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100% escolheram Os Negativos Furados. Aqui está.
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O Furador de Papel que Decidia o Que a América Via
Os negativos reprovados no arquivo da Farm Security Administration saíam da mesa de luz com um furo redondo no meio, e o furo foi catalogado junto
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Crânio de novilho, Arthur Rothstein, 1936
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A quase quatro mil quilômetros das lavouras de algodão do Arkansas, numa sala do prédio da Administração de Segurança Agrícola em Washington, havia uma mesa de luz que recebia latas de filme chegadas pelo correio. Os fotógrafos do governo rodavam o país de carro por semanas, revelavam pouco na estrada e despachavam o material bruto para a capital. Do outro lado da linha, um economista de formação abria as latas e olhava chapa por chapa contra a luz.
O programa tinha começado em 1935 dentro da Resettlement Administration, passou para a Farm Security Administration em 1937 e terminou dentro do Office of War Information em 1942. Em sete anos de campo, o conjunto de negativos que voltou da estrada chegou à casa das centenas de milhares de chapas, hoje guardadas pela Biblioteca do Congresso, em Washington, que recebeu o acervo em 1944.
Nem toda chapa entrava. A que não entrava não ia para a lixeira. Ela saía da mesa com um buraco redondo, do tamanho de uma moeda pequena, aberto no meio da emulsão com um furador de escritório comum, daqueles de perfurar papel de pasta. Furada, a chapa não gerava mais cópia aproveitável: o disco preto atravessava rosto, celeiro, caminhão, o que estivesse no centro do quadro. O furo era feito à mão, na hora da triagem, sem registro do motivo e sem consulta a quem tinha apertado o botão na estrada semanas antes.
A Biblioteca do Congresso, que digitalizou o acervo e publica as varreduras no catálogo da Divisão de Estampas e Fotografias, contabiliza cerca de 68 mil negativos perfurados dentro do arquivo. É quase um terço do que o programa produziu, reprovado por uma pessoa numa sala fechada, longe de qualquer lugar fotografado.
A seção de hoje começa por uma chapa que sobreviveu à mesa, foi publicada, e quase derrubou o programa inteiro por causa de um crânio de novilho no chão.
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I A Foto Histórica do Dia
O crânio que virou prova contra o arquivo
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Em maio de 1936, um fotógrafo de 21 anos contratado pela Seção Histórica da agência atravessou as Badlands da Dakota do Sul e parou diante de um crânio de novilho branqueado pelo sol, apoiado numa crosta de barro rachado. Arthur Rothstein fez várias chapas do mesmo objeto, mudando o fundo, o ângulo e o enquadramento, como qualquer fotógrafo de campo faria com um assunto que não vai fugir.
Uma das versões circulou pela imprensa no verão daquele ano, no meio da campanha presidencial, ilustrando reportagem sobre a seca que castigava as planícies. A legenda oficial descrevia terra ressecada e assada pelo sol, e o crânio no centro funcionava como resumo visual da catástrofe agrícola que o governo usava para justificar seus programas de socorro rural.
Em agosto de 1936, o jornal Fargo Forum, da Dakota do Norte, publicou lado a lado duas chapas do mesmo crânio em terrenos diferentes e acusou o fotógrafo de ter carregado o osso de um ponto a outro para melhorar o efeito. A distância entre as posições era de poucos metros. A acusação pegou fogo em plena disputa eleitoral, e adversários do New Deal passaram a tratar o arquivo inteiro como propaganda encenada com dinheiro público.
O que o episódio ensinou ao escritório
Rothstein confirmou ter deslocado o crânio enquanto trabalhava, e explicou que testava fundo e luz. A controvérsia expôs a fragilidade de um arquivo de Estado diante de qualquer suspeita de arranjo de cena.
Depois de 1936, o controle sobre o que saía do escritório em Washington ficou mais rígido. A seleção passou a considerar não só nitidez e exposição, mas o risco político de cada quadro: a chapa que sugerisse pose, ensaio ou repetição de assunto virava candidata à reprova.
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A chapa do crânio prova o tamanho do poder da mesa de luz. A imagem que saiu de lá definiu a discussão pública sobre a seca; a que ficou parada na sala não existiu para ninguém, e as duas foram feitas no mesmo dia, pela mesma câmera, sobre o mesmo pedaço de barro.
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A ironia é que a chapa acusada sobreviveu inteira, com número de catálogo e varredura em alta resolução, enquanto milhares de imagens sem controvérsia alguma foram reprovadas e furadas sem que ninguém de fora tomasse conhecimento.
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A coleção da FSA é um poema épico da América rural.
Roy Stryker, In This Proud Land, 1973
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Como um buraco define um arquivo
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O chefe da Seção Histórica, Roy Emerson Stryker, era economista e tinha vindo da Universidade de Columbia, onde havia trabalhado com material fotográfico em livros didáticos. Ele não fotografava. Escrevia listas de assuntos, chamadas de roteiros de tomada, indicando o que a equipe deveria procurar em cada região: cerca, silo, feira, escola rural, fila de contratação, cozinha de família.
A equipe passou por nomes que a história da fotografia guardou, entre eles Walker Evans, Ben Shahn, Russell Lee, Marion Post Wolcott, Jack Delano, John Vachon e Gordon Parks. Todos mandavam filme para Washington, e nenhum decidia sozinho o que do próprio trabalho entrava no arquivo federal.
A reprova tinha três motivos declarados: defeito técnico, assunto repetido e enquadramento fraco. O furo servia como garantia de que a chapa reprovada não voltaria à circulação por engano, já que o negativo continuava fisicamente na gaveta ao lado dos aprovados.
Por que a chapa reprovada não foi jogada fora
Um arquivo de governo funciona por registro obrigatório. Descartar material produzido com verba pública exigiria procedimento, autorização e prestação de contas. Perfurar era mais simples: o negativo permanecia no acervo, contava como item, e ao mesmo tempo parava de servir para impressão.
Aí está a contradição que salvou o material. O gesto que anulava a imagem também a preservava, porque a chapa anulada continuou guardada em envelope, com número, ao lado das outras. Um arquivo que jogasse fora o rejeitado não teria hoje o rejeitado para mostrar.
Vários fotógrafos reclamaram do procedimento por escrito e em depoimentos posteriores, sobretudo quando o furo caía sobre trabalho que consideravam bom. Walker Evans, que saiu do programa em 1937 depois de atrito constante com a chefia, é o caso mais citado de conflito entre autoria e edição centralizada.
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Um furador de papel é a ferramenta mais barata do escritório e foi a mais poderosa do programa. Ele corta o meio do quadro, exatamente onde a maior parte dos fotógrafos coloca o assunto principal.
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Em 1944, com o programa encerrado, o acervo foi transferido para a Biblioteca do Congresso. Coube ao bibliotecário Paul Vanderbilt reorganizar o material por lotes temáticos e geográficos, sistema que segue estruturando a consulta até hoje e que manteve os negativos furados dentro dos mesmos lotes dos aprovados.
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