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O Retrato 18 de Oscar Wilde Que Foi Parar na Suprema Corte

Em janeiro de 1882, Napoleon Sarony arrumou cada dobra do retrato em Nova York, e uma gráfica vendeu 85 mil cópias dele sem pedir licença

Oscar Wilde sentado num sofá coberto de pele e brocado, com a mão no rosto e um livro na outra mão, no retrato nº 18 de Napoleon Sarony, Nova York, 1882.

Oscar Wilde, No. 18, Napoleon Sarony, 1882

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No número 37 da Union Square, em Nova York, funcionava desde 1876 um dos estúdios de retrato mais procurados da cidade. A sala de pose guardava peles de animal, almofadas de brocado, tapetes turcos e um fundo pintado com folhagem, tudo pronto para virar cenário.

O dono, Napoleon Sarony, tinha 60 anos em 1882. Nascido em Quebec, no Canadá, começara a vida desenhando para gráficas de litografia, e fazia fortuna com rosto famoso: estrelas do teatro, generais, escritores de passagem pela cidade.

Em 2 de janeiro de 1882, o vapor Arizona chegou a Nova York com um passageiro irlandês de 27 anos. Os repórteres que o esperavam no cais anotaram o cabelo comprido e o gorro de pele de foca, pequeno demais para a cabeça. Oscar Wilde tinha publicado um livro de poemas no ano anterior e ainda não tinha escrito nenhuma das obras pelas quais seria lembrado. No mesmo mês, a revista Harper's Weekly pôs na capa uma caricatura dele como um macaco adorando um girassol.

Quem pagava a viagem era o empresário inglês Richard D'Oyly Carte. Ele produzia Patience, opereta de Gilbert e Sullivan que ria dos estetas de Londres, e queria Wilde em palestras pelo país para vender a montagem americana. A turnê estava prevista para 4 meses.

Poucos dias depois do desembarque, Wilde subiu ao estúdio da Union Square. Sarony teria olhado para ele e dito: "Um tema pitoresco, de fato!". Dali saíram dezenas de poses, com troca de roupa, de sofá e de livro na mão. Hoje se conhecem 29 retratos de Wilde feitos por Sarony naquele ano.

Uma delas recebeu o número 18, escrito no canto da cópia. Dois anos depois, ela chegaria à Suprema Corte dos Estados Unidos com uma pergunta que o tribunal mais alto do país ainda não tinha respondido: uma fotografia tem autor? É dessa imagem que a edição parte.

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I  A Foto Histórica do Dia

Oscar Wilde no sofá de peles

O retrato catalogado como Oscar Wilde, No. 18 é uma cópia em albumina colada num cartão de estúdio. Na base do cartão aparecem a assinatura de Sarony à esquerda, o nome OSCAR WILDE no centro, a linha Copyright 1882, by N. Sarony logo abaixo e, à direita, NEW YORK.

Sarony morreu em 1896, e o retrato está em domínio público há mais de um século. A cópia digitalizada circula livre no Wikimedia Commons, com crédito ao fotógrafo, e é a que abre esta edição.

O que a imagem mostra

Wilde está sentado de frente para a câmera, num sofá coberto por uma pele de animal e por tecidos de brocado. A mão esquerda apoia o rosto. A direita segura um livro fechado, com um anel no dedo.

Ele veste paletó de veludo com debrum, colete, gravata de seda, calções até o joelho, meias de seda e sapatos de verniz com laço. O cabelo, repartido ao meio, desce até a gola. Atrás dele, um fundo pintado imita folhagem, e no canto inferior direito da foto aparece o número 18.

Era o figurino do movimento estético, que pregava a beleza aplicada à vida diária, o mesmo que Patience satirizava nos palcos. Wilde vestia a roupa que a opereta ridicularizava e cobrava ingresso para explicar por que a usava.

Quem montou a cena

Sarony chegou a Nova York por volta de 1833, ainda menino. Trabalhou como ilustrador para a Currier and Ives e abriu em 1843 a própria firma de litografia, a Sarony & Major. Aprendeu o retrato fotográfico na Inglaterra, no estúdio do irmão Oliver, e voltou em 1866.

O negócio dele vivia de celebridade. Os fotógrafos pagavam aos famosos para posar e ficavam com o direito de vender as cópias. Sarony teria pago 1.500 dólares à atriz Sarah Bernhardt por uma sessão.

No estúdio, ele cuidava da encenação: a roupa, os panos, o ângulo do corpo, a expressão do modelo. A luz e a parte mecânica da câmera ficavam com o operador Benjamin J. Richardson, o único que Sarony teve.

O rosto era de Wilde, e o sofá, a pose e cada dobra do pano eram decisões de Sarony.

O processo registraria depois que o retrato foi feito "sob um acordo com Oscar Wilde", e que Sarony era o autor e o dono da imagem e do negativo.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

As 85 mil cópias da gráfica

Em 1882, os retratos de Wilde viraram mercadoria nas vitrines americanas. Perto do fim da turnê, um jornal brincou que as fotos dele estavam sendo trocadas nas lojas pelas da atriz Lillie Langtry. O próprio Wilde sugeriu ao empresário uma litografia do rosto dele para ajudar a bilheteria:

A fotografia em que estou com a cabeça olhando por cima do ombro seria a melhor, só a cabeça e a gola de pele.

