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O Rosto Achado na Multidão

Em agosto de 1914, Heinrich Hoffmann fotografou a multidão da Odeonsplatz; o rosto celebrado como prova só apareceu ampliado dezoito anos depois

A Odeonsplatz de Munique vista de sul para norte, com a Theatinerkirche à direita e o calçamento aberto sem multidão.

Odeonsplatz, Detroit Publishing Co., c. 1895

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A 519 metros de altitude, na boca sul da Ludwigstraße, a Rua Ludwig de Munique, a Odeonsplatz não tem canteiro nem meio-fio partindo o chão: o calçamento corre liso da arcada da Feldherrnhalle, o Salão dos Generais, até a escadaria da Theatinerkirche, a Igreja dos Teatinos. Quem sobe os três degraus da arcada enxerga a praça inteira e ainda o quarteirão inicial da avenida, e era essa a vantagem que fotógrafo nenhum da cidade desperdiçava.

No domingo 2 de agosto de 1914, um dia depois de o império alemão decretar mobilização geral, a praça encheu. Gente de terno de domingo, chapéu na mão, estudante, funcionário público, criança no ombro do pai: uma massa parada olhando para o mesmo ponto, à espera de discurso, de banda militar e de notícia vinda de Berlim. A cena se repetiu em Hamburgo e na capital, e ficou conhecida na Alemanha como Augusterlebnis, a experiência de agosto, apelido que a propaganda alemã deu ao entusiasmo daqueles dias.

Um fotógrafo muniquense de 28 anos, Heinrich Hoffmann, levou a câmera até ali e fez a chapa da multidão. Era trabalho de rotina para ele, que vendia imagem de rua a revista ilustrada e a editor de cartão-postal. A fotografia circulou como retrato genérico de entusiasmo popular, sem ninguém identificado dentro dela, e assim ficou por quase duas décadas.

Dezoito anos depois, a mesma chapa reapareceu com função nova: um recorte ampliado de um canto da massa, com um rosto circulado e um nome ao lado, oferecido como prova documental de que Adolf Hitler estava na praça naquele domingo, celebrando a entrada da Alemanha no conflito. A imagem virou peça de fundação da biografia oficial dele. Em 2010, o historiador alemão Gerd Krumeich levantou a suspeita de que aquele rosto tivesse sido inserido depois.

A primeira seção fica na praça antes de tudo: a fotografia colorida que a Detroit Publishing Co. tirou dali por volta de 1895, o que ela mostra do calçamento e por que o ângulo dela ajuda a ler a chapa de 1914.

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I  A Foto Histórica do Dia

O calçamento antes da multidão

A imagem que abre a edição é uma photochrom, impressão litográfica colorida feita a partir de um negativo em preto e branco, produzida pela Detroit Publishing Co. e catalogada na Library of Congress sob o número de tiragem 9380, dentro da série Views of Germany, ou Vistas da Alemanha. A datação do catálogo americano fica entre 1890 e 1900.

O enquadramento pega a praça de sul para norte. À direita entra a fachada da Theatinerkirche com as duas torres gêmeas, à esquerda o começo do casario da Ludwigstraße, e no chão o calçamento aberto por onde circulam carruagens e transeuntes miúdos, reduzidos a manchas escuras pela distância da câmera. A praça aparece larga, sem mobiliário urbano no centro, sem canteiro e sem monumento no vão.

Como a cor entrou na chapa

A photochrom não é foto colorida. O processo foi desenvolvido na Suíça pela Photoglob Zürich nos anos 1880: o operador transferia o negativo monocromático para pedras litográficas, uma pedra por cor, e imprimia o papel em passagens sucessivas, escolhendo cada tom por anotação de campo ou por palpite. Uma vista comum saía de seis a quinze pedras. O resultado tem a fidelidade de desenho de uma fotografia e a cor de uma pintura, armadilha certa para quem tenta ler cor de época em cartão-postal antigo.

A Detroit Publishing Co. comprou a licença americana do processo em 1897 e montou um catálogo de vistas europeias vendido aos milhares nos Estados Unidos. A Odeonsplatz entrou nele como atração turística, na mesma prateleira dos Alpes e dos castelos do Reno, e não como palco político.

O valor documental desta photochrom está no chão: ela registra a praça vazia e mostra exatamente quanta superfície contínua havia para uma multidão ocupar quinze anos depois.

Esse vão explica a insistência dos fotógrafos. Sem árvore, sem quiosque e sem grade no centro, a Odeonsplatz oferecia o que praça de cidade europeia raramente oferece: um campo aberto em que a câmera pega milhares de cabeças de uma só posição elevada. A arcada da Feldherrnhalle, construída entre 1841 e 1844 por Friedrich von Gärtner, funcionava como tribuna e como mirante, e foi dela que saiu boa parte das imagens de aglomeração feitas em Munique entre a virada do século e os anos 1930.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A prova que apareceu em 1932

A chapa de 2 de agosto de 1914 mostra a praça na condição inversa da photochrom: o calçamento sumiu debaixo de gente, e o quadro vira uma textura de chapéus, com rostos legíveis só nas três ou quatro primeiras fileiras. Do meio para o fundo, cada cabeça ocupa poucos grãos de emulsão, e a ampliação devolve mancha, nunca feição nítida.

