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O Rinoceronte Que Dürer Nunca Viu

Em 1515, uma carta vinda de Lisboa virou a imagem mais copiada do animal na Europa, e a couraça de placas rebitadas nunca existiu na natureza

Xilogravura Rhinocerus, de Albrecht Dürer, impressa em Nuremberg em 1515, mostrando um rinoceronte indiano coberto de placas rebitadas e um segundo chifre torcido sobre a cernelha.

Rhinocerus, Albrecht Dürer, 1515

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O cais de Belém fica a sete quilômetros do centro de Lisboa, na margem norte do estuário do Tejo, num ponto em que o rio se alarga para mais de dez quilômetros antes de encontrar o Atlântico. De lá se via a linha de mastros das naus que voltavam da Índia, e o pátio de descarga onde a Casa da Índia conferia pimenta, marfim e o que mais viesse dentro do porão.

Em 20 de maio de 1515, quem estava naquele pátio viu descer de um navio vindo de Goa um animal de duas toneladas com pele cinzenta dobrada em pregas fundas e um chifre único sobre o focinho. Era uma fêmea de rinoceronte indiano, presente do sultão Muzafar II de Guzerate ao governador português Afonso de Albuquerque, repassada ao rei Manuel I.

A Europa não via um bicho daqueles desde os jogos romanos. Plínio, o Velho, descreveu um rinoceronte exibido em Roma nos espetáculos de Pompeu, e depois disso o animal sobreviveu apenas em texto, copiado de manuscrito em manuscrito por quatorze séculos, sempre com a mesma frase: inimigo natural do elefante, afia o chifre na pedra antes de atacar.

Manuel I resolveu testar a frase. Levou o rinoceronte para um pátio fechado em Lisboa, soltou diante dele um elefante jovem da sua coleção e chamou a corte para assistir. O elefante fugiu sem encostar no adversário, e a corte se dispersou sem ter visto duelo nenhum. A cena não resolveu nada sobre o animal, e mesmo assim virou notícia em toda a cristandade, repetida em despacho diplomático e em carta de mercador.

Notícia, em 1515, andava em papel dobrado dentro de um saco de correio. Quem quisesse saber como era o bicho dependia de alguém que tinha estado no pátio, sentado numa escrivaninha em Lisboa, escrevendo em letra apertada para um destinatário a mais de dois mil quilômetros de distância. Quem abria o envelope na outra ponta recebia palavras e, com sorte, um rabisco na margem da folha.

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I  A Foto Histórica do Dia

Uma carta de Lisboa e um bloco de pereira

A carta saiu de Lisboa no verão de 1515 e chegou a Nuremberg, cidade imperial livre no sul da atual Alemanha, com uma descrição escrita e um desenho rápido feito por mão anônima. O remetente pertencia à colônia de mercadores alemães instalada no porto português, gente que vivia de despachar notícia comercial junto com a mercadoria.

Quem recebeu o material foi Albrecht Dürer, então com 44 anos, o gravador mais requisitado do norte da Europa, dono de uma oficina que imprimia e vendia folhas avulsas para um público que ia de príncipe a lojista. Ele nunca tinha ido a Portugal e nunca chegaria perto de um rinoceronte vivo.

Dürer fez dois desenhos preparatórios a partir do relato, transferiu o contorno para um bloco de madeira de pereira e entregou o corte a um entalhador. A folha impressa saiu ainda em 1515, com um texto explicativo no alto contando a chegada do animal a Lisboa e a briga com o elefante.

O que o desenho acrescentou ao relato

O animal da estampa não é uma invenção completa. O rinoceronte indiano tem mesmo a pele em painéis grossos separados por dobras profundas, e de longe a impressão é de peça montada. O gravador pegou essa característica real e a levou até o limite da armadura de torneio que ele conhecia bem, porque desenhava armaduras havia anos.

A pele virou chapa metálica com contorno rebitado. O pescoço ganhou uma gorjeira de placas sobrepostas, iguais às que protegiam a garganta de um cavaleiro. As pernas foram cobertas de escamas circulares, e entre as patas dianteiras apareceu uma orla ondulada que parece saia de malha.

Sobre a cernelha do animal, Dürer plantou um segundo chifre, torcido em espiral, apontado para a frente. Nenhum rinoceronte que já existiu tem essa peça. Ela foi a marca que permitiu rastrear, séculos depois, cada cópia descendente daquela folha.

O texto impresso na parte de cima traz ainda um deslize de data, que aponta 1513 para uma chegada de 1515. O erro atravessou todas as tiragens seguintes sem correção, o que já dá uma pista de como aquela folha foi tratada dali em diante: como documento, não como interpretação.

Ele tem a cor de uma tartaruga malhada e está coberto quase inteiramente de escamas grossas.

Albrecht Dürer, texto impresso na xilogravura Rhinocerus, 1515

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Duzentos anos de couraça rebitada

A folha vendeu num volume raro para o início do século 16. Xilogravura era o formato barato do período: um bloco entintado produzia centenas de exemplares por dia, e o preço colocava a imagem ao alcance de quem jamais compraria uma pintura. O rinoceronte de Nuremberg entrou nesse fluxo e não saiu mais.

O historiador de arte T. H. Clarke, no livro The Rhinoceros from Dürer to Stubbs, de 1986, reconstruiu a linhagem da estampa e contou oito edições sucessivas do bloco original, a última já no século 17, além de reproduções que seguiram entrando em livro escolar alemão até o século 20.

