de 24 de novembro de 1914?

AEmiliano Zapata
BPancho Villa
CEufemio Zapata, irmão de Emiliano
DAgustín Víctor Casasola

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