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O Júri de 1854 Soltou a Fotografia Britânica

Em Londres, um júri manteve a patente do calótipo de Talbot e deixou o colódio úmido livre para todo fotógrafo

Calótipo de William Henry Fox Talbot, 1844: porta de estábulo entreaberta em Lacock Abbey, com vassoura e lanterna

A Porta Aberta, calótipo de W. H. F. Talbot, 1844

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A 51 graus de latitude norte, na várzea do rio Avon, em Wiltshire, a Lacock Abbey fica a uns 150 quilômetros a oeste de Londres. É um convento de freiras do século 13 convertido em casa de família, com claustro de pedra, pátio de estábulos e janelas estreitas.

Numa porta desse pátio, em 1844, alguém encostou uma vassoura de palha no batente, pendurou uma lanterna na parede e esperou o sol bater de lado. A porta ficou entreaberta, com o escuro do estábulo atrás.

A imagem no topo saiu dali. Não foi feita numa placa de metal, como os retratos franceses da época, mas numa folha de papel tratada com sais de prata, que gerava um negativo e dele quantas cópias o dono quisesse.

O dono da casa e da folha era também o dono da ideia. Tinha registrado o processo no escritório de patentes britânico três anos antes e cobrava licença de quem quisesse usá-lo para ganhar dinheiro com retrato.

Dez anos depois da foto, esse mesmo homem estava sentado num tribunal no Guildhall, o prédio da prefeitura da City de Londres, a 300 metros do Banco da Inglaterra. Era inverno, dezembro de 1854, e ele queria que doze jurados dissessem uma frase só: todo fotógrafo do país que usasse vidro e colódio lhe devia licença.

O réu era um retratista de Oxford Street que nunca tinha pago nada. Do outro lado da sala estavam, na prática, centenas de estúdios abertos nos três anos anteriores, todos esperando a decisão para saber se fechavam ou continuavam.

O julgamento ocupou três dias de audiência, com químicos, fotógrafos e advogados disputando o sentido de uma palavra do registro: revelar. O júri respondeu no fim do terceiro. A resposta deu razão às duas partes, e só uma delas saiu satisfeita.

Para entender por que um calótipo de 1844 pesava num processo sobre vidro, é preciso começar pela folha de papel na porta do estábulo.

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I  A Foto Histórica do Dia

A vassoura na porta do estábulo

A foto se chama The Open Door (A porta aberta) e foi feita em 1844 por William Henry Fox Talbot, matemático, químico e dono da Lacock Abbey, onde nasceu a técnica do calótipo (do grego kalos, belo, e typos, impressão: o negativo em papel). Saiu como a prancha VI do livro The Pencil of Nature (O lápis da natureza), publicado em seis fascículos entre 1844 e 1846.

O Pencil foi o primeiro livro vendido ao público com fotografias coladas nas páginas. Cada cópia exigia uma impressão em papel salgado (folha banhada em sal de cozinha e nitrato de prata), revelada ao sol no pátio de Lacock e depois numa oficina que Talbot montou em Reading.

O que a foto mostra

A imagem catalogada no Wikimedia Commons como The Open Door MET DP148629.jpg pertence ao Metropolitan Museum of Art, de Nova York, e está registrada no Wikidata como obra de Talbot. Está em domínio público.

O enquadramento é baixo. A vassoura apoiada no batente atravessa a diagonal, a lanterna pende na pedra e a porta de madeira deixa ver uma janelinha no fundo escuro. Não há gente nem movimento. Num tempo em que a exposição ainda pedia vários segundos de imobilidade, o objeto parado era o modelo mais confiável que um fotógrafo podia ter.

Talbot sabia que a cena parecia banal e escreveu sobre ela no texto que acompanha a prancha.

“Um olho de pintor costuma se deter onde a gente comum não vê nada de notável.”
William Henry Fox Talbot, The Pencil of Nature, prancha VI, 1844

O papel no lugar da prata

O daguerreótipo francês, anunciado em 1839, era uma imagem única numa placa de cobre prateada. O calótipo de Talbot, registrado em 8 de fevereiro de 1841, partia de um negativo em papel que podia gerar cópias sem fim.

A patente cobria um passo que Talbot considerava o coração do método: a imagem latente (a imagem que a luz grava no papel e ninguém enxerga ainda), revelada depois com ácido gálico e nitrato de prata. Com esse passo, a exposição caía de minutos para segundos.

Talbot patenteou o negativo, e a patente valia por 14 anos.

Na Inglaterra, quem abrisse estúdio de retrato com calótipo precisava pagar licença. Na França, o governo tinha comprado o daguerreótipo e liberado o uso. A Grã-Bretanha virou o único país grande onde fotografar por dinheiro exigia autorização de um homem só.

A trama do papel aparecia na cópia. Os calótipos saíam suaves, com sombras granuladas, ótimos para pedra e folhagem, fracos para o detalhe de um rosto. Retratista queria nitidez, e a nitidez chegou em 1851 por outra porta.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Vidro, colódio e doze jurados

Em março de 1851, o escultor Frederick Scott Archer publicou na revista The Chemist um método novo: espalhar colódio (algodão-pólvora dissolvido em éter e álcool, uma calda que seca como película) numa placa de vidro, sensibilizar com prata e fotografar com a placa ainda molhada.