A cópia entrou nos livros de ciência

Conrad Gessner colocou o animal de placas na Historiae Animalium, de 1551, o compêndio zoológico mais consultado da Europa naquele momento. Sebastian Münster já tinha feito o mesmo na Cosmographia. Edward Topsell repetiu a figura na Inglaterra em 1607. Nenhum dos três tinha visto o bicho.

A imagem circulou como registro de fato observado durante mais de dois séculos, e o naturalista que a copiava não estava mentindo: ele estava usando a melhor fonte disponível, produzida por um artista com reputação de precisão anatômica.

O que fechou o circuito foi o naufrágio. O rinoceronte de Lisboa foi embarcado no início de 1516 como presente de Manuel I ao papa Leão X, e o navio afundou na costa da Ligúria, perto de Portovenere, antes de chegar a Roma. O animal estava acorrentado ao convés e não teve chance.

Sem exemplar vivo na Europa, ninguém podia comparar a estampa com o original. A folha deixou de disputar com a realidade e passou a ocupar o lugar dela. Quem quisesse desenhar um rinoceronte copiava Nuremberg, e cada cópia reforçava a autoridade da anterior.

A couraça também virou objeto de luxo. A manufatura de porcelana de Meissen modelou rinocerontes de placas no século 18, e a figura apareceu em brasão, em relevo de igreja e em emblema de príncipe italiano. Um erro de anatomia tinha virado repertório decorativo europeu.

O chifre extra funciona como impressão digital do arquivo. Quando uma gravura antiga mostra aquela ponta espiralada nas costas, ela não veio de observação de campo. Veio, por caminho mais curto ou mais longo, do bloco de pereira cortado em Nuremberg.

 

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III  Depois da Foto

Clara no carnaval de Veneza

Em 1738, em Assam, no nordeste da Índia, uma filhote de rinoceronte ficou órfã e foi parar na casa de Jan Albert Sichterman, diretor da Companhia Holandesa das Índias Orientais em Bengala. Ela cresceu solta pela propriedade, acostumada a gente, até ficar grande demais para uma sala de jantar.

Em 1740, o capitão holandês Douwe Mout van der Meer a comprou e a embarcou para a Europa. O desembarque em Roterdã aconteceu em 22 de julho de 1741. O capitão largou a navegação e passou os dezessete anos seguintes atravessando o continente com o animal numa carroça reforçada puxada por oito cavalos.

O nome dela era Clara, e o roteiro foi longo: feiras alemãs, a corte de Viena em 1746 diante de Maria Teresa e Francisco I, Paris em 1749, Roma em 1750, o carnaval de Veneza em 1751, cidades da Inglaterra, da Suíça e da Polônia. Cobrava-se ingresso na porta, com preço maior para quem quisesse chegar perto.

O que uma turnê de dezessete anos desfez

1O público passou a ver a pele de perto. As dobras existem, mas são couro, não chapa, e ninguém que encostou a mão nelas voltou para casa achando que o bicho andava rebitado.
2Os artistas puderam desenhar do vivo. Jean-Baptiste Oudry pintou Clara em tamanho real em 1749, uma tela de mais de quatro metros de largura hoje no museu estadual de Schwerin, na Alemanha, e Pietro Longhi a registrou no camarote veneziano de 1751, quadro que está no Ca' Rezzonico.
3A ciência trocou de fonte. O naturalista Buffon usou a pintura de Oudry como base da prancha do rinoceronte na sua Histoire Naturelle, publicada nos anos 1760, e a partir dali o animal dos livros perdeu a armadura.

Clara também produziu moda. A passagem por Paris em 1749 rendeu penteado à la rhinocéros, medalha comemorativa e panfleto vendido na rua, num nível de comoção urbana que hoje se reservaria a turnê de estádio. A fera de Plínio virou celebridade com bilheteria.

O rinoceronte afia o chifre nas pedras e ataca o elefante pelo ventre, a parte mais macia.

Plínio, o Velho, História Natural, livro VIII, ano 77

Clara morava na estrada e comia laranja, pão e cerveja oferecidos pelo público. O chifre dela se desgastou nos anos de viagem e caiu, o que rendeu ao capitão a acusação de exibir um animal incompleto, e rendeu à ciência a primeira prova de que aquele chifre é queratina que cresce e se gasta.

A turnê terminou em Londres, em abril de 1758, com o animal já velho para o padrão da espécie em cativeiro daquele tempo. O capitão voltou para a Holanda com um patrimônio construído a partir de ingressos vendidos na porta de tendas armadas em praça pública.

O que sobra da história é um método de leitura de imagem antiga. Antes de aceitar o que uma figura mostra, vale perguntar se quem a fez esteve diante do assunto, e quantas mãos existem entre o desenho que circula e o olho que viu o animal.

A folha de 1515 está catalogada na National Gallery of Art, em Washington, com a gorjeira de placas no pescoço, as escamas nas pernas, o chifre torcido sobre a cernelha e a data errada de 1513 impressa no alto.

“Quantas mãos existem entre você e o fato que você jura ter visto?”

 
 
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Depois de ver o duelo encenado com o elefante em Lisboa, o rei Manuel I mandou o rinoceronte de presente para quem, viagem que terminou em naufrágio na costa da Ligúria?

AO sultão Muzafar II de Guzerate
BO papa Leão X
CO imperador do Sacro Império
DAlbrecht Dürer, em Nuremberg

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