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O Protótipo da Leica Diante da Enchente de Wetzlar

Oskar Barnack dobrou o quadro do filme de cinema e criou o formato de 24 por 36 milímetros adotado pela indústria

Ur-Leica, protótipo de câmera de bolso montado por Oskar Barnack em Wetzlar para filme de 35 milímetros

Ur-Leica, protótipo de Oskar Barnack, cerca de 1914

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A 50 graus de latitude norte, o rio Lahn corta Wetzlar, cidade do estado alemão de Hesse a cerca de 60 quilômetros de Frankfurt. Em 1920, quem descia até a ponte velha via a água marrom cobrir as margens, entrar nas ruas baixas e subir pelas paredes das casas.

A enchente daquele ano parou o comércio perto do rio. Moradores atravessavam de barco trechos que dias antes eram calçada, e a ponte de pedra, com arcos da Idade Média, ficou com a água a poucos palmos do tabuleiro.

Entre os curiosos estava um técnico da fábrica de microscópios da cidade, a Ernst Leitz Optische Werke. Tinha pouco mais de 40 anos, saúde frágil e no bolso do casaco um aparelho de metal do tamanho de um maço de cigarros.

Ele apontou a caixinha para a água, girou um botão no topo e disparou. Depois girou de novo e fez outra imagem, sem trocar chapa, sem tripé e sem pano preto sobre a cabeça.

O botão no topo fazia duas tarefas de uma vez: puxava o filme até o quadro seguinte e armava o mecanismo do disparo. O técnico podia fotografar a mesma cena várias vezes em poucos segundos, ainda parado na beira da água.

Naquele tempo, fotografar uma enchente exigia carregar uma câmera de fole, uma caixa de chapas de vidro e um suporte de madeira. O fotógrafo de rua levava quilos nas costas e fazia poucas imagens por saída.

O aparelho do técnico pesava uma fração daquilo e guardava dezenas de imagens num rolo de filme. O negativo era minúsculo, do tamanho de um selo postal, e a ampliação em papel só ficava boa porque a lente era precisa.

As fotos da enchente sobreviveram no arquivo da fábrica. Mostram a rua inundada, as fachadas refletidas na água e gente parada olhando, numa nitidez rara para um negativo tão pequeno.

A seção I conta quem era o técnico, como ele chegou ao tamanho daquele negativo e por que a fábrica levou anos para acreditar no aparelho.

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I  A Foto Histórica do Dia

A câmera feita para caber no bolso

O técnico era Oskar Barnack, nascido em 1879 em Lynow, no estado de Brandemburgo, e contratado pela Leitz em 1911 para chefiar o setor de desenvolvimento. Vinha da fábrica de Carl Zeiss, em Jena, onde trabalhara como mecânico de precisão.

A imagem do Wikimedia Commons que ilustra esta edição mostra o aparelho dele: a Ur-Leica (Leica original, em alemão), uma caixa retangular de metal escuro, com a lente saliente na frente e dois botões de rosca no topo.

Um asmático nas trilhas

Barnack sofria de asma e gostava de caminhar pelas colinas em volta de Wetzlar. A câmera de chapas da época, com tripé, pesava demais para ele levar morro acima, e ele desistia de fotografar na metade da trilha.

A ideia dele foi inverter a lógica: um negativo pequeno, uma câmera leve e a ampliação feita depois, no laboratório. Para isso, precisava de um filme fino, barato e já fabricado em grande quantidade.

O filme emprestado do cinema

O filme existia nos cinemas. A película de 35 milímetros de largura, com furos dos dois lados, rodava nas câmeras de filmagem desde o fim do século XIX, e a Leitz testava esse material em projetores e aparelhos de medição.

No cinema, cada quadro media 18 por 24 milímetros e corria na vertical. Barnack deitou o filme na horizontal e usou o espaço de dois quadros de cinema para uma única foto, chegando a 24 por 36 milímetros.

O negativo dobrado tinha a proporção de 2 para 3, próxima à do papel fotográfico comum, e área suficiente para ampliar sem que o grão (os cristais de prata visíveis na cópia) estragasse a imagem.

Por volta de 1913 e 1914, ele montou os primeiros protótipos. A lente era uma objetiva de 42 milímetros, e um único botão avançava o filme e armava o obturador (a cortina que abre e fecha a passagem da luz).

A guerra no meio

A Primeira Guerra Mundial começou em 1914 e a Leitz passou a produzir instrumentos ópticos para o exército alemão. O projeto da câmera ficou na gaveta, e Barnack seguiu usando o protótipo por conta própria.

Fotografou ruas de Wetzlar, viagens pela região e, em 1920, a enchente do Lahn. Essas imagens viraram a prova prática de que o negativo pequeno aguentava ampliação.

Ele mostrava as cópias ampliadas aos colegas da fábrica, que esperavam ver manchas e encontravam detalhes nítidos de janelas, telhados e reflexos na água. O argumento a favor da câmera passou a ser uma pilha de fotografias, sem precisar de desenho técnico.

O negativo do tamanho de um selo provou o valor da lente, e a lente provou o valor do negativo.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O quadro copiado por um século

A fábrica hesitou até 1924. A Alemanha saía da hiperinflação de 1923, o dinheiro tinha perdido o valor e a diretoria da Leitz temia lançar um produto novo num mercado sem compradores.

