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O Quinto Quadro Feito da Escada na Abbey Road

Iain Macmillan fez seis fotos dos Beatles na faixa de pedestres, com um policial segurando o trânsito, e a capa saiu da quinta

Os quatro Beatles atravessam em fila a faixa de pedestres da Abbey Road, em Londres, com um Fusca branco estacionado

Abbey Road, Iain Macmillan, 1969

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A 51 graus e 32 minutos de latitude norte, no bairro de St John's Wood, no noroeste de Londres, a Abbey Road passa reta diante do número 3, um sobrado branco com portão de ferro. De cima de uma escada plantada no meio do asfalto, na manhã de 8 de agosto de 1969, via-se uma faixa de pedestres listrada, um Fusca branco estacionado e quatro homens esperando a vez de atravessar.

O número 3 abrigava os EMI Studios, onde os Beatles gravavam desde 1962. Naquela sexta-feira, a banda trabalhava no último disco que gravaria junta, e o álbum ainda não tinha capa nem nome definitivo.

O título provisório era Everest, a marca dos cigarros do engenheiro de som Geoff Emerick. Chegou a circular a ideia de levar o grupo ao Himalaia para posar diante da montanha. Ninguém quis viajar. A solução ficou na porta do estúdio: dar ao disco o nome da rua e fotografar a banda cruzando a faixa.

Paul McCartney rabiscou a cena num papel, com quatro bonecos de palito em fila sobre as listras. O fotógrafo escolhido foi Iain Macmillan, escocês de 30 anos, amigo de John Lennon e de Yoko Ono, para quem já tinha feito trabalhos.

Por volta das 11h30, um policial interrompeu o trânsito. Macmillan subiu na escada com uma Hasselblad, câmera sueca de filme quadrado, e os quatro atravessaram a faixa de ida e de volta enquanto ele disparava.

A sessão durou cerca de dez minutos e rendeu seis quadros. Paul McCartney chegou de sandálias, tirou os calçados no meio da sessão e passou descalço em parte das travessias.

Dos seis quadros, um só entrou no disco. A seção I descreve o que está nele, quem é cada figura na rua e por que a capa saiu sem o nome da banda.

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I  A Foto Histórica do Dia

Quatro homens e um Fusca na faixa

Na capa feita por Iain Macmillan, os Beatles cruzam a Abbey Road da esquerda para a direita, em fila. John Lennon vai na frente, de terno branco; atrás dele, Ringo Starr de terno preto, Paul McCartney de terno cinza e pés descalços, e George Harrison de jeans dos pés à cabeça.

A foto é quadrada, como o filme da Hasselblad. A rua aparece em perspectiva, com árvores nas duas calçadas, carros estacionados ao fundo e as listras brancas da faixa no primeiro plano.

Por que o quinto

Macmillan entregou os seis negativos, e Paul McCartney escolheu entre eles. O critério foi o passo: no quinto quadro, os quatro caminham com as pernas abertas no mesmo ângulo, como uma tesoura repetida quatro vezes.

Nos outros, alguém está fora do ritmo, olhando para o lado ou parado entre duas listras. Em parte deles, Paul ainda aparece de sandálias.

O Fusca de placa LMW 281F

À esquerda da faixa, um Volkswagen Fusca branco ficou estacionado na calçada. Pertencia a um morador dos apartamentos da rua. A polícia tentou tirar o carro do quadro, mas o dono não apareceu a tempo, e o Fusca entrou na capa.

Depois do lançamento, a placa LMW 281F virou alvo de fãs. Foi roubada várias vezes, e o dono precisou trocá-la mais de uma vez.

O homem na calçada

À direita, quase no canto, um homem de terno claro observa a cena ao lado de uma viatura da polícia. Durante décadas ninguém soube quem era. Em 2004, o americano Paul Cole, turista em Londres naquele verão, se reconheceu na foto e contou que esperava a esposa sair de um museu quando parou para olhar os quatro rapazes de cabelo comprido.

Uma capa sem nome

A capa não traz o nome da banda nem o título do álbum. A gravadora EMI resistiu, porque considerava impossível vender um disco sem identificação na frente. Os Beatles mantiveram a escolha: a foto bastava para qualquer comprador reconhecer o grupo.

Até ali, todo álbum britânico da banda trazia o nome Beatles impresso na frente. Abbey Road foi o primeiro a sair só com a imagem, uma aposta na fama do grupo que a gravadora aceitou a contragosto.

O quinto quadro foi o único com os quatro no mesmo passo.

A contracapa usou outra foto de Macmillan, a placa da rua num muro de tijolos, com uma mulher de vestido azul passando desfocada diante dela. O álbum chegou às lojas britânicas em 26 de setembro de 1969.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A rua virou endereço de peregrinação

Os EMI Studios mudaram de nome por causa da foto. Em 1970, a empresa passou a chamar o prédio do número 3 de Abbey Road Studios, o nome que os fãs já usavam e que o disco tinha espalhado pelo mundo.

