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Em 1738, em Assam, no nordeste da Índia, uma filhote de rinoceronte ficou órfã e foi parar na casa de Jan Albert Sichterman, diretor da Companhia Holandesa das Índias Orientais em Bengala. Ela cresceu solta pela propriedade, acostumada a gente, até ficar grande demais para uma sala de jantar.
Em 1740, o capitão holandês Douwe Mout van der Meer a comprou e a embarcou para a Europa. O desembarque em Roterdã aconteceu em 22 de julho de 1741. O capitão largou a navegação e passou os dezessete anos seguintes atravessando o continente com o animal numa carroça reforçada puxada por oito cavalos.
O nome dela era Clara, e o roteiro foi longo: feiras alemãs, a corte de Viena em 1746 diante de Maria Teresa e Francisco I, Paris em 1749, Roma em 1750, o carnaval de Veneza em 1751, cidades da Inglaterra, da Suíça e da Polônia. Cobrava-se ingresso na porta, com preço maior para quem quisesse chegar perto.
O que uma turnê de dezessete anos desfez
| 1 | O público passou a ver a pele de perto. As dobras existem, mas são couro, não chapa, e ninguém que encostou a mão nelas voltou para casa achando que o bicho andava rebitado. |
| 2 | Os artistas puderam desenhar do vivo. Jean-Baptiste Oudry pintou Clara em tamanho real em 1749, uma tela de mais de quatro metros de largura hoje no museu estadual de Schwerin, na Alemanha, e Pietro Longhi a registrou no camarote veneziano de 1751, quadro que está no Ca' Rezzonico. |
| 3 | A ciência trocou de fonte. O naturalista Buffon usou a pintura de Oudry como base da prancha do rinoceronte na sua Histoire Naturelle, publicada nos anos 1760, e a partir dali o animal dos livros perdeu a armadura. |
Clara também produziu moda. A passagem por Paris em 1749 rendeu penteado à la rhinocéros, medalha comemorativa e panfleto vendido na rua, num nível de comoção urbana que hoje se reservaria a turnê de estádio. A fera de Plínio virou celebridade com bilheteria.
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O rinoceronte afia o chifre nas pedras e ataca o elefante pelo ventre, a parte mais macia.
Plínio, o Velho, História Natural, livro VIII, ano 77
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Clara morava na estrada e comia laranja, pão e cerveja oferecidos pelo público. O chifre dela se desgastou nos anos de viagem e caiu, o que rendeu ao capitão a acusação de exibir um animal incompleto, e rendeu à ciência a primeira prova de que aquele chifre é queratina que cresce e se gasta.
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A turnê terminou em Londres, em abril de 1758, com o animal já velho para o padrão da espécie em cativeiro daquele tempo. O capitão voltou para a Holanda com um patrimônio construído a partir de ingressos vendidos na porta de tendas armadas em praça pública.
O que sobra da história é um método de leitura de imagem antiga. Antes de aceitar o que uma figura mostra, vale perguntar se quem a fez esteve diante do assunto, e quantas mãos existem entre o desenho que circula e o olho que viu o animal.
A folha de 1515 está catalogada na National Gallery of Art, em Washington, com a gorjeira de placas no pescoço, as escamas nas pernas, o chifre torcido sobre a cernelha e a data errada de 1513 impressa no alto.
“Quantas mãos existem entre você e o fato que você jura ter visto?”
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