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O Rosto Escondido no Negativo de 1898

Secondo Pia fotografou o Sudário de Turim e viu um rosto na chapa; 90 anos depois, o carbono 14 datou o linho na Idade Média

Negativo de vidro de 1898 do Santo Sudário de Turim, com o rosto de um homem barbado em positivo

Negativo de Secondo Pia, Turim, 1898

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A 239 metros de altitude, perto da margem do rio Pó, a catedral de Turim guarda um pano de linho com 4,4 metros de comprimento. De perto, ele mostra pouco: manchas cor de palha, marcas de queimado e o vulto apagado de um homem deitado.

Na primavera de 1898, Turim festejava os 50 anos do Estatuto Albertino, a constituição do antigo reino do Piemonte, com uma grande exposição nacional. Entre 25 de maio e 2 de junho, a Casa de Savoia, dona do pano, aceitou mostrá-lo aos fiéis dentro da catedral.

Até ali, ninguém tinha fotografado o Sudário. O rei Umberto I autorizou a tentativa, e o encarregado foi um advogado de Asti, vereador da cidade e fotógrafo amador, chamado Secondo Pia, então com 42 anos.

A tarefa parecia simples e não era. A catedral é escura, e a fotografia de 1898 dependia de luz forte e de muito tempo de exposição. Pia montou dois refletores elétricos ligados a um gerador e uma câmera de fole grande, com chapas de vidro de 50 por 60 centímetros.

A primeira tentativa, em 25 de maio, deu errado. O calor das lâmpadas rachou os vidros foscos colocados na frente delas para espalhar a luz, e a imagem saiu manchada.

Na noite de 28 de maio, com a catedral fechada aos visitantes, ele tentou de novo. Subiu num andaime diante do altar, fez duas exposições, uma de 14 minutos e outra de 20, e levou as chapas para o quarto escuro perto da meia-noite.

No banho de revelação, o vidro deveria mostrar o pano com as cores trocadas, como todo negativo. Mostrou outra imagem, que ninguém em Turim esperava ver.

A seção I conta o que surgiu naquela chapa e por que a inversão de tons deu ao vulto apagado a cara de um retrato.

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I  A Foto Histórica do Dia

O retrato que surgiu no vidro

A resposta de ontem

Qual cineasta levou os negativos de Ernest Cole ao cinema?

Foi o haitiano Raoul Peck. O documentário Ernest Cole: Lost and Found estreou no Festival de Cannes em 2024 e ganhou o L'Œil d'or, o prêmio de melhor documentário. Peck montou o filme com as fotos achadas no banco e com textos do próprio Cole, lidos na voz do ator LaKeith Stanfield.

A foto do topo é a chapa de Pia, o negativo de vidro feito naquela noite. Num negativo comum, o claro vira escuro e o escuro vira claro. Ali, o vulto apagado do pano apareceu como um retrato nítido, com sombras, volume, barba e olhos fechados.

O homem surge de frente e de costas, porque o pano tinha envolvido o corpo pela cabeça, cobrindo a frente e o dorso. As mãos aparecem cruzadas sobre o ventre, e há marcas no punho, nos pés e ao longo das costas.

Um negativo dentro do pano

A explicação está no próprio linho. A imagem do Sudário já funciona como um negativo: as partes que no rosto seriam salientes, como a testa e o nariz, ficam mais escuras no tecido, e as partes fundas ficam claras.

Quando a câmera inverteu os tons, devolveu ao rosto a aparência natural. O retrato só existe no vidro. Quem olhava o pano na catedral, a poucos metros, via manchas, e não um rosto.

O pano guardava a imagem invertida havia séculos, e a chapa de 1898 apenas a desvirou.

As marcas do tempo

O tecido tem cerca de 4,4 metros por 1,1 metro, tramado em espinha de peixe (padrão de fios em ziguezague). Duas faixas de queimado correm ao longo do comprimento, com buracos em forma de triângulo.

Elas vêm de um incêndio em 1532 na Sainte-Chapelle de Chambéry, na França, onde a Casa de Savoia guardava o pano naquele tempo. Uma gota de prata derretida do relicário atravessou as dobras. Em 1534, freiras clarissas costuraram remendos sobre os buracos.

Na chapa de Pia, os remendos e as queimaduras aparecem claros, porque o vidro inverte tudo. O rosto, porém, fica entre as duas faixas, quase intacto.

A notícia correu a Europa

Os jornais italianos publicaram a descoberta em junho de 1898, e a imagem do rosto passou a circular em cópias impressas. Pela primeira vez, gente que nunca tinha ido a Turim via o vulto do pano com olhos, nariz e boca.

A partir daquela noite, o Sudário deixou de ser apenas relíquia de procissão. Virou objeto de estudo, e o estudo começou pela foto, porque o pano em si ficou guardado e quase nunca era exposto.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O laboratório contra a relíquia

A foto mudou a pergunta. Antes de 1898, a discussão sobre o Sudário era de fé e de documento antigo. Depois do negativo, cientistas passaram a perguntar como uma imagem com os tons invertidos foi parar num tecido.