Ernst Leitz II, dono da empresa, ouviu os engenheiros contra e a favor numa reunião daquele ano. Segundo a história oficial da Leica, registrada pela própria fábrica, ele encerrou a discussão com uma frase curta:

“Eu decido: vamos arriscar.”

No original alemão, “Hiermit entscheide ich: Es wird riskiert”. A frase aparece nas publicações da Leica Camera sobre a origem da marca e é atribuída a Ernst Leitz II em 1924.

A estreia em Leipzig

A câmera chegou ao público na Feira de Primavera de Leipzig, em 1925, com o nome Leica, junção das sílabas de Leitz e Camera. Trazia uma objetiva de 50 milímetros desenhada pelo matemático Max Berek, também funcionário da fábrica.

Os fotógrafos de imprensa adotaram o aparelho primeiro. Com ele, um repórter fazia 36 imagens sem recarregar e trabalhava no meio da multidão sem chamar atenção.

Entre os primeiros a fazer carreira desse jeito estava o fotógrafo alemão Erich Salomon, que nos anos 1920 e 1930 entrava em conferências diplomáticas e tribunais com câmeras pequenas, a Leica entre elas, e registrava políticos sem pose.

O que o formato mudou

O quadro de 24 por 36 alterou o ofício em três pontos:

1. O fotógrafo passou a disparar em sequência, porque o rolo trazia dezenas de quadros e cada um custava pouco.

2. A câmera saiu do tripé e foi para a mão, o que levou a fotografia para dentro de manifestações, guerras e ruas.

3. O laboratório ganhou peso, já que toda cópia grande dependia de ampliação a partir do negativo pequeno.

A concorrência copiou o formato. A Zeiss Ikon lançou a Contax em 1932, e fabricantes japoneses como Canon e Nikon construíram suas primeiras câmeras de 35 milímetros sobre o mesmo quadro nas décadas seguintes.

O tamanho escolhido num banco de oficina em Wetzlar virou a medida padrão da fotografia mundial.

A medida sobreviveu ao próprio filme. O sensor das câmeras digitais chamadas de full frame (quadro inteiro) mede 36 por 24 milímetros, exatamente o negativo de Barnack.

 

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III  Depois da Foto

A série zero e o leilão de Viena

Antes do lançamento, a Leitz fabricou em 1923 uma pequena tiragem de teste, a Nullserie (série zero), para distribuir a fotógrafos e ouvir críticas. Cerca de duas dezenas de unidades saíram da oficina.

As câmeras da série zero diferiam da Leica de 1925 em detalhes de obturador e de visor. Algumas voltaram à fábrica, outras ficaram com os fotógrafos e passaram de mão em mão por décadas.

Cada unidade tem número de série gravado no corpo, e os colecionadores rastreiam o histórico de dono a dono. Por isso a origem documentada pesa no preço tanto quanto o estado de conservação.

O preço de uma peça da série zero

Em março de 2018, a casa Leitz Photographica Auction, em Viena, vendeu uma câmera da série zero de 1923 por 2,4 milhões de euros. Na época, foi o maior valor pago por uma câmera fotográfica num leilão.

O protótipo original de Barnack nunca foi a leilão. A Ur-Leica pertence à empresa e fica exposta em Wetzlar, num ambiente climatizado, como a peça mais valiosa do acervo.

O fim de Barnack

Oskar Barnack seguiu chefiando o desenvolvimento da Leitz e viu a Leica ganhar novas versões, com telêmetro (o medidor de distância acoplado ao foco) e objetivas trocáveis. Viveu até 1936, quando tinha 56 anos, em Bad Nauheim.

Em 1979, a Leica criou o Prêmio Oskar Barnack, dado todos os anos a ensaios fotográficos sobre a relação entre o ser humano e o ambiente. O prêmio segue ativo e recebe inscrições do mundo inteiro.

O nome do prêmio fez de Barnack, um mecânico pouco conhecido fora da fábrica enquanto vivia, uma referência citada a cada edição por fotógrafos que nunca usaram filme.

A volta para Wetzlar

A empresa mudou de nome e de dono ao longo do século XX. A divisão de câmeras virou Leica Camera AG e, durante anos, funcionou em Solms, cidade vizinha.

Em 2014, a Leica Camera inaugurou a nova sede no Leitz-Park, em Wetzlar, com fábrica, museu e loja no mesmo terreno. A produção voltou à cidade onde Barnack montou o primeiro protótipo.

A caixinha de metal que cabia no casaco de um asmático virou a câmera mais copiada da história.

As imagens da enchente de 1920 seguem no arquivo da Leica, em Wetzlar, a cerca de 3 quilômetros do Lahn. O rio voltou ao leito, a ponte velha segue de pé e o negativo de 24 por 36 milímetros continua guardando a água marrom subindo pelas paredes.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, qual era a medida de cada quadro nas câmeras de cinema antes de Oskar Barnack dobrar o espaço para criar o formato da Leica?

A35 por 24 milímetros
B24 por 36 milímetros
C18 por 24 milímetros
D50 por 75 milímetros

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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