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O Mergulhador de Boutan no Fundo de Banyuls

Uma caixa de cobre, um clarão de magnésio e exposições de meia hora levaram a câmera para baixo d'água no Mediterrâneo

O mecânico David, de escafandro, segura a placa Photographie sous-marine no fundo da baía de Banyuls-sur-Mer

Mergulhador de Banyuls, Louis Boutan, 1898

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A 42 graus e 29 minutos de latitude norte, a menos de 15 quilômetros da fronteira com a Espanha, a vila de Banyuls-sur-Mer desce em vinhedos de terraço até uma baía de água clara. Do cais, no verão de 1893, via-se o fundo de pedra e alga a poucos metros e um homem de capacete de cobre descendo pela escada de um barco.

O capacete fazia parte de um escafandro (a roupa de mergulho pesada, com ar bombeado da superfície por uma mangueira). Dentro dele estava Louis Boutan, zoólogo francês de 34 anos, ligado ao Laboratório Arago, a estação de biologia marinha que a Universidade de Paris mantinha na vila.

Boutan tinha aprendido a mergulhar para estudar moluscos no lugar onde viviam. Lá embaixo, esbarrou num problema de desenhista: a forma exata das algas e dos bichos se apagava da memória antes de ele voltar ao barco, e nenhum lápis funcionava debaixo d'água.

A saída foi levar a câmera junto. O irmão, Auguste Boutan, ajudava nas descidas, e um mecânico do laboratório chamado David construía as peças. A primeira câmera foi fechada numa caixa de cobre estanque (vedada contra a entrada de água), com uma janela de vidro na frente e alavancas atravessando a parede de metal.

A luz era o segundo obstáculo. Poucos metros abaixo da superfície, o Mediterrâneo já apaga boa parte do sol, e as chapas de vidro da época reagiam devagar. Boutan deixava a lente aberta por 10, 20, até 30 minutos, parado no fundo ao lado do tripé, esperando a imagem se formar.

Para os pontos escuros, montou um clarão artificial. Um barril cheio de ar sustentava uma redoma de vidro, e dentro dela uma lamparina a álcool queimava pó de magnésio soprado por um tubo. O metal ardia em luz branca, protegido da água pela redoma e alimentado pelo ar do barril.

A seção I mostra a chapa mais conhecida dessas descidas, feita anos depois com uma câmera nova, e explica o que o mergulhador da foto segura nas mãos.

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I  A Foto Histórica do Dia

A placa de cabeça para baixo

A resposta de ontem

O que passaram nos cabos para as pontas sumirem?

Tinta refletora ou papel de alumínio. Nos testes descritos por John Malik, de Los Alamos, o cabo pintado de preto absorvia o calor e deixava a ponta maior; o cabo coberto de alumínio refletia o primeiro clarão, não vaporizava, e a base da bola de fogo saía lisa na foto.

Na foto que o Wikimedia Commons atribui a Louis Boutan, datada de 1898, um mergulhador de escafandro está de pé no fundo da baía de Banyuls-sur-Mer. O capacete redondo reflete a pouca luz, a roupa escura se mistura às pedras e as duas mãos seguram uma placa clara.

O mergulhador é o mecânico David, o mesmo que construía as caixas de cobre do laboratório. A descrição do arquivo no Commons o identifica só pelo sobrenome, e o primeiro nome dele não aparece ali.

O escafandro de David é do mesmo tipo usado por Boutan: capacete de cobre parafusado à gola, botas com sola de chumbo e a mangueira de ar subindo até a bomba manual operada no barco.

As letras invertidas

Na placa estão pintadas duas palavras em francês, e elas aparecem de cabeça para baixo na imagem:

“Photographie sous-marine”

A tradução é fotografia submarina. O mergulhador anuncia, dentro da própria foto, o que a foto é. Por que a placa ficou invertida, a descrição do Commons não diz, e o texto desta edição não encontrou explicação registrada.

A câmera nova

A chapa de 1898 já não saiu da caixa pequena de 1893. Para a segunda fase, Boutan e David montaram uma câmera bem maior, para chapas de vidro de 18 por 24 centímetros, presa a uma armação de ferro que mantinha o conjunto firme no fundo.

Uma câmera desse tamanho pedia uma caixa estanque pesada, e cada descida virava uma operação de barco: a equipe baixava o equipamento por cabo, o mergulhador o posicionava e só então a exposição começava.

Mesmo com a câmera maior, a chapa de 1898 mostra os limites da época: as bordas escurecem, o fundo some numa névoa cinza a poucos metros do mergulhador e só o primeiro plano tem contorno firme.

Para encurtar a espera, Boutan trocou o magnésio por eletricidade. Em 1899, com o engenheiro Chaffour, levou ao fundo lâmpadas de arco elétrico (luz gerada por uma faísca contínua entre dois bastões de carvão), ligadas por fio a baterias no barco.

Sem luz, o fundo do mar não cabia numa chapa; Boutan levou a luz junto.

O livro de 1900

Boutan descreveu as câmeras, os clarões e as falhas no livro La photographie sous-marine et les progrès de la photographie (A fotografia submarina e os progressos da fotografia), publicado em Paris pela editora Schleicher Frères em 1900.