A faixa de pedestres também mudou de função. Turistas começaram a chegar de ônibus para refazer a travessia em fila, parando carros e motoristas de táxi a qualquer hora do dia.

Os moradores da rua passaram a conviver com o movimento. A placa com o nome Abbey Road, presa no muro da esquina, foi arrancada tantas vezes que acabou fixada no alto da parede, e o muro diante do estúdio vive coberto de assinaturas de visitantes, pintado de branco de tempos em tempos para receber as próximas.

O boato de Paul morto

Em outubro de 1969, um boato que circulava em rádios universitárias dos Estados Unidos ganhou força com a capa. Dizia que Paul McCartney tinha morrido em 1966 e sido trocado por um sósia. Os fãs leram a foto como um cortejo fúnebre, em quatro pistas:

1. John Lennon, de branco, seria o pregador.

2. Ringo Starr, de preto, seria o agente funerário.

3. George Harrison, de jeans, seria o coveiro.

4. Paul McCartney, descalço, seria o corpo, porque na Inglaterra se enterravam mortos sem sapatos.

A placa do Fusca entrou na lista. Os fãs liam 28IF como “28 if” (28 se, em inglês): Paul teria 28 anos se estivesse vivo. Ele tinha 27 na data da foto, e o boato perdeu força depois que a revista Life publicou uma entrevista com ele, em novembro de 1969.

A paródia do próprio Paul

Paul McCartney respondeu ao boato com humor 24 anos depois. A capa do disco ao vivo Paul Is Live (Paul está vivo), de 1993, refaz a foto na mesma faixa: ele atravessa sozinho, de sapatos, puxando um cachorro pela coleira, com um carro ao fundo de placa 51 IS, a idade que tinha naquele ano.

Outros artistas seguiram o exemplo. A capa virou uma das imagens mais copiadas da música pop, refeita por bandas, personagens de desenho animado e campanhas publicitárias, quase sempre com quatro figuras em fila sobre listras brancas.

Patrimônio tombado

Em dezembro de 2010, o governo britânico tombou a faixa de pedestres como Grade II (segunda categoria da lista de bens protegidos da Inglaterra), por recomendação da agência English Heritage. Foi a primeira faixa de pedestres protegida no país, e o motivo registrado foi o valor cultural ligado à capa.

Uma escada no meio da rua deu nome a um estúdio e transformou uma faixa em patrimônio.

O prédio do estúdio já tinha recebido a mesma proteção meses antes, em fevereiro de 2010, quando surgiu o risco de venda do imóvel pela EMI.

 

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III  Depois da Foto

O último disco gravado juntos

Abbey Road foi o último álbum que os Beatles gravaram juntos. Let It Be saiu depois, em maio de 1970, mas reunia gravações feitas no começo de 1969, antes das sessões da Abbey Road.

Em abril de 1970, Paul McCartney anunciou que deixava a banda, e o grupo se desfez. A travessia de agosto de 1969 ficou como a última sessão de fotos marcada com os quatro para um disco.

O destino do Fusca

O Fusca branco da capa foi a leilão na casa Sotheby's, em Londres, em 1986, e foi comprado por um colecionador americano. Desde 2001, o carro está exposto no museu Autostadt, da Volkswagen, em Wolfsburg, na Alemanha.

Os outros cinco quadros

Os cinco quadros recusados nunca foram destruídos. Ficaram no arquivo de Macmillan e, ao longo dos anos, apareceram em exposições, livros sobre a banda e leilões, mostrando os quatro em passos desencontrados e Paul ora calçado, ora descalço.

Lado a lado, os seis quadros mostram a sessão em sequência: a fila se forma, se desfaz e volta a se formar, com o tráfego parado nas duas pontas da faixa e o policial fora do enquadramento.

O fotógrafo

Iain Macmillan seguiu trabalhando com John Lennon e Yoko Ono depois do fim da banda. Nascido em Dundee, na Escócia, em 1938, viveu até 2006. O nome dele ficou preso a uma única manhã de trabalho.

Macmillan conheceu Lennon por meio de Yoko Ono, cujo trabalho de artista plástica ele já fotografava em Londres antes de 1969. A amizade com o casal explica por que um fotógrafo pouco conhecido ganhou a capa da banda mais famosa do mundo, sem concorrência de nomes da moda.

A licença da imagem

A cópia da capa hospedada no Wikimedia Commons está catalogada em domínio público nos Estados Unidos, porque a edição americana do disco saiu sem aviso de direitos autorais impresso. O arquivo recebeu destaque entre as imagens selecionadas do acervo.

Dez minutos de trabalho pararam o trânsito da Abbey Road pelos 57 anos seguintes.

Na faixa diante do número 3 da Abbey Road, a 51 graus e 32 minutos de latitude norte, o estúdio mantém hoje uma câmera fixa que transmite a travessia ao vivo pela internet, e os motoristas de Londres continuam parando para turistas que tentam repetir o quinto quadro de Iain Macmillan.

 
 
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