Em 1902, o zoólogo francês Yves Delage, professor da Sorbonne, apresentou à Academia de Ciências de Paris uma análise feita sobre as fotos de Pia. Ele defendeu que a anatomia do corpo era precisa demais para a mão de um pintor medieval.

O documento de 1389

Os historiadores tinham outro papel na mão. Em 1389, o bispo Pierre d'Arcis, de Troyes, escreveu a Clemente VII, papa de Avinhão, que o pano exposto na igreja de Lirey, no norte da França, era obra de um pintor.

Segundo o bispo, o artista tinha confessado a autoria a um antecessor dele. A primeira notícia segura do pano é justamente de Lirey, nos anos 1350, nas mãos da família do cavaleiro Geoffroi de Charny.

Como se data um linho

O teste decisivo esperou o método do carbono 14 (forma radioativa do carbono que se desfaz num ritmo conhecido). Uma planta, como o linho, para de absorver carbono quando é colhida, e o relógio começa a correr. O exame de 1988 seguiu estes passos:

1. Em 21 de abril de 1988, uma tira de cerca de 7 centímetros foi cortada de um canto do pano, na catedral de Turim.

2. A tira foi dividida entre três laboratórios: a Universidade do Arizona, a Universidade de Oxford e o instituto ETH de Zurique.

3. Cada laboratório recebeu também amostras de tecidos com idade conhecida, sem saber qual delas vinha do Sudário.

4. Os três mediram, em separado, quanto carbono 14 restava nas fibras.

5. Em 13 de outubro de 1988, o cardeal Anastasio Ballestrero, arcebispo de Turim, anunciou o resultado: o linho foi feito entre 1260 e 1390.

Os números saíram na revista Nature em 16 de fevereiro de 1989, no artigo Radiocarbon dating of the Shroud of Turin, assinado por Paul Damon e pelas equipes dos três laboratórios:

“Esses resultados fornecem, portanto, evidência conclusiva de que o linho do Sudário de Turim é medieval.”

A data bate com o documento de Lirey. O intervalo de 1260 a 1390 cobre os anos 1350, quando o pano aparece pela primeira vez na história escrita.

O que segue em aberto

A datação tem críticos. Em 2019, o pesquisador Tristan Casabianca e colegas publicaram na revista Archaeometry uma reanálise dos dados brutos, apontando diferenças entre as amostras. A Igreja não autorizou nova datação por carbono 14 desde 1988.

Como a imagem se formou também não tem resposta aceita. Em outubro de 1978, o grupo americano STURP (Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim) examinou o pano por cinco dias e concluiu que a cor fica só na superfície das fibras, sem tinta visível. O microscopista Walter McCrone, que analisou fitas colhidas pela equipe, discordou e disse ter achado pigmento de óxido de ferro. A discussão segue sem acordo até hoje.

 

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III  Depois da Foto

O pano depois do vidro

Secondo Pia passou os anos seguintes acusado de ter retocado a chapa. Críticos diziam que um fotógrafo amador podia ter pintado o rosto no vidro, e o pano, guardado num relicário, não voltou à câmera por mais de três décadas.

A suspeita só caiu em maio de 1931, quando o Sudário foi exposto de novo e outro fotógrafo repetiu o trabalho com equipamento melhor. O rosto voltou a aparecer no negativo, igual ao de 1898. Pia faleceu em 7 de setembro de 1941, aos 85 anos, com o nome limpo.

A herança dos Savoia

O pano seguiu propriedade da Casa de Savoia até 1983. Naquele ano, o ex-rei Umberto II, que vivia exilado em Portugal, deixou o Sudário em testamento ao papa. Desde então, a guarda fica com o arcebispo de Turim, em nome da Santa Sé.

O fogo de 1997

Na noite de 11 para 12 de abril de 1997, um incêndio atingiu a Capela do Santo Sudário, obra do arquiteto Guarino Guarini colada à catedral. O pano estava numa caixa de vidro à prova de balas, perto do altar-mor.

O bombeiro Mario Trematore quebrou o vidro a marretadas e carregou o relicário para fora, intacto. A capela de Guarini ficou fechada por 21 anos e só reabriu em setembro de 2018.

A restauração de 2002

Em 2002, a restauradora suíça Mechthild Flury-Lemberg retirou os remendos costurados pelas clarissas em 1534 e o forro de pano que protegia o verso. Os buracos do incêndio de Chambéry ficaram à mostra, sobre um novo suporte de linho.

Hoje o Sudário fica deitado numa caixa com gás inerte (que não reage com o tecido), numa capela lateral da catedral. Ele só sai dali nas exposições raras marcadas pelo arcebispo.

A chapa de 1898 segue no centro de toda discussão sobre o pano.

O arquivo livre

A foto de Pia tem mais de 120 anos e caiu em domínio público. Hoje está no Wikimedia Commons, acessível a qualquer pessoa, ao lado das fotos dos exames de 1978 e 1988.

Na catedral de Turim, a 239 metros de altitude, o linho de 4,4 metros continua no escuro, datado entre 1260 e 1390. A chapa de vidro de 50 por 60 centímetros, revelada perto da meia-noite de 28 de maio de 1898, guarda o rosto que o pano sozinho nunca mostrou.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem fez as fotos de 1931 que livraram Secondo Pia da suspeita de retoque?

 
 
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B1532
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