A cena de David com a placa aparece no capítulo IX, nas páginas 204 a 206, segundo a ficha do arquivo no Commons. O livro, hoje em domínio público, também está digitalizado no próprio Commons, em PDF.

O volume reúne ainda capítulos sobre o avanço das chapas e das lentes fora d'água, como o título promete, e trata a fotografia submarina como um ramo novo da técnica.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O fundo do mar dentro do laboratório

Boutan não queria fazer arte. Queria registro. Um zoólogo do século XIX que estudava animais marinhos dependia de desenho feito de memória ou de bicho morto trazido à superfície, já sem a cor e a postura de quando estava vivo.

A câmera de cobre trocou o desenho pela chapa. O que Boutan via a poucos metros de profundidade passou a voltar para a mesa do laboratório como prova, com a posição das pedras, das algas e dos animais tal como estavam.

Como saía uma chapa

Nas descrições de Boutan, uma exposição no fundo de Banyuls seguia uma sequência fixa:

1. O barco baixava a caixa de cobre por um cabo até o mergulhador.

2. Boutan firmava o tripé no fundo e mirava pela janela de vidro.

3. Uma alavanca externa abria o obturador, e a espera começava.

4. Nos pontos escuros, o clarão de magnésio ou o arco elétrico entrava para encurtar a exposição.

O que a técnica provou

A prova principal era simples: uma câmera fechada em metal sobrevivia à pressão e à água salgada e devolvia imagem nítida. Até então, ninguém tinha mostrado em chapa o chão do mar visto de dentro, com o fotógrafo no fundo.

A segunda prova veio da luz. O barril de magnésio mostrou que um clarão podia funcionar debaixo d'água se o fogo tivesse ar próprio e ficasse separado do mar. Quem fotografou embaixo d'água nas décadas seguintes partiu desse princípio.

O mar também impunha limite. A água turva depois de um dia de vento estragava a chapa inteira; as descidas dependiam do mar calmo do verão catalão.

O passo seguinte

Em 1926, o ictiólogo (especialista em peixes) William Longley e o fotógrafo Charles Martin, da National Geographic Society, fizeram as primeiras fotos submarinas coloridas, nas águas de Dry Tortugas, ilhas ao sul da Flórida.

Eles também usaram magnésio, queimado numa balsa na superfície, e as imagens saíram na revista National Geographic em janeiro de 1927. O clarão tinha subido do barril para a balsa, mas a ideia era a de Banyuls.

Entre Banyuls e Dry Tortugas passaram mais de 30 anos, e o problema central continuou o mesmo: levar ao fundo luz suficiente para a chapa reagir antes de o fotógrafo cansar.

 

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III  Depois da Foto

A pérola e o laboratório

Depois das câmeras, Louis Boutan levou a pesquisa para longe do Mediterrâneo. No começo do século XX trabalhou na Indochina Francesa, colônia que reunia os atuais Vietnã, Laos e Camboja, e voltou a atenção para as ostras perlíferas (as que produzem pérolas).

A pérola virou o tema dos anos seguintes. Em 1925, ele publicou La perle (A pérola), estudo sobre como a pérola se forma na ostra de modo natural e como se forma quando o criador introduz um núcleo de propósito.

O fim da mangueira

A roupa de escafandro que prendia Boutan ao barco por uma mangueira durou décadas como o único jeito de passar muito tempo no fundo. Em 1943, Jacques-Yves Cousteau e o engenheiro Émile Gagnan testaram o aqualung (pulmão aquático), um cilindro de ar nas costas com uma válvula que solta o ar conforme o mergulhador respira.

Sem mangueira, o fotógrafo passou a nadar com a câmera, e não só a ficar de pé ao lado dela. A caixa estanque continuou no centro do ofício, agora menor e presa ao corpo.

Os últimos anos

Boutan morreu em 1934, aos 75 anos. As chapas de Banyuls e o livro de 1900 ficaram como o registro dele mais conhecido fora da zoologia, e a imagem do mergulhador com a placa é a que aparece quando o assunto é a primeira fotografia submarina.

Uma placa pintada à mão bastou para batizar uma técnica inteira.

A foto está em domínio público, porque o autor morreu há mais de 70 anos. O arquivo no Commons foi digitalizado em alta resolução e identifica a cena, o mergulhador e a página do livro onde Boutan a descreveu.

A caixa de 1893 também tem página no Commons. Um desenho publicado naquele ano nos Archives de zoologie expérimentale et générale (Arquivos de zoologia experimental e geral) mostra o caixão estanque montado em volta de uma câmera do tipo Détective, modelo portátil de mão da época.

O Laboratório Arago segue aberto na beira da mesma baía de Banyuls-sur-Mer, hoje com o nome de Observatório Oceanológico, ligado à Sorbonne Université. Os pesquisadores dele mergulham com cilindro nas costas no fundo de pedra onde David ergueu a placa de cabeça para baixo em 1898.

 
 
Quiz da edição

No clarão artificial que Boutan levava ao fundo da baía de Banyuls-sur-Mer, o que mantinha o pó de magnésio queimando apesar da água em volta?

AUma campânula de cobre selada, sem nenhuma entrada de ar
BUm tubo de oxigênio puro ligado direto à lamparina
CUma bateria elétrica que soprava o magnésio a distância
DUm barril de ar que alimentava uma redoma de vidro com a lamparina dentro

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