Oscar Wilde, carta a Richard D'Oyly Carte, março de 1882

A Burrow-Giles Lithographic Company, gráfica de Nova York, copiou o retrato número 18 em litografia e o imprimiu em cartões de propaganda, os que as lojas davam aos clientes no balcão. Um lote de 30 mil cartões saiu com o nome da Ehrich Brothers, loja de departamentos de Nova York, e outro de 100 mil estava para ser entregue à Mandel Brothers, de Chicago.

Sarony processou a gráfica no tribunal federal de Nova York. A lei americana já incluía a fotografia entre as obras protegidas desde 1865, e o aviso Copyright 1882, by N. Sarony estava impresso em cada cópia.

A defesa da gráfica

Os advogados da Burrow-Giles atacaram a própria lei. A Constituição dos Estados Unidos autoriza o Congresso a proteger os "escritos" dos "autores", e uma foto, diziam eles, era só a reprodução mecânica de alguém sentado diante de uma lente, sem ideia nenhuma por trás.

Se a tese vencesse, a lei caía, e qualquer gráfica do país poderia copiar qualquer fotografia sem pedir licença a ninguém.

O juiz de primeira instância deu ganho a Sarony: 600 dólares pelas chapas e pelas 85 mil cópias vendidas, mais 10 dólares pelas cópias achadas com a gráfica, 610 no total. O tribunal de circuito manteve a decisão, e a Burrow-Giles levou o caso a Washington.

A decisão de 17 de março de 1884

A Suprema Corte decidiu por unanimidade a favor de Sarony. O voto, do juiz Samuel Freeman Miller, leu "escritos" como toda forma pela qual as ideias na mente do autor ganham expressão visível, e lembrou que mapas e gravuras tinham proteção desde as leis de 1790 e 1802.

O argumento vencedor estava na sentença de Nova York, que o voto citou palavra por palavra:

Posando o dito Oscar Wilde diante da câmera, escolhendo e arrumando o figurino, os panos e outros acessórios, dispondo a luz e a sombra, sugerindo e provocando a expressão desejada, ele produziu a imagem.

Conclusão do tribunal de Nova York, citada pela Suprema Corte, 1884

O tribunal admitiu que a foto comum talvez fosse só mecânica, e escreveu sobre a questão: "nada decidimos". O retrato 18 passou porque o processo provou que cada escolha do quadro tinha dono.

A fotografia ganhou autor na lei americana por causa de um retrato que a gráfica achou fácil de copiar.

 

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III  Depois da Foto

O nome atrás da foto

O caso Burrow-Giles Lithographic Co. contra Sarony virou ponto de partida do direito autoral da fotografia nos Estados Unidos e segue nos cursos de propriedade intelectual. Em 2020, o escritor David Newhoff dedicou um livro inteiro a ele, Who Invented Oscar Wilde? (Quem inventou Oscar Wilde?).

O pesquisador John Cooper, que catalogou os retratos de 1882, defende a mesma tese: o Wilde jovem que o público guarda na memória, de cabelo comprido e roupa de veludo, deve muito ao que Sarony montou naquele janeiro.

Os dois depois do estúdio

A turnê prevista para 4 meses durou quase um ano, puxada pela bilheteria. Wilde voltou para a Europa, publicou O Retrato de Dorian Gray em 1890 e escreveu as comédias que lotaram os teatros de Londres na década.

Em 1895, ele processou o marquês de Queensberry por difamação, perdeu e acabou condenado a 2 anos de trabalhos forçados. Morreu em Paris em 30 de novembro de 1900, aos 46 anos.

Sarony fotografou a própria Suprema Corte em 1890, no centenário da Justiça federal americana, e morreu em 9 de novembro de 1896. Está enterrado no cemitério de Green-Wood, no Brooklyn.

O homem da luz

A conclusão do tribunal atribuiu a Sarony até a disposição da luz e da sombra, "feita inteiramente" por ele. Benjamin J. Richardson, o operador que regulava a luz e a câmera, não aparece na conclusão do tribunal nem no voto da Suprema Corte.

A decisão que deu dono à fotografia deixou de fora o homem que regulava a luz.

Na base do cartão, abaixo do nome OSCAR WILDE, segue impressa a linha que a Suprema Corte julgou suficiente em 1884: Copyright 1882, by N. Sarony. A gráfica copiou o rosto de Wilde 85 mil vezes, e o nome que ficou no cartão foi o de quem arrumou a pose.

“Se o retrato 18 fosse julgado hoje, quem você apontaria como autor: Sarony, que arrumou a pose, ou Richardson, que regulou a luz?”

 
 
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Em que data a Suprema Corte dos Estados Unidos julgou o caso Burrow-Giles contra Sarony?

A2 de janeiro de 1882, dia em que o vapor Arizona chegou a Nova York
BEm 1865, quando a lei americana passou a proteger a fotografia
C17 de março de 1884, com decisão unânime a favor de Sarony
DEm 1896, ano em que Sarony morreu

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