O resultado juntava o melhor dos dois mundos: a nitidez do daguerreótipo e o negativo copiável do calótipo, com exposição de poucos segundos. Archer não patenteou nada e deixou o método aberto.

Talbot entendeu de outro modo. Para ele, o colódio úmido também revelava uma imagem latente com um ácido, então estava dentro da patente de 1841. Passou a exigir licença dos retratistas que trabalhavam com vidro.

A primeira trégua

Em 1852, os presidentes da Royal Society e da Royal Academy, Lord Rosse e Charles Eastlake, pediram a Talbot que soltasse a fotografia. Em carta publicada no The Times em agosto daquele ano, ele liberou o uso para amadores e cientistas, mas manteve o retrato vendido sob licença.

Martin Laroche, retratista de Oxford Street nascido William Henry Silvester, seguiu trabalhando com colódio sem pagar. Em 1854, Talbot o processou por violação de patente no Tribunal de Causas Comuns (Court of Common Pleas), presidido pelo juiz Sir John Jervis.

O que o júri respondeu

O julgamento correu no Guildhall entre os dias 18 e 20 daquele dezembro. A defesa atacou a patente e sustentou que o processo de Laroche era outro: revelava com ácido pirogálico, não gálico, e usava vidro, não papel. O júri respondeu a duas perguntas:

1. Talbot era o verdadeiro inventor do calótipo, e a patente seguia válida.

2. Laroche, com o colódio úmido, não tinha violado essa patente.

Talbot ganhou a autoria e perdeu o mercado no mesmo papel.

Para os estúdios, a segunda resposta bastava. O colódio era o processo que todos usavam, e agora ninguém devia licença por ele. A patente do calótipo continuava de pé, mas protegia um método que os retratistas já tinham abandonado.

Talbot saiu pagando os próprios advogados. Laroche contou com uma coleta de colegas para pagar a defesa, porque o caso dele era o caso de toda a classe, e os jornais de fotografia publicaram a decisão como vitória do ofício.

O efeito foi imediato no comércio. Retratistas que trabalhavam de porta fechada passaram a anunciar o colódio na vitrine, e fotógrafos amadores deixaram de temer carta de advogado. O colódio, que até então se usava com medo de processo, virou o padrão britânico de estúdio, de vista urbana e de fotografia de guerra.

 

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III  Depois da Foto

O que sobrou da patente

A patente de 1841 venceu em fevereiro de 1855, catorze anos depois do registro. Talbot não pediu prorrogação. Depois do julgamento, a renovação teria cobrado um processo novo para cada estúdio, e ele desistiu.

O colódio úmido seguiu sozinho. Em 1855, Roger Fenton, secretário fundador da Photographic Society of London (Sociedade Fotográfica de Londres), levou placas de vidro e uma carroça escura (o laboratório de revelação sobre rodas) à Guerra da Crimeia e trouxe as primeiras grandes séries de fotos de uma guerra.

O inventor do colódio

Frederick Scott Archer não ganhou nada com o método que todo estúdio usava. Morreu em Londres em maio de 1857, pobre, e colegas abriram uma subscrição para sustentar a viúva e os filhos. A Coroa concedeu à família uma pensão anual.

O nome dele quase saiu dos manuais. Durante décadas, livros de história da fotografia deram o calótipo e o daguerreótipo como os dois processos fundadores e trataram o colódio como detalhe técnico, embora tenha sido ele o processo dominante dos estúdios até a chapa seca de gelatina, na década de 1880.

Talbot depois do tribunal

Talbot não largou a química. Passou os anos seguintes trabalhando na gravura fotográfica, um jeito de transformar a foto em chapa de impressão para jornal e livro, e registrou patentes sobre o método em 1852 e 1858.

Também voltou a outros interesses: decifrou textos cuneiformes (a escrita em cunhas da antiga Mesopotâmia) e publicou sobre botânica e matemática. Morreu na Lacock Abbey em 17 de setembro de 1877, aos 77 anos.

A patente acabou, e a porta de 1844 continuou no pátio.

Laroche continuou com o estúdio em Oxford Street e ficou na história pelo nome do processo, não pelas fotos. Talbot ficou com a autoria reconhecida em juízo e sem a renda que esperava dela.

O Metropolitan Museum of Art comprou a cópia da Porta Aberta em 2005, numa coleção de impressões do Pencil of Nature. A imagem que abre esta edição saiu dessa folha, hoje digitalizada e livre de direitos.

A porta continua no pátio dos estábulos da Lacock Abbey, a 51 graus de latitude norte, no mesmo batente onde Talbot encostou a vassoura dez anos antes de perder o colódio no Guildhall.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem entregou a Lacock Abbey, com a porta da foto, ao National Trust em 1944?

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Quiz da edição

No julgamento de dezembro de 1854 no Guildhall, qual foi a decisão do júri sobre Talbot e Laroche?

AO júri anulou a patente do calótipo e multou Laroche
BO júri manteve a patente de Talbot válida, mas disse que Laroche não a tinha violado com o colódio
CO júri deu razão total a Talbot e condenou Laroche a pagar a licença
DO júri declarou empate e marcou um novo julgamento

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