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O Fotógrafo Que Voltou à Mesma Esquina 25 Anos Depois

Militão Augusto de Azevedo refotografou São Paulo em 1887 e montou o álbum que hoje data ruas inteiras da cidade

Igreja da Sé de taipa com uma torre e o largo de terra vazio, em São Paulo, na foto de Militão Augusto de Azevedo, 1862.

Igreja e Largo da Sé, Militão de Azevedo, 1862

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A 23 graus e 33 minutos de latitude sul, a cerca de 760 metros de altitude, o Largo da Sé fica no alto da colina onde São Paulo nasceu. Em 1862, quem parava ali via uma igreja de taipa (parede de terra socada entre tábuas), um chão de terra batida e quase ninguém na rua.

Um fotógrafo armou o tripé nesse largo, enfiou a cabeça sob o pano preto e esperou a placa de vidro receber a luz. A exposição levava segundos, tempo bastante para apagar quem passasse andando.

Vem daí o vazio das ruas nas fotos antigas. As pessoas existiam, mas só ficava na chapa quem estivesse parado: um carroceiro encostado, uma criança curiosa, um vendedor na porta.

Naquele ano, São Paulo era uma cidade pequena de estudantes de Direito, tropeiros e igrejas. As casas eram baixas, caiadas de branco, com beirais largos para proteger a taipa da chuva.

Vinte e cinco anos depois, o mesmo fotógrafo voltou ao mesmo largo. Procurou o mesmo ângulo, ou o mais próximo possível, e bateu outra chapa.

A cidade que apareceu no vidro já era outra. Tinha trilho de bonde puxado a burro, poste de iluminação a gás, sobrado de tijolo com platibanda (a mureta que esconde o telhado) e fachada de loja com letreiro pintado.

Ele repetiu o gesto em dezenas de pontos do centro e dos bairros. Depois colou as cópias em pares, a de 1862 ao lado da de 1887, e pôs o conjunto à venda.

Poucos compraram, e poucos exemplares chegaram até hoje. O que sobrou virou instrumento de trabalho de historiador, arquiteto e arqueólogo, que usam os pares para dizer quando uma rua mudou de cara.

Antes de saber quem era o fotógrafo, vale olhar a primeira chapa com calma: a igreja velha, o largo de terra e o vazio que a lente não conseguia segurar.

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I  A Foto Histórica do Dia

A igreja de terra no alto da colina

Militão Augusto de Azevedo nasceu no Rio de Janeiro em 1837 e chegou a São Paulo como ator de uma companhia de teatro. Ficou na cidade, trocou o palco pelo estúdio e virou o retratista mais procurado da capital da província.

A foto que abre esta edição é a Igreja e Largo da Sé, de 1862. Está no Wikimedia Commons como a prancha 47 do Álbum Comparativo e no Wikidata, que registra Militão como autor. O original pertence ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

O que a imagem mostra

A igreja ocupa o centro do quadro. É a Sé colonial, com uma torre só, fachada lisa e frontão triangular, sem nenhuma escultura de pedra.

As paredes são de taipa rebocada e pintada de claro. Nas zonas em que o reboco caiu, a terra aparece em manchas escuras perto do chão.

O largo na frente é de terra, com sulcos de roda de carroça. Não há calçamento, banco, poste nem árvore plantada de propósito.

Nas laterais, as casas térreas e os sobrados estreitos têm janelas de madeira e beiral saliente. Os telhados são de telha de barro, do tipo que se moldava na coxa do oleiro.

Quase não há gente. Uma ou outra figura parada sobrou na chapa; quem andou durante a exposição virou borrão ou sumiu de vez.

Ao fundo, o céu sai branco e sem nuvem. O colódio reagia muito ao azul, e o céu estourava antes que as paredes da igreja ganhassem detalhe na placa.

Como Militão fotografava a rua

Ele usava o colódio úmido, processo em que a placa de vidro é coberta por uma camada química, exposta ainda molhada e revelada logo em seguida. O fotógrafo de rua carregava um laboratório portátil, uma barraca escura montada perto do tripé.

A câmera era grande e pesada, e cada chapa custava caro. Fotografar a cidade não dava lucro: o dinheiro vinha dos retratos de estúdio, que a elite paulistana encomendava em série.

O formato preferido era o cartão de visita (retrato pequeno colado num cartão rígido, trocado entre parentes e amigos). Cada sessão rendia várias cópias iguais, e o estúdio guardava o negativo para vender mais depois.

Em 1862, Militão fotografou a rua sem cliente nenhum, e foi essa chapa sem encomenda que sobreviveu à igreja.

A Sé de taipa que aparece no vidro foi derrubada em 1911, para abrir espaço à catedral de pedra que hoje ocupa a praça. A foto de Militão está entre os registros visuais mais antigos dela.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Sessenta pranchas lado a lado

Em 1887, Militão tinha 50 anos e duas décadas de retratos feitos no estúdio, a Photographia Americana. Nesse ano voltou à rua com a câmera e uma lista de lugares: os mesmos que tinha fotografado no começo da carreira.

