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Em 1967 um editor italiano saiu de Havana com duas cópias no bolso. Em 1968 o pôster tirado delas vendia por volta de um milhão de exemplares na Europa. O autor da fotografia não assinou contrato, não recebeu royalty e não reclamou de nada.
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O editor era Giangiacomo Feltrinelli, dono de uma das casas editoriais mais influentes de Milão. Ele estava em Havana atrás dos direitos do diário boliviano de Che, e autoridades cubanas o encaminharam ao estúdio do fotógrafo.
Korda entregou duas cópias de graça. Não cobrou, não pediu crédito e não guardou registro da entrega. Tratava a imagem como material de propaganda da revolução, e material de propaganda, no entendimento dele, circulava.
Em 9 de outubro de 1967, Che foi executado em La Higuera, na Bolívia, um dia depois de ser capturado. A notícia correu o mundo em vinte e quatro horas e transformou um comandante conhecido em figura de cartaz.
No dia 18, uma ampliação gigante daquele quadro de 1960 cobria a fachada do Ministério do Interior, na Plaza de la Revolución, diante de centenas de milhares de pessoas no ato de despedida. A imagem virou a face oficial do luto cubano.
Feltrinelli imprimiu o pôster em Milão em seguida. Vendeu perto de um milhão de exemplares em poucos meses, e a tiragem circulou com uma linha de copyright que não trazia o nome do fotógrafo.
No ano seguinte o irlandês Jim Fitzpatrick reduziu a fotografia a duas cores, preto sobre vermelho, e distribuiu o desenho sem registrar direito nenhum, de propósito, para que qualquer gráfica pudesse copiar.
A explicação para uma circulação dessa velocidade não está na fotografia, está no regime jurídico em volta dela. Korda era assalariado de um jornal do Estado, a doutrina local tratava a obra como parte do esforço coletivo, e ninguém cobrava por reprodução.
Fora da ilha não havia sequer a quem recorrer. Cuba só aderiu à Convenção de Berna em 20 de fevereiro de 1997, trinta e sete anos depois do disparo.
A versão que se repete diz que a fotografia transformou Che em símbolo mundial. O calendário inverte a frase. Entre março de 1960 e outubro de 1967 a imagem já existia, já tinha sido ampliada e distribuída em cópias, e não moveu nada.
O que mudou em outubro de 1967 foi o desfecho na Bolívia. A fotografia entrou depois, como formato pronto de cartaz, no momento em que milhões de pessoas procuravam um rosto para imprimir.
O mérito verificável dela é gráfico. Alto contraste, fundo cortado e um desenho que sobrevive a qualquer redução de tamanho, do selo de lapela ao muro de seis metros.
O resto foi economia. Um retrato sem dono declarado custa zero para reproduzir, e o que custa zero vai a todo lugar. Em 2006 o Victoria and Albert Museum dedicou uma exposição inteira à trajetória dessa única imagem.
O preço apareceu quarenta anos depois do disparo, numa corte de Londres, por causa de um anúncio de bebida.
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