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ED 005

O Retrato que Ficou Sete Anos na Parede

Em 5 de março de 1960, Alberto Korda fez dois quadros de Che Guevara num ato em Havana e o jornal que pagava o filme não quis nenhum deles

Uma câmera telemétrica cromada dos anos 1950 com lente longa, apoiada numa mesa de madeira ao lado de um rolo de filme de 35 milímetros desenrolado, diante de uma parede caiada de estúdio.

A câmera e o rolo que esperaram sete anos

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O jornal cubano que pagava o filme, a revelação e o salário do fotógrafo fechou a edição daquela semana com o comandante no palanque e com os dois filósofos franceses que tinham viajado de Paris e assistiam ao ato de perto, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

Um dos quadros feitos naquele mesmo palanque não entrou em nenhuma página. O enquadramento pareceu sem serventia para a matéria do dia, o negativo voltou para a caixa e a ampliação foi parar na parede do estúdio, pregada com percevejo entre retratos de moda que o autor fazia desde antes de 1959.

Ficou ali sete anos. Nesse período ele entregou cópias de graça a quem passava pelo estúdio e pedia uma, sem contrato, sem recibo e sem cobrar um centavo por nenhuma delas.

Hoje o mesmo quadro é o retrato mais reproduzido do século vinte. Está em camiseta de feira, capa de caderno, boné, lambe-lambe de muro, tatuagem e capa de disco em todos os continentes. O Maryland Institute College of Art o classificou como a fotografia mais famosa do mundo.

Entre a parede do estúdio e a camiseta houve um intervalo curto e nenhuma assinatura em nenhum documento. Um editor italiano saiu de Havana em 1967 com duas cópias de papel na bagagem, e a imprensa gráfica europeia fez o resto em questão de meses.

A pergunta que este caso responde não é como uma fotografia vira símbolo. É quem fica com a imagem quando a lei do país onde ela nasceu não trata a fotografia como propriedade de ninguém, e quando o único documento que existe é a memória de quem entregou a cópia.

Comece pelo dia do disparo, um ato convocado em vinte e quatro horas depois de uma explosão no porto, vinte segundos de tribuna e um rolo de preto e branco revelado na mesma noite.

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I  A Foto Histórica do Dia

Vinte segundos de tribuna e dois quadros

Um porto que explodiu na véspera, um comício convocado às pressas e um fotógrafo de jornal com uma câmera pequena pendurada no pescoço. Aqui está a ficha do disparo, da lente montada ao corte que a imagem sofreu antes de virar cópia.

Alberto Korda, jornal Revolución, Havana, 5 de março de 1960, ato em memória das vítimas da explosão do cargueiro La Coubre. A câmera era uma Leica M2 com lente de 90 milímetros, carregada com filme Kodak Plus-X preto e branco.

A explosão tinha sido no dia anterior. O cargueiro francês La Coubre descarregava setenta e seis toneladas de munição belga no porto de Havana quando detonou, deixando cerca de cem vítimas e mais de duzentos feridos. O governo cubano acusou sabotagem, sem prova.

O ato do dia seguinte aconteceu na esquina da avenida 23 com a rua 12, no Vedado, a poucos quarteirões do cemitério. Fidel Castro discursou por horas diante de uma multidão e usou ali, pela primeira vez em público, a frase que viraria lema oficial da ilha.

Na tribuna estavam ministros, comandantes e os dois convidados franceses, que acompanhavam a revolução de perto naquele verão. Korda cobria o palanque para o jornal, trocando de posição conforme quem falava.

Che Guevara não discursou. Estava na segunda fila, atrás dos oradores, e chegou à grade da tribuna por alguns segundos, olhando para além da multidão enquanto o discurso seguia.

Korda girou o corpo, enquadrou com a lente longa e disparou duas vezes, um quadro na vertical e outro na horizontal. Em seguida Che recuou para a sombra da fila de trás e não voltou ao enquadramento.

Os dois únicos quadros existentes do retrato mais reproduzido do século foram feitos em menos de meio minuto, e o jornal que pagava o fotógrafo não usou nenhum dos dois.

O que está no negativo também não é o que o mundo conhece. À direita do rosto aparece o perfil de um homem, o jornalista argentino Jorge Masetti. À esquerda, ramos de palmeira invadem o quadro.

Korda cortou os dois lados na ampliação e transformou a cena de tribuna num retrato isolado, sem cenário, sem palanque e sem ninguém em volta. O título que ele deu à imagem foi Guerrillero Heroico.

O rolo foi revelado naquela noite. O negativo entrou na caixa do estúdio com os outros da cobertura, e a ampliação subiu para a parede, ao lado dos trabalhos de moda feitos antes da revolução.

Nos anos seguintes Korda seguiu como fotógrafo de confiança do governo. O retrato continuou pregado na parede, e cada visitante que pedia saía com uma cópia debaixo do braço.

O primeiro uso impresso da imagem fora de Cuba levou sete anos para acontecer, e não partiu de nenhuma redação.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Duas cópias, um pôster e nenhum contrato

Em 1967 um editor italiano saiu de Havana com duas cópias no bolso. Em 1968 o pôster tirado delas vendia por volta de um milhão de exemplares na Europa. O autor da fotografia não assinou contrato, não recebeu royalty e não reclamou de nada.

O editor era Giangiacomo Feltrinelli, dono de uma das casas editoriais mais influentes de Milão. Ele estava em Havana atrás dos direitos do diário boliviano de Che, e autoridades cubanas o encaminharam ao estúdio do fotógrafo.

Korda entregou duas cópias de graça. Não cobrou, não pediu crédito e não guardou registro da entrega. Tratava a imagem como material de propaganda da revolução, e material de propaganda, no entendimento dele, circulava.

Em 9 de outubro de 1967, Che foi executado em La Higuera, na Bolívia, um dia depois de ser capturado. A notícia correu o mundo em vinte e quatro horas e transformou um comandante conhecido em figura de cartaz.

No dia 18, uma ampliação gigante daquele quadro de 1960 cobria a fachada do Ministério do Interior, na Plaza de la Revolución, diante de centenas de milhares de pessoas no ato de despedida. A imagem virou a face oficial do luto cubano.

Feltrinelli imprimiu o pôster em Milão em seguida. Vendeu perto de um milhão de exemplares em poucos meses, e a tiragem circulou com uma linha de copyright que não trazia o nome do fotógrafo.

No ano seguinte o irlandês Jim Fitzpatrick reduziu a fotografia a duas cores, preto sobre vermelho, e distribuiu o desenho sem registrar direito nenhum, de propósito, para que qualquer gráfica pudesse copiar.

A explicação para uma circulação dessa velocidade não está na fotografia, está no regime jurídico em volta dela. Korda era assalariado de um jornal do Estado, a doutrina local tratava a obra como parte do esforço coletivo, e ninguém cobrava por reprodução.

Fora da ilha não havia sequer a quem recorrer. Cuba só aderiu à Convenção de Berna em 20 de fevereiro de 1997, trinta e sete anos depois do disparo.

A versão que se repete diz que a fotografia transformou Che em símbolo mundial. O calendário inverte a frase. Entre março de 1960 e outubro de 1967 a imagem já existia, já tinha sido ampliada e distribuída em cópias, e não moveu nada.

O que mudou em outubro de 1967 foi o desfecho na Bolívia. A fotografia entrou depois, como formato pronto de cartaz, no momento em que milhões de pessoas procuravam um rosto para imprimir.

O mérito verificável dela é gráfico. Alto contraste, fundo cortado e um desenho que sobrevive a qualquer redução de tamanho, do selo de lapela ao muro de seis metros.

O resto foi economia. Um retrato sem dono declarado custa zero para reproduzir, e o que custa zero vai a todo lugar. Em 2006 o Victoria and Albert Museum dedicou uma exposição inteira à trajetória dessa única imagem.

O preço apareceu quarenta anos depois do disparo, numa corte de Londres, por causa de um anúncio de bebida.

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III  Depois da Foto

Cinquenta mil dólares e um vidro de vodca

A entrada de Cuba na Convenção de Berna, em fevereiro de 1997, mudou a posição do fotógrafo sem mudar uma linha da lei cubana. Uma obra de 1960 passou a ser oponível nos países signatários, e o autor deixou de estar desarmado fora da ilha.

O teste chegou três anos depois. Uma campanha britânica de vodca apimentada saiu com o retrato adaptado: a estrela da boina trocada por uma pimenta vermelha. A criação era da agência Lowe Lintas, e a imagem tinha sido licenciada pelo banco de fotos Rex Features.

Korda tinha setenta e um anos e quatro décadas de reproduções não autorizadas nas costas, sem nunca ter processado ninguém. Contra o anúncio de vodca, entrou com ação na Alta Corte de Londres.

O argumento não era sobre dinheiro nem sobre exclusividade, era sobre finalidade de uso, e ele explicou a diferença numa frase pública durante o processo.

Como partidário dos ideais pelos quais Che Guevara deu a vida, não me oponho à reprodução desta fotografia por quem queira propagar a memória dele e a causa da justiça social no mundo, mas me oponho à exploração da imagem de Che para promover produtos como o álcool.

Alberto Korda, declaração no acordo do caso Smirnoff, Londres, 2000

O caso terminou em setembro de 2000 sem chegar a julgamento. As duas empresas aceitaram um acordo de cinquenta mil dólares, reconheceram a autoria da fotografia e retiraram a peça de circulação.

Korda destinou o valor ao sistema de saúde cubano, para compra de remédio de criança, e disse que Che teria feito o mesmo. Ele apresentou o resultado como a primeira vez que um cubano fez valer direito autoral próprio numa corte estrangeira.

Oito meses depois, em 25 de maio de 2001, Korda partiu em Paris, aos setenta e dois anos, durante uma exposição do trabalho dele. Os direitos passaram à filha, Diana Díaz, que administra a imagem de Havana.

Em 2011 Jim Fitzpatrick anunciou que registraria o próprio desenho para transferir os direitos à família de Che e a um centro de estudos em Havana, com a intenção declarada de conter o uso comercial.

Em 2012 a Mercedes-Benz exibiu o retrato com a estrela da marca no lugar da estrela da boina numa feira em Las Vegas, e pediu desculpas públicas depois da reação.

O placar do lado jurídico é modesto. As ações ganharam casos isolados e não alteraram o volume: a imagem segue impressa em barraca de rua, capa de caderno, parede e pele, quase sempre sem licença e sem crédito.

O negativo original nunca saiu do arquivo da família em Havana, e a ampliação que ficou sete anos na parede do estúdio segue como matriz de tudo que veio depois.

Um quadro recusado pelo jornal do dia virou o retrato mais reproduzido do século, e o autor só conseguiu dizer não a um único uso dele quarenta anos depois de apertar o botão.

"Uma imagem que o mundo inteiro copiou ainda pertence a quem a fez, ou já pertence a quem a espalhou?"

 
 
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