O resultado foi o Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo, 1862 a 1887. O acervo do Museu Paulista numera 60 pranchas, entre vistas de ruas, largos, igrejas, chácaras e panoramas tirados do alto de torres.

Em vários pontos, a dupla é exata: a Rua da Quitanda, a Rua do Commercio, a Rua da Gloria, a Rua Alegre e o Largo do Braz aparecem em 1862 e outra vez em 1887, quase do mesmo lugar.

O que mudou entre uma chapa e outra

A São Paulo de 1887 tinha ferrovia. A São Paulo Railway ligava Santos a Jundiaí desde 1867 e trazia café, imigrante e tijolo para a capital.

O café pagava a conta. Os fazendeiros do interior passaram a manter casa na capital, e a cidade ganhou bancos, hotéis, lojas de importados e escritórios de comissários (os intermediários que vendiam a safra no porto de Santos).

Tinha também bonde de tração animal, iluminação a gás e um jardim público reformado na Luz. Nas pranchas de 1887 aparecem trilhos no chão, postes nas esquinas e fachadas novas encaixadas entre as velhas.

O crescimento tem número oficial. O Recenseamento Geral do Império, de 1872, contou cerca de 31 mil moradores no município; o censo federal de 1890 contou perto de 65 mil.

O que nunca se soube

A tiragem do álbum não ficou registrada em nenhum documento conhecido. Sabe-se que as cópias eram feitas à mão, prancha por prancha, a partir dos negativos de vidro, e que poucos exemplares completos sobreviveram até hoje.

Militão fotografou a mesma esquina duas vezes, com 25 anos de intervalo, e transformou a diferença entre as duas chapas em documento.

Como os pares servem para datar uma rua

O método que pesquisadores aplicam ao álbum segue três passos.

1. Localizar a esquina da foto de 1862 por um elemento fixo, como a torre de uma igreja ou o recorte do morro ao fundo.

2. Comparar a mesma esquina na prancha de 1887 e marcar cada fachada, poste ou trilho que surgiu no intervalo.

3. Cruzar o que surgiu com a data de obra registrada nos documentos da Câmara Municipal, para estreitar a janela em que cada mudança aconteceu.

 

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III  Depois da Foto

A cidade de taipa virou outra três vezes

Militão fechou o álbum com uma cidade em plena troca de material. O historiador da arquitetura Benedito Lima de Toledo resumiu essa troca no livro São Paulo: três cidades em um século, de 1981: a cidade de taipa, a cidade de tijolo e a cidade de concreto.

O Álbum Comparativo registra a passagem da primeira para a segunda. O livro de Toledo e muitos estudos sobre o centro antigo usam as pranchas de Militão como prova visual.

Onde o álbum está hoje

Os negativos e as cópias de Militão ficaram com o Museu Paulista, o Museu do Ipiranga. O museu digitalizou as pranchas e as liberou no Wikimedia Commons, com o Wikidata registrando autor, título e ano de cada vista.

Junto foi um acervo que poucos conhecem: os livros de cópia do estúdio, com milhares de retratos de clientes numerados à mão. Ali estão estudantes, fazendeiros, escravizados levados ao estúdio pelos donos, atores e famílias inteiras de São Paulo do século XIX.

Militão morreu em 1905, na cidade que fotografou por mais de 40 anos.

A ideia dele virou gênero. A refotografia (voltar ao ponto exato de uma foto antiga e repetir o enquadramento) é hoje método de geógrafo, de urbanista e de quem estuda a erosão de encostas e geleiras. Em São Paulo, fotógrafos e jornais repetiram várias vezes os ângulos de Militão para mostrar o que a cidade virou no século XX.

A cidade que ele mostrou

Quase nada do que aparece nas pranchas de 1862 existe hoje. A igreja de taipa caiu, os sobrados térreos deram lugar a prédios de vários andares e o chão de terra virou asfalto e pedra portuguesa.

Arquitetos que restauram imóveis do centro ainda recorrem às pranchas para saber como era uma fachada original. Arqueólogos que escavam a região da Sé usam as vistas para prever onde havia muro, poço ou alicerce.

Um álbum que quase ninguém comprou em 1887 virou o mapa visual mais preciso da cidade que desapareceu.

No Largo da Sé, a 760 metros de altitude, a catedral de pedra ocupa hoje o lugar da igreja de terra da prancha 47. A foto de 1862 continua no acervo do Museu Paulista, com o chão de terra, a torre única e o vazio que a exposição longa deixou no meio do largo.

“Se você fotografasse hoje a sua rua e voltasse daqui a 25 anos, o que acha que ainda estaria de pé?”

 
 
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Quiz da edição

De acordo com o texto, em que ano a igreja de taipa do Largo da Sé, a mesma fotografada por Militão em 1862, foi demolida?

A1887
B1890
C1911
D1862

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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