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O Homem que Estava nas Duas Cidades
Tsutomu Yamaguchi sobreviveu ao clarão de Hiroshima em 6 de agosto de 1945, pegou o trem para casa e desembarcou em Nagasaki na véspera do segundo
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Nuvem sobre Nagasaki, Charles Levy, 1945
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No vale de Urakami, ao norte do porto de Nagasaki, o segundo artefato nuclear usado em guerra detonou a 503 metros do solo, às 11h02 do dia 9 de agosto de 1945. A três quilômetros dali, numa sala de terceiro andar do complexo naval da Mitsubishi, um projetista de 29 anos estava com metade do tronco enfaixada e tentava explicar ao supervisor o que tinha visto na segunda-feira anterior, em outra cidade, a quase 300 quilômetros de distância. A luz entrou pela janela no meio da frase.
O que ele tentava descrever era Hiroshima. Às 8h15 do dia 6 de agosto, o primeiro artefato detonou a 580 metros acima do centro da cidade, segundo o levantamento do United States Strategic Bombing Survey publicado em 1946. Ele estava a cerca de três quilômetros do ponto sob a explosão, a caminho do estaleiro, no último dia de uma viagem de trabalho de três meses. Voltou de trem para casa no dia 8, com queimaduras no lado esquerdo do corpo e os tímpanos rompidos.
A conta que sobra é curta de escrever e difícil de engolir: o mesmo homem esteve dentro do raio de três quilômetros das duas explosões, com menos de 75 horas entre uma e outra. Ele se chamava Tsutomu Yamaguchi, projetava petroleiros e voltava do trabalho de bicicleta.
O Japão passou a chamar de hibakusha quem esteve exposto às explosões, e o carimbo dá direito a exames e tratamento custeados pelo Estado. Yamaguchi entrou no sistema como sobrevivente de Nagasaki, que era onde morava. Hiroshima só apareceu no mesmo documento em 24 de março de 2009, quando ele tinha 93 anos.
Da manhã de 9 de agosto, o registro visual que atravessou o século foi feito de cima, por quem sobrevoava a costa e voltou para a base antes do almoço. A seção de hoje reconstrói quem apertou o obturador, de que altura, e por que a imagem que o mundo guardou daquele dia mostra tudo, menos gente.
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I A Foto Histórica do Dia
A nuvem vista de nove mil metros
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A fotografia saiu de um B-29 de observação chamado The Great Artiste, que acompanhava o avião do ataque e descrevia círculos sobre a costa de Kyushu. Quem apontou a câmera pela escotilha foi Charles Levy, bombardeador da tripulação, e a chapa entrou nos arquivos militares dos Estados Unidos com o título Atomic Cloud Rises Over Nagasaki. Está em domínio público porque foi feita por militar em serviço.
O enquadramento é quase todo céu. Na base do quadro aparece uma faixa estreita de nuvem baixa e mar, e do centro para cima sobe a coluna, com o tronco escuro e a cabeça aberta acima da altitude do próprio avião. Não há cidade no quadro. Não há rua, telhado, ponte, nem uma silhueta humana.
O que entra no quadro e o que fica de fora
A ausência não foi escolha de composição. Às 11h02, a única posição possível para registrar a coluna inteira era de fora e de cima, e nessa distância a escala do fenômeno engole o resto. Uma chapa feita do chão naquele instante teria guardado luz saturada e nada mais.
A consequência é que a imagem mais reproduzida do dia é uma imagem meteorológica. Ela descreve uma coluna de ar quente, vapor e poeira subindo por convecção sobre um ponto do mapa. Sobre o que acontecia embaixo dela, no vale de Urakami, a chapa não informa nada.
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A fotografia de Levy é o retrato de uma nuvem. Tudo o que 9 de agosto significou para quem estava sob ela precisou ser contado depois, por voz humana, um depoimento de cada vez.
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Vale reparar no que a chapa entrega de útil, porque não é pouco. Ela fixa a hora, a forma da coluna e a altura alcançada em relação a um avião cuja altitude de voo está registrada no diário de bordo da missão. Um pesquisador consegue estimar por ela a energia liberada e a velocidade de subida da massa de ar. O que a imagem não faz é responder a pergunta que qualquer leitor faz primeiro, sobre quem estava embaixo.
Foi por essa lacuna que o testemunho de quem estava no chão virou documento com peso próprio. As primeiras entrevistas com sobreviventes das duas cidades demoraram anos para circular fora do Japão, e o caso de quem esteve nas duas passou décadas sem qualquer registro oficial.
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Vivi o bombardeio duas vezes e espero sinceramente que não haja uma terceira.
Tsutomu Yamaguchi, exibição do documentário Nijuu Hibaku na sede da ONU, 2006
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Um certificado com duas cidades
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O sistema japonês de reconhecimento nasceu em 1957, com a lei de assistência médica aos atingidos, doze anos depois das explosões. O documento define quem esteve exposto, em qual cidade e a que distância do ponto sob a explosão, e abre acesso a exames periódicos e tratamento pago pelo Estado.
A ficha é preenchida por cidade. Um sobrevivente pertence a Hiroshima ou a Nagasaki, e o campo não previa duas entradas para a mesma pessoa. Yamaguchi entrou como sobrevivente de Nagasaki, que era onde morava, trabalhava e seguiu em acompanhamento médico pelo resto da vida.
Por que o segundo carimbo demorou 52 anos
Ele passou décadas sem pedir a inclusão de Hiroshima. Voltou à Mitsubishi, deu aulas, criou os filhos e evitou falar em público sobre agosto de 1945 até a virada dos anos 2000. O pedido formal só foi apresentado na velhice, quando a saúde piorou e o registro documental ganhou urgência para ele.
O reconhecimento saiu em 24 de março de 2009. A prefeitura de Nagasaki confirmou, com base em documentos de deslocamento e em testemunhas, que ele estivera em Hiroshima no dia 6 de agosto, e o certificado passou a listar as duas cidades. Ele tinha 93 anos e recebeu a notícia hospitalizado.
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O papel não mudou o tratamento médico dele em nada. Mudou o arquivo: pela primeira vez o Estado japonês registrou por escrito que uma pessoa esteve dentro do raio das duas explosões.
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A equipe do documentário Nijuu Hibaku, dirigido por Hidetaka Inazuka em 2006, tinha chegado a cerca de 165 pessoas presentes nas duas cidades naquele agosto. A maior parte nunca pediu o duplo registro, e boa parte já não estava viva quando o caminho administrativo ficou claro.
A demora tem explicação administrativa e explicação humana, e as duas contam. Do lado do papel, ninguém tinha desenhado um formulário para o caso de duas cidades, e servidor nenhum inventa campo por conta própria. Do lado dele, pedir o segundo carimbo significava voltar a contar em detalhe uma manhã que ele tinha passado meio século empurrando para o fundo da memória.
O efeito prático foi de precedente. Com um caso aceito, o critério deixou de ser hipotético e ganhou procedimento: comprovar presença nas duas cidades, com data, distância e prova de viagem. A partir dali, quem tivesse a mesma história sabia exatamente qual pasta abrir.
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