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O Engraxate Que Sobrou na Primeira Foto com Gente
Uma exposição de vários minutos apagou o Boulevard du Temple inteiro e deixou dois homens numa esquina, e a técnica desembarcou no Rio em 1840
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Boulevard du Temple, Louis Daguerre, 1838
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Do terceiro andar de um prédio na esquina do Boulevard du Temple com a Rue du Faubourg du Temple, a uns quinze metros acima do calçamento, Louis Daguerre apontou a lente para o norte numa manhã de 1838. Embaixo passava a via mais movimentada daquele lado de Paris: carruagens de aluguel, carroças de entrega, vendedores e a gente que entrava e saía dos teatros populares que davam apelido ao trecho.
A placa de cobre prateado ficou aberta à luz por vários minutos. Tudo que andava atravessou o quadro rápido demais para deixar marca química na prata, e o que voltou foi um bulevar deserto em plena luz do dia, com árvores, telhados, chaminés, postes e nenhuma alma na calçada.
Duas figuras escaparam do apagamento. No canto de baixo, à esquerda, um homem parou com o pé apoiado numa caixa e ficou imóvel o tempo inteiro da exposição, tempo suficiente para a prata registrar a perna, o tronco e a cartola. Agachado diante dele, o engraxate aparece mais borrado, porque o braço se mexia no trabalho. São as duas pessoas mais antigas de que se tem notícia dentro de uma fotografia.
Dezoito meses depois do anúncio público do processo, a prancha de prata polida atravessou o Atlântico dentro de uma caixa de madeira, junto com a retorta de mercúrio e os frascos de iodo que a revelação exigia. O abade Louis Compte, capelão da corveta francesa L'Orientale, chegou ao Rio de Janeiro em janeiro de 1840, desembarcou o equipamento no cais e montou a câmera voltada para o Largo do Paço, no centro da cidade, diante de um imperador de quatorze anos que iria comprar um aparelho igual dois meses depois.
A distância entre a esquina parisiense e o cais carioca é de nove mil quilômetros e de um ano e meio de calendário. O que não mudou no caminho foi o tempo de porta aberta.
A edição de hoje começa pelo quadro de Paris, porque a física que esvaziou aquela calçada é a que decidiu, no Rio, quem conseguia posar e quem não conseguia.
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I A Foto Histórica do Dia
O homem que ficou imóvel na esquina
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A imagem foi feita com uma placa de cobre folheada a prata, polida até virar espelho e sensibilizada com vapor de iodo. Depois da exposição, a placa era revelada sobre vapor de mercúrio aquecido e fixada em solução salina. O produto final não é um negativo: é o próprio objeto exposto na câmera, peça única, sem cópia possível, com a imagem invertida lateralmente.
Daguerre trabalhava no ateliê que ocupava com o Diorama, o espetáculo de pintura iluminada que ele explorava comercialmente em Paris. A janela do alto lhe dava a vista de uma rua com tráfego contínuo, e o resultado interessa justamente porque o tráfego sumiu.
O processo foi apresentado por François Arago na