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O Filme na Meia e o Crédito Que Levou 22 Anos
Em 16 de junho de 1976, um fotógrafo do jornal The World tirou o rolo de Soweto dentro da própria meia para a imagem chegar à primeira página
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Hector Pieterson em Soweto, Sam Nzima, 1976
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Um rolo de filme de trinta e cinco milímetros é um objeto físico com trinta e seis chances dentro. Ele pesa poucos gramas, cabe fechado na palma da mão e não tem cópia: enquanto não passar pelo laboratório, existe uma única versão do que foi visto, e ela viaja no bolso de alguém.
Essa fragilidade material define o trabalho do fotógrafo de jornal em qualquer regime autoritário. A censura não precisa discutir o conteúdo da imagem se conseguir tomar o cartucho antes da revelação, e nenhum tribunal repara um negativo velado à força numa blitz de estrada.
Existe uma segunda camada, invisível e mais duradoura. No contrato padrão da imprensa do século vinte, o fotógrafo assalariado não é dono do que fotografa. O direito autoral nasce em nome da empresa que paga o salário, e o profissional fica com a linha de crédito, que é reconhecimento, não propriedade.
As duas camadas costumam ser tratadas como assunto de cartório. Elas só aparecem quando o obturador cai sobre uma cena que muda alguma coisa no mundo, e daí em diante o rolo vira prova, a assinatura vira patrimônio e as duas passam a ser disputadas por gente com advogado.
Na África do Sul do apartheid, as duas camadas funcionavam ao mesmo tempo e na mesma direção. A polícia de segurança podia apreender material sem ordem judicial, e os jornais dirigidos ao público negro pertenciam, quase todos, a grupos empresariais brancos sediados em Joanesburgo.
Um fotógrafo negro contratado por um desses jornais trabalhava, portanto, dentro de dois cercos. Um cerco policial, que podia tomar o filme na saída do bairro, e um cerco contratual, que tomava a titularidade da imagem no instante em que ela entrava no arquivo da empresa.
Em junho de 1976, um único rolo atravessou o primeiro cerco escondido dentro de uma meia e caiu direto no segundo. A fotografia saiu na primeira página no dia seguinte e correu o mundo em uma semana. O direito sobre ela levou vinte e dois anos para chegar às mãos de quem apertou o botão.
Antes das duas travessias, houve uma passeata de estudantes marcada para as sete da manhã, um trajeto desviado por barricada e uma esquina de rua de terra em Orlando West.
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I A Foto Histórica do Dia
Seis quadros numa esquina de Orlando West
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Na manhã de 16 de junho de 1976, entre três mil e vinte mil estudantes saíram das escolas de Soweto em direção ao Estádio Orlando. O protesto tinha pauta única: o decreto de 1974 que obrigava as escolas negras a ensinar matemática e estudos sociais em africâner.
A organização era de adolescentes. O conselho representativo dos estudantes tinha planejado a caminhada por dias, pedido disciplina, proibido provocação e combinado um trajeto que passaria por Orlando West em solidariedade à greve começada em abril na escola secundária de lá.
O fotógrafo do jornal The World que cobria o bairro tinha quarenta e um anos e oito de casa. Havia entrado na redação em 1968, depois de anos fazendo retrato de trabalhador em hotel de Joanesburgo, e conhecia as ruas de Soweto melhor que o mapa pendurado na parede do jornal.
A polícia bloqueou a rota planejada, a passeata desviou, e por volta das dez da manhã cães e gás lacrimogêneo entraram na frente do cortejo. Depois vieram os tiros, e até hoje não existe registro claro de quem deu a primeira ordem de atirar.
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Hector Pieterson, doze anos, caiu na esquina das ruas Moema e Vilakazi, e um rapaz de dezoito, Mbuyisa Makhubo, o levantou do chão e saiu correndo com ele nos braços.
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Os seis quadros da esquina
A câmera era uma Pentax, e a sequência inteira durou menos de meio minuto. Seis quadros: o corpo sendo erguido do asfalto, a corrida na direção da rua, a irmã de dezessete anos, Antoinette, correndo ao lado com a mão erguida, e o grupo entrando no campo aberto da via.
O quadro que ficou é o terceiro da sequência. Ele tem três pessoas em movimento, um uniforme escolar, uma boca aberta em grito e nenhuma composição pensada, porque não houve tempo de pensar em composição.
O trabalho não parou no obturador. A perua da própria redação virou ambulância: a jornalista Sophie Tema dirigiu até a clínica de Phefeni, a poucos quarteirões dali, onde o menino chegou sem sinais vitais e não resistiu aos ferimentos.
A polícia começou a recolher filme de todos os jornalistas presentes ainda naquela manhã. Quem entregasse o cartucho perdia o dia inteiro de trabalho, quem se recusasse era detido, e a apreensão não exigia mandado nem justificativa escrita.
Foi nesse ponto que o rolo mudou de lugar. Ele saiu da câmera, foi enrolado no punho e desceu para dentro da meia do fotógrafo, encostado no tornozelo, onde ficou durante a saída do bairro e o trajeto inteiro até o centro de Joanesburgo.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
A primeira página que atravessou a fronteira
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A redação do The World fechava a primeira página no fim da tarde. O jornal era o diário dirigido ao público negro de Joanesburgo, vendido nos trens da manhã, e pertencia ao grupo Argus, o maior conglomerado de imprensa do país naquela década.
A ampliação saiu do laboratório ainda molhada e a decisão de edição levou minutos. A foto ocupou a primeira página de 17 de junho de 1976 no maior tamanho que a página comportava, e o texto ao lado ficou curto, porque a imagem já entregava a maior parte da informação.
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Em uma semana o mesmo quadro estava na capa de jornais de Londres, Nova York, Estocolmo e Lagos, quase sempre sem que ninguém precisasse traduzir a legenda para entender a cena.
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Dentro da África do Sul, o efeito foi imediato e mensurável. O protesto se espalhou por dezenas de townships, e o balanço oficial do próprio governo registrou cento e setenta e seis vítimas fatais só na região de Soweto até o fim daquele dia, e quinhentas e setenta e cinco em todo o país até fevereiro de 1977.
Fora do país, a fotografia entrou na engrenagem diplomática em três dias. Em 19 de junho de 1976, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a resolução 392, que condenou o governo sul-africano pela repressão aos estudantes e pelo sistema de apartheid que a produziu.
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Eu vi uma criança cair. Debaixo de uma chuva de balas eu corri para a frente e fui buscar a foto.
Sam Nzima, reportagem How one photograph changed the world, Mail & Guardian, 2006
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O que a imagem tirou do abstrato
O apartheid tinha uma defesa retórica bem montada para o exterior, construída sobre a ideia de desenvolvimento separado e de manutenção da ordem pública. Ela funcionava enquanto o assunto fosse estatística de moradia, mapa de reserva e discurso de embaixador em plenário.
A fotografia desmontou esse registro porque não aceita tradução administrativa. Um adolescente correndo com uma criança nos braços e uma irmã ao lado não cabe em nenhuma explicação de política habitacional, e nenhuma delegação conseguiu apresentar contexto capaz de reduzir o quadro.
O calendário registrou a virada. Em 1977 as Nações Unidas tornaram obrigatório o embargo de armas contra a África do Sul, e ao longo dos anos seguintes as campanhas de desinvestimento em universidades e fundos de pensão passaram a usar a imagem como material de abertura.
Dentro do país, o Estado tratou a fotografia como problema de segurança e agiu de acordo. O jornal foi proibido por decreto pouco mais de um ano depois, junto de outras publicações e organizações ligadas ao movimento de consciência negra, e o fotógrafo virou alvo direto.
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