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ED 011

O Menino que Furou a Coluna do Regimento

Em 1º de outubro de 1940, na esquina da Oitava com a Columbia, Claude P. Dettloff já tinha a tropa inteira no enquadramento

Menino de cinco anos correndo no meio da rua atrás do pai, soldado numa coluna do British Columbia Regiment em marcha, em New Westminster, 1940.

Wait for Me, Daddy, Claude P. Dettloff, 1940

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No pé da rua Oitava, em New Westminster, na praça Hyack, existe um bronze de duas toneladas. Um soldado virado de perfil, uma mulher com o braço esticado e um menino correndo no meio da rua.

A escultura foi inaugurada em 4 de outubro de 2014, obra de Veronica e Edwin Dam de Nogales, plantada no ponto exato onde a cena aconteceu. Quem atravessa a faixa hoje pisa no mesmo asfalto.

Na plateia daquela manhã havia um senhor de 79 anos. Ele era o menino do bronze. Levou setenta e quatro anos para voltar à esquina e se ver fundido em metal, de braço esticado para a frente.

Fotografia de guerra, em 1940, era coluna em marcha, navio zarpando, avião cortando o céu. A imagem que sobreviveu ao século não tem nada disso no primeiro plano.

Tem uma família se desmanchando no meio de uma rua de província, com a tropa passando ao lado como se fosse cenário. O assunto do quadro não é a partida do regimento.

É o segundo em que uma criança de cinco anos entende sozinha, sem ninguém explicar, que o pai vai embora e que ninguém vai segurá-lo pela manga.

O que virou monumento durou menos de um segundo, e ninguém combinou nada. O fotógrafo estava com a coluna militar no enquadramento e o menino entrou no quadro por conta própria.

O negativo abriu a primeira página do jornal no dia seguinte, atravessou a fronteira em revista americana, foi parar na parede de escola pública e, pouco depois, passou a pedir dinheiro aos canadenses.

O bronze mostra os três no mesmo instante e para por aí. Quem passa na praça não fica sabendo pela escultura o que veio depois da corrida: a travessia do pai, a chegada de 1945 e uma casa que não voltou a ser a mesma.

Antes de tudo, porém, houve uma terça-feira de outubro, uma ladeira que descia para o rio e um homem de câmera parado numa quina, esperando a tropa aparecer.

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I  A Foto Histórica do Dia

A esquina da Oitava com a Columbia

Era terça-feira, 1º de outubro de 1940. Mais de 800 homens do British Columbia Regiment, o Duke of Connaught's Own Rifles, desciam a rua Oitava em coluna, com as calçadas tomadas por gente de New Westminster.

A tropa ia para o trem, e do trem para o navio SS Princess Joan. O destino era segredo militar. Só depois se soube que o segredo era Nanaimo, a três horas dali, na ilha de Vancouver, em serviço de defesa de costa.

Claude P. Dettloff, fotógrafo do jornal The Province, de Vancouver, escolheu a esquina da Oitava com a Columbia. Dali a ladeira jogava a coluna inteira para dentro da lente, em diagonal, com os homens vindo de frente.

1º de outubro de 1940, esquina da Oitava com a Columbia. Mais de 800 homens em marcha, uma câmera apoiada na quina e o enquadramento inteiro pronto antes de qualquer coisa acontecer.

O que entrou no quadro sem aviso

Na calçada estavam Bernice Bernard e o filho, Warren, de cinco anos, chamado de Whitey por causa do cabelo claríssimo. Na coluna vinha Jack Bernard, 33 anos, soldado raso.

O menino soltou a mão da mãe e entrou na rua. Correu na diagonal, contra o sentido da marcha, atrás de uma figura específica no meio de centenas de uniformes idênticos.

Jack passou o fuzil para a mão esquerda e esticou a direita para trás, na direção do filho. Os soldados logo atrás abriram um sorriso. A mãe veio correndo, de braço estendido, e não alcançou.

Dettloff apertou o botão uma vez. Não houve marcação de posição, ensaio nem segunda tomada. O que ficou no negativo é o menino no meio do asfalto, o pai de meio corpo virado e a mãe em pleno movimento.

Uma segunda história mora dentro do mesmo quadro. Na calçada aparece Agnes Power, moça de New Westminster com dois irmãos alistados. Wilfred, um deles, não voltou de Arnhem, em março de 1945.

Havia uma decisão de dinheiro por trás do uniforme de Jack. Ele era sargento-mor interino na milícia local e baixou a própria patente para se alistar como soldado raso, numa guerra que já parecia longa.

O soldo de sargento pagava o dobro do soldo de raso. A conta doméstica caiu pela metade no dia da assinatura, e a mulher dele nunca engoliu a escolha.

No dia seguinte, a fotografia abriu a primeira página do The Province com o título que grudou nela para sempre: Wait for Me, Daddy.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A campanha que usou a voz do menino

A imagem não ficou guardada no arquivo do jornal. Virou material de campanha do Estado canadense e passou a guerra inteira pendurada na parede de todas as escolas da British Columbia.

A distribuição foi rápida. A Associated Press pegou o quadro, a Life publicou, a Time também, e a cena passou a circular fora do Canadá como retrato do que a mobilização fazia dentro de uma casa comum.

O governo tinha um problema de caixa. Boa parte da guerra era paga pelo bolso do próprio cidadão, e o instrumento de arrecadação se chamava Victory Loan.

Foram nove campanhas de Victory Loan, de 15 de junho de 1941 a 1º de novembro de 1945, com quase 12 bilhões de dólares em vendas à vista. Cerca de 52% saíram de empresas, e o restante veio de pessoas físicas.

O país que assinava aqueles títulos tinha pouco mais de 11,5 milhões de habitantes no censo de 1941 e mandou mais de um milhão de pessoas para o serviço militar. Quase toda família tinha um nome na lista.

O menino no palanque

A campanha não usou só o papel. Usou a criança. Entre os oito e os dez anos, Whitey saiu da sala de aula nos verões de 1943 e 1944 para subir em palanque de arrecadação pelo país.

A frase que ele repetia era curta e não precisava de explicação: compre um bônus e traga meu pai de volta. A plateia tinha diante dos olhos o menino da fotografia, vivo, pedindo pelo próprio pai.

O mecanismo é diferente do cartaz patriótico comum. O cartaz pede adesão a uma causa abstrata. Aquela fotografia cobrava uma dívida particular, com nome, idade e endereço conhecidos.

Uma foto de combate mostra o que acontece a seis mil quilômetros dali. A da esquina mostrava o que acontecia na rua de quem estava olhando, com casaco, poste e calçada reconhecíveis.

A conta chegou também para uma criança de escola primária. Whitey virou o menino da foto em tempo integral, na fila do mercado, no recreio e em salão de comício, sem ter escolhido nada daquilo.

O efeito no ofício foi na mesma direção. A frente doméstica deixou de ser assunto de segunda linha e virou o lugar onde se produzia a imagem de maior alcance da guerra canadense.

O quadro entrou em livro escolar, em campanha de rua e em cerimônia oficial, e se firmou como uma das fotografias mais reproduzidas da história do país.

A imagem congelou aquela família em 1º de outubro de 1940 e a manteve inteira, com pai, mãe e filho no mesmo enquadramento, em cada parede do país. A família de verdade seguiu em outra direção.

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III  Depois da Foto

O trem de outubro de 1945

O regimento não ficou em Nanaimo. Foi convertido em unidade blindada, embarcou para a Europa em agosto de 1942 e desembarcou na Normandia em julho de 1944.

De lá em diante foi Operação Totalize, Caen, Falaise, Holanda e Alemanha. A última ação veio na travessia do canal Küsten, em 17 de abril de 1945. Do regimento, 122 homens não voltaram e 213 ficaram feridos.

Jack Bernard desembarcou de volta em outubro de 1945, cinco anos depois da esquina. Na baixa médica dele havia um registro de battle fatigue, o nome que se dava então ao que hoje se chama estresse pós-traumático.

Dettloff estava na estação para fotografar a chegada. O menino do quadro tinha dez anos e correu outra vez, dessa vez sem coluna militar nenhuma no meio do caminho.

“O dia em que meu pai voltou, meu avô me pegou e me levou para a estação”, contou Warren Bernard décadas depois. “Foi provavelmente o dia mais feliz da minha vida de dez anos.”

A chegada, porém, não recompôs a casa. Bernice nunca aceitou o alistamento que tinha cortado o soldo pela metade e levado o marido para a Europa, e o casamento terminou em divórcio.

Aquele foi provavelmente o último momento em que estivemos juntos como família. Nunca mais estivemos juntos como família depois daquele instante.

Warren Bernard, entrevista ao The Guardian, 2014

Na Vancouver do pós-guerra, filho de pais separados era exceção de sala de aula. Whitey passou a ser, ao mesmo tempo, o garoto do cartaz da família reunida e um dos poucos colegas com os pais em casas diferentes.

Sobre o homem que desceu do trem, ele resumiu numa frase seca: não era mais o mesmo cara que tinha ido embora.

A relação entre os dois, ainda assim, foi boa. Jack trabalhou como classificador de madeira e depois como carpinteiro de acabamento, e gastou o resto da vida tentando compensar os anos perdidos. Morreu em 1981, aos 74.

O menino cresceu longe da esquina. Warren Bernard mudou para Tofino, na costa oeste da ilha de Vancouver, casou com Ruby em 1964 e tocou uma marina pequena, com venda de ferragem e combustível.

Na política local foi vereador, depois prefeito por alguns anos, e voltou ao posto de vereador em seguida. A marina da família continua funcionando, hoje sob o comando do filho dele, Steven.

Em 2014 o país devolveu a cena ao lugar de origem. Além da escultura na praça Hyack, o Royal Canadian Mint cunhou moedas com o quadro, entre elas uma de dois dólares com a palavra Remember, e o Canada Post lançou um selo comemorativo.

O museu da cidade montou no Anvil Centre uma exposição em torno da fotografia, usando a cena da esquina como porta de entrada para o efeito da guerra sobre as famílias de New Westminster.

A fotografia não fala em divórcio, em battle fatigue nem em oficina de carpintaria. Ela para no segundo exato em que a mão do pai ainda está esticada para trás, e todo o resto da história ficou fora do quadro.

“Se alguém fotografasse a sua família no minuto de uma despedida, que legenda essa imagem ia carregar setenta anos depois?”

 
 
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Por que Jack Bernard aparece na fotografia como soldado raso, e não com a patente que já tinha?

AFoi rebaixado por indisciplina antes do embarque
BBaixou a própria patente de sargento-mor para se alistar como soldado raso
CNunca teve patente, era recruta de primeira viagem
DTrocou de posto para servir ao lado do irmão de Agnes Power

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