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O Rosto Branco Que Calibrava Toda Foto Colorida da Kodak
Em 1911, o emir de Bukhara saiu em cores sem cartão de referência. Décadas depois, a Kodak media toda pele pelo rosto de uma modelo branca
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Alim Khan, Emir de Bukhara, Prokudin-Gorsky, 1911
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A 225 metros de altitude, no oásis de Bukhara, na Ásia Central, o verão de 1911 passava dos 40 graus à sombra. Dali se viam as cúpulas de azulejo azul das madraças (escolas corânicas) e as muralhas de barro do palácio do emir, cercadas de deserto por todos os lados.
Naquele ano, um fotógrafo russo chegou à cidade com uma câmera de madeira feita sob encomenda. Dentro dela corria uma chapa de vidro estreita e comprida, que recebia três exposições seguidas, uma atrás de cada filtro: azul, verde e vermelho.
Filme colorido ainda não existia à venda. Para ver a cena em cores, era preciso projetar as três imagens em preto e branco ao mesmo tempo, cada uma pela luz da sua cor, e acertar a sobreposição na parede.
O método cobrava paciência de quem posava. Cada exposição levava alguns segundos, e qualquer movimento entre uma e outra deixava bordas coloridas no contorno, como um carimbo tremido.
O fotógrafo viajava num vagão de trem cedido pelo governo do czar, com laboratório a bordo, e revelava as chapas no caminho. Bukhara era uma das paradas de um levantamento em cores do Império Russo que ele planejou durante anos.
Nenhum laboratório decidia, naquele verão, qual era a cor certa de um rosto. A química do vidro registrava a luz que batia na pele, e a projeção devolvia o que a chapa tinha guardado.
Quatro décadas depois, a 10 mil quilômetros dali, em Rochester, no estado de Nova York, a maior fabricante de filme do mundo resolveria a questão por conta própria. A Kodak escolheu um rosto, imprimiu esse rosto num cartão e passou a calibrar por ele a revelação de quase toda foto colorida do planeta.
O rosto era de uma funcionária branca, de cabelo castanho, vestida com cores fortes. Os laboratórios o chamavam pelo primeiro nome dela, Shirley.
Antes de chegar ao cartão, a edição volta a Bukhara, ao retrato que saiu daquela câmera de três filtros e que nenhum cartão calibrou.
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I A Foto Histórica do Dia
O emir de seda azul
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O fotógrafo era Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorsky, químico de formação, e o retratado era Said Mir Mohammed Alim Khan, emir de Bukhara desde 1910. O retrato, de 1911, é uma das fotografias coloridas mais antigas de um governante da Ásia Central.
As chapas de vidro pertencem hoje à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que as comprou dos herdeiros do fotógrafo em 1948. A composição em cores circula livre no Wikimedia Commons, em domínio público, e é a que abre esta edição.
O que a imagem mostra
Alim Khan está de pé, ao ar livre, diante de uma porta de madeira. Usa turbante branco e um manto longo de seda azul, estampado com flores grandes em vermelho, rosa e verde.
Na cintura, um cinto largo segura um sabre de punho dourado. No peito, presas ao manto, aparecem condecorações do Império Russo, do qual Bukhara era protetorado. A mão esquerda repousa no punho da arma.
O rosto tem barba escura e aparada, e a pele aparece morena, com sombra nos olhos e brilho na testa. Nenhum tom foi corrigido para se aproximar de um padrão: a chapa registrou a luz do meio-dia de Bukhara e mais nada.
Ao fundo, a madeira da porta guarda veios e rachaduras visíveis, e as dobras da seda azul mostram onde a luz bate e onde some. Os tons escuros da cena têm textura, das sombras do turbante ao couro do cinto.
Como as três chapas viraram uma
Prokudin-Gorsky projetava as imagens em palestras com uma lanterna de três lentes, uma para cada filtro. O público de São Petersburgo via as cores do império numa parede escura.
A versão que circula hoje vem da digitalização das chapas pela Biblioteca do Congresso, no começo dos anos 2000. Técnicos alinharam as três camadas no computador e corrigiram as franjas que o vento e a respiração do emir deixaram entre uma exposição e outra.
O resultado final depende dessas escolhas modernas de alinhamento e de contraste. A chapa original, porém, foi gravada sem nenhuma referência de pele, e cada técnico que a reprocessa parte do mesmo vidro de 1911.
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A pele do emir saiu da química do vidro, sem nenhum rosto de referência dizendo como ela deveria parecer.
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O processo de Prokudin-Gorsky tinha outros limites: pedia luz forte, sujeito parado e semanas de trabalho para cada projeção. Ele nunca virou produto de massa, e a cor nas mãos do público esperou outro caminho.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
A modelo que virou padrão de pele
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O caminho veio de Rochester. Em 1935 a Kodak lançou o Kodachrome, e nos anos 1950 a revelação de negativos coloridos saiu dos estúdios e passou para laboratórios comerciais, que imprimiam milhares de cópias por dia em máquinas automáticas.
Para que a cor saísse igual em qualquer laboratório, a Kodak distribuía um cartão de referência. Nele aparecia uma mulher branca, ombros de fora, ao lado de faixas de cinza e de cores puras. O técnico revelava o negativo do cartão e ajustava a máquina até a pele da modelo bater com o original.
Quem era Shirley
A pesquisadora canadense Lorna Roth, da Universidade Concordia, em Montreal, reconstituiu essa história no artigo Looking at Shirley, the Ultimate Norm (Olhando para Shirley, a norma suprema), publicado em 2009 no Canadian Journal of Communication.
Segundo Roth, a primeira modelo foi Shirley Page, funcionária da Kodak, e o apelido ficou para todas as que vieram depois. A modelo mudava, o figurino acompanhava a moda, e a pele seguia clara.
Na fala dos laboratórios, uma cópia estava certa quando Shirley estava certa. Rostos negros e morenos saíam escuros demais, sem detalhe nos olhos e na boca, e o técnico não tinha referência nenhuma para corrigir.
O problema começava antes do laboratório. As emulsões eram formuladas para registrar bem a faixa de tons da pele clara, e o que ficava abaixo dela virava uma mancha escura com pouca informação, por mais que o técnico mexesse na máquina.
Quem reclamou primeiro
As queixas que mexeram na química não vieram de clientes de pele escura. Vieram, segundo Roth, de fabricantes de chocolate, que não conseguiam mostrar a diferença entre o chocolate amargo e o ao leite nos anúncios, e de fabricantes de móveis, cujos catálogos perdiam o veio das madeiras escuras.
Nos anos 1970, a Kodak melhorou a faixa de tons escuros das emulsões (camadas sensíveis à luz do filme). Roth entrevistou Earl Kage, ex-gerente de pesquisa da empresa, sobre a motivação:
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Nunca foi a pele negra que foi tratada como um problema sério, pelo que eu sabia na época.
Earl Kage, ex-gerente de pesquisa da Kodak, em entrevista a Lorna Roth, 2009
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O conserto chegou para a mesa de jantar e o chocolate antes de chegar ao rosto.
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Houve quem protestasse antes. Entre 1977 e 1978, o cineasta Jean-Luc Godard recusou usar filme Kodak num trabalho em Moçambique e chamou o produto de racista, porque a película não registrava bem a pele dos moçambicanos.
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