Heinrich Hoffmann vendeu a imagem como registro de época e seguiu a carreira. Em 1920 ele entrou no partido nazista, em 1923 começou a fotografar Adolf Hitler e, nos anos seguintes, construiu o monopólio de imagem do chefe do partido: contrato de exclusividade, direito sobre cada retrato publicado e uma editora própria para explorar o material.

Foi de dentro desse arranjo que a fotografia de 1914 voltou à mesa. Em março de 1932, na campanha presidencial que opôs Hitler a Paul von Hindenburg, o semanário ilustrado do partido, o Illustrierter Beobachter, ou Observador Ilustrado, publicou um recorte ampliado da multidão da Odeonsplatz com um rosto assinalado e a informação de que era Hitler, ali, aos 25 anos, aplaudindo a mobilização.

Também eu caí de joelhos e agradeci ao céu, de coração transbordante, por ter tido a felicidade de viver naquele tempo.

Adolf Hitler, Mein Kampf, 1925

A citação acima é o que a fotografia passou a comprovar. Hitler havia descrito o entusiasmo de agosto no livro publicado em 1925, sem dizer de que ponto da cidade assistira à cena. A imagem de 1932 preencheu o ponto, pôs endereço na frase e transformou uma lembrança pessoal, impossível de conferir, em documento visual com data, lugar e testemunhas anônimas em volta.

Uma lembrança escrita vale o crédito de quem escreve; uma fotografia de multidão vale o crédito da própria emulsão, e foi essa troca de fiador que a publicação de 1932 operou.

O efeito foi duradouro. O recorte entrou em livro de partido, em material escolar e em exposição comemorativa, sempre com a mesma legenda: o futuro chefe de Estado já estava ali, no primeiro dia, junto do povo. A biografia oficial ganhou um começo com imagem, e a imagem tinha a vantagem de não depender de testemunha viva nenhuma.

Hoffmann contou a própria versão da descoberta em memórias publicadas nos anos 1950: teria varrido as chapas antigas com lupa depois de 1929, à procura do rosto que já conhecia, e o encontrado teria vindo de uma delas. A explicação nunca veio acompanhada da chapa original apresentada a terceiros.

 

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III  Depois da Foto

A dúvida de 2010

Gerd Krumeich, professor da Universidade Heinrich Heine, em Düsseldorf, e especialista na Primeira Guerra Mundial, levantou em 2010 a suspeita que reabriu o caso: o rosto pode ter sido inserido na ampliação. O argumento dele parte da cronologia do próprio material. A chapa circulou desde 1914 sem identificação, e a descoberta só aparece quando Hoffmann já é o fotógrafo exclusivo do chefe do partido e há eleição presidencial em curso.

A suspeita não veio com prova definitiva, e Krumeich foi explícito quanto a esse limite. Não existe laudo técnico publicado que demonstre a montagem, assim como não existe documento de 1914 que ponha Hitler naquela praça. As duas afirmações continuam em aberto.

O que fecharia a questão

1A placa de vidro original de 1914, com a emulsão intacta, permitiria medir o grão na área do rosto e compará-lo com o grão da vizinhança: montagem refotografada deixa diferença de textura e de contraste local. A placa não está em acervo público conhecido.
2Uma cópia em papel datada e circulada antes de 1932, com o mesmo trecho da multidão, resolveria a cronologia sozinha: se o rosto já estiver lá numa tiragem anterior à campanha, a hipótese de inserção cai. Nenhuma cópia assim foi apresentada.
3O arquivo comercial de Hoffmann, confiscado pelos Estados Unidos em 1945 e hoje repartido entre acervos americanos e alemães, guarda negativos por dezenas de milhares. Uma varredura sistemática do material de 1914 é trabalho de anos, e ainda não devolveu a chapa de que se precisa.

Três pontos, portanto, ficam sem desfecho, e vale dizer quais são. Primeiro: se Hitler esteve ou não na Odeonsplatz naquele domingo, pergunta que nenhum documento de 1914 responde nos dois sentidos. Segundo: se o rosto ampliado em 1932 é autêntico, retocado ou colado, pergunta que depende de um original ausente. Terceiro: de quem partiu a iniciativa de publicar, se do fotógrafo, se da direção do partido, já que o material interno da campanha sobre este recorte não foi localizado.

O que está firme é o resto do encadeamento: a multidão real na praça em 2 de agosto de 1914, a fotografia feita por Hoffmann naquele dia, o silêncio de dezoito anos sobre qualquer rosto dentro dela, a publicação ampliada em março de 1932 em plena disputa eleitoral e a carreira posterior da imagem como peça de propaganda.

A fotografia mais citada da juventude de Hitler é hoje a menos verificável do conjunto: continua sem negativo, sem cópia intermediária e sem contraditório documental, e segue impressa em livro como se tivesse os três.

A photochrom número 9380 continua catalogada na Library of Congress, com a praça vazia, as carruagens paradas e o calçamento inteiro à mostra. Aquele chão foi o que a multidão de agosto cobriu, aquele ângulo foi o que Hoffmann teve à disposição, e das duas imagens ela é a única cuja origem ninguém precisa discutir.

“Uma fotografia sem negativo ainda vale como prova, ou só como ilustração da versão que a acompanha?”

 
 
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Quiz da edição

Quantos anos depois da fotografia da multidão na Odeonsplatz o rosto circulado apareceu publicado como prova de que Hitler estava ali?

ADois anos depois
BDezoito anos depois
CVinte e cinco anos depois
DOito anos depois

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