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O Estúdio de 1892 Onde Homem Não Entrava

Lala Deen Dayal fotografava a corte do Nizam, e só a inglesa Kenny Levick podia fotografar as mulheres que viviam em reclusão

Elefante de perfil com a tromba erguida e as presas à mostra, condutor borrado no pescoço e tratador de turbante em pé junto à pata, foto de Lala Deen Dayal em Indore, entre 1885 e 1900.

O Grande Elefante Saudando, Deen Dayal, c. 1890

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A cerca de 550 metros de altitude, no planalto de Malwa, no centro da Índia, ficava Indore, capital do reino da família Holkar. Num terreiro de terra batida, entre árvores secas, um elefante ergueu a tromba e mostrou as presas para uma câmera de chapa de vidro.

O condutor sentado no pescoço do animal saiu borrado, porque se mexeu durante a exposição. Junto da pata dianteira, um homem de turbante e roupa branca segura uma vara comprida e olha para a lente.

O fotógrafo era Lala Deen Dayal, um desenhista de obras públicas que tinha trocado a prancheta pela câmera e virado o retratista preferido das cortes indianas.

Fotografar elefante, marajá e palácio era a parte fácil do ofício. O modelo esperava, o criado segurava o animal e a corte pagava pela cópia.

Difícil era fotografar a outra metade da corte. Nas casas nobres da Índia, muçulmanas e hindus, muitas mulheres viviam em purdah, o costume de reclusão que as escondia de qualquer homem de fora da família.

Nenhum fotógrafo homem atravessava a cortina dos aposentos femininos. A câmera de Deen Dayal, tão bem recebida nos salões, parava na porta.

Em Hyderabad, onde ele virou fotógrafo oficial do Nizam (o título do governante do maior principado da Índia), a barreira tinha cara de negócio perdido. Princesas, esposas e filhas da nobreza queriam retrato, e o estúdio não podia recebê-las.

A saída veio em 1892, e não dependeu de lente nova nem de química. Deen Dayal abriu um estúdio separado, o estúdio zenana (zenana é a ala da casa reservada às mulheres), e pôs no comando uma inglesa chamada Kenny Levick.

Uma mulher atrás da câmera bastava para a regra continuar de pé. A cliente posava diante de outra mulher, e a família não precisava abrir mão do retrato.

Para entender por que o arranjo funcionou, e quanto dele se perdeu, vale começar pelo elefante de Indore e por quem o fotografou.

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I  A Foto Histórica do Dia

Uma tromba erguida em Indore

Lala Deen Dayal nasceu em 1844 em Sardhana, cidade perto de Meerut, no norte da Índia. Estudou desenho técnico no Thomason College of Civil Engineering, em Roorkee, a escola de engenharia que os britânicos mantinham na região.

Formado, foi trabalhar como desenhista no departamento de obras públicas em Indore. A fotografia entrou na vida dele nos anos 1870, primeiro como passatempo e logo como encomenda da corte do marajá Tukoji Rao Holkar II.

Em 1882 acompanhou o administrador britânico Lepel Griffin numa viagem pelos templos e fortes da Índia Central. As chapas da viagem viraram o álbum Famous Monuments of Central India (Monumentos Famosos da Índia Central), publicado em 1886.

A foto desta edição está no Wikimedia Commons como The Great Elephant Saluting (o grande elefante saudando), uma cópia em albumina (papel coberto com clara de ovo, o suporte padrão da época) liberada em domínio público pelo Metropolitan Museum of Art, de Nova York. O Wikidata registra a obra como Q61781516, o museu a data entre 1885 e 1900, e o Commons a classifica no antigo Estado de Indore.

O que a imagem mostra

O elefante ocupa quase toda a largura do quadro, de perfil, virado para a direita. A tromba sobe em curva acima da cabeça e deixa à mostra as duas presas, curtas e grossas.

Uma corda grossa desce do pescoço, passa por baixo da barriga e marca a pele do animal. No alto, o condutor (o mahout, quem guia o elefante sentado atrás das orelhas) aparece como uma mancha clara: ele se mexeu enquanto o obturador estava aberto.

Acima da cabeça do condutor há um borrão em forma de leque, provavelmente um adorno ou estandarte que balançou durante a exposição. A chapa de vidro da época pedia alguns segundos de luz, e tudo que se movia virava fantasma.

Em pé, junto da pata dianteira, um segundo homem de turbante, túnica branca e pés descalços segura uma vara longa. É a figura mais nítida da cena, porque ficou imóvel.

O chão é de terra batida e o fundo mostra árvores quase sem folha e a parede de uma construção à esquerda. No canto inferior, uma rachadura fina corta a cópia: marca do papel envelhecido, não da cena.

Por que um elefante

Nas cortes indianas, o elefante era símbolo de poder. Desfilava em casamento, coroação e recepção a visitante britânico, coberto de tecido bordado e metal.

Treinado para erguer a tromba diante do soberano, ele fazia a saudação que o súdito fazia com a mão na testa. Fotografado nessa pose, o animal virava retrato da própria corte.

Deen Dayal sabia montar esse tipo de cena. O enquadramento é baixo e largo, a câmera fica à altura de quem está no chão, e o elefante parece maior do que o terreiro que o cerca.

A chapa mostra o que a fotografia de corte fazia melhor: congelar o cerimonial de quem podia ficar diante da câmera.

Quem não podia ficar diante dela fica fora deste quadro. As mulheres da corte de Indore, como as de Hyderabad, só entravam numa foto se a câmera estivesse nas mãos de outra mulher.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A cortina que pedia uma fotógrafa

Em 1884, o Nizam Mahbub Ali Khan, sexto governante da dinastia Asaf Jahi, conheceu o trabalho de Lala Deen Dayal e o levou para a corte de Hyderabad. O principado ficava no planalto do Decão, no centro-sul da Índia, e era o maior e mais rico sob proteção britânica.

O fotógrafo mudou a base para Secunderabad, a cidade-guarnição colada em Hyderabad, e abriu ali o estúdio principal. Mantinha casas também em Indore e, mais tarde, em Bombaim.

O Nizam deu a ele o título de Raja Musawir Jung, em que musawir quer dizer retratista em urdu. Em 1897, a rainha Vitória o nomeou fotógrafo oficial de Sua Majestade, honraria rara para um indiano.

O obstáculo do purdah

Na corte do Nizam, as mulheres da família real e da nobreza viviam no zenana. Pai, marido, irmão e filho entravam ali. Um fotógrafo de fora, nunca.

Retrato de mulher reclusa era, ao mesmo tempo, desejado e proibido. A família queria a imagem para guardar, presentear ou registrar um casamento; a regra impedia que um homem a fizesse.

A solução de Deen Dayal veio da organização do ofício. A câmera, a chapa e a química continuaram as mesmas; mudou quem ficava atrás do tripé.

Como funcionava o estúdio zenana

O arranjo aberto em 1892 tinha três peças:

1. Um espaço separado em Secunderabad, reservado às clientes mulheres e às crianças que as acompanhavam.

2. Uma fotógrafa no comando, a inglesa Kenny Levick, que operava a câmera, arrumava a pose e revelava as chapas.

3. Nenhum homem do estúdio presente durante a sessão, o que mantinha a reclusão intacta.

Com essas peças no lugar, a cliente sentava diante de outra mulher, e a família podia encomendar o retrato sem quebrar o costume da casa.

O estúdio zenana trocou quem segurava a câmera para que ela pudesse entrar onde antes parava na porta.

Para a firma de Deen Dayal, a medida abria uma clientela inteira dentro da corte mais rica do país. Para a história da fotografia, ela deixou o registro raro de uma mulher operando câmera num estúdio comercial da Índia do século XIX.

 

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III  Depois da Foto

O que sobrou das chapas de Secunderabad

Lala Deen Dayal morreu em Bombaim em 1905. A firma, a Raja Deen Dayal & Sons, ficou com os filhos, que mantiveram o nome da casa nas cópias por mais algumas décadas.

Em 1989, o Indira Gandhi National Centre for the Arts, o IGNCA, em Nova Délhi, comprou o acervo de negativos de vidro que a família guardava. O IGNCA registra 2.857 chapas, hoje digitalizadas para pesquisa.

O conjunto cobre palácios, caçadas, visitas de vice-reis, paisagens do Decão e a vida da corte do Nizam. É a maior fonte para estudar o trabalho dele.

Onde estão as mulheres

Do estúdio zenana, quase nada aparece no acervo público. As retratadas eram justamente as mulheres que a família não queria expor, e as cópias iam direto para os aposentos femininos.

Kenny Levick também some dos registros. Sabe-se que era inglesa e que dirigiu o estúdio a partir de 1892. Não se sabe quanto tempo ficou, quantas sessões fez nem onde foram parar as chapas dela.

O motivo do sumiço é a própria regra que criou o estúdio. Retrato feito para não ser visto por homem de fora não ia para vitrine, álbum de viagem nem coleção de museu.

O estúdio zenana, então, é conhecido pelas menções em estudos sobre Deen Dayal, e quase nada pelas imagens.

O que viajou para o Ocidente

As cópias de corte tiveram outro destino. Álbuns e folhas soltas viajaram com oficiais britânicos e colecionadores e acabaram em museus da Europa e dos Estados Unidos.

Elefantes, templos e marajás cruzaram o oceano porque podiam ser mostrados a qualquer um. Eram a parte da obra feita para circular.

O arquivo de Deen Dayal guardou os elefantes e os palácios; as mulheres que o estúdio zenana fotografou ficaram com as famílias e fora da história da fotografia.

O elefante de Indore está no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, catalogado como The Great Elephant Saluting, com a tromba erguida, o condutor borrado no pescoço e o tratador descalço parado junto da pata, numa cópia em albumina que o museu liberou em domínio público em 2017.

“Se só uma pessoa da sua família pudesse fazer os retratos da casa, quem você escolheria?”

 
 

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Em que ano Lala Deen Dayal abriu o estúdio zenana em Secunderabad, comandado pela inglesa Kenny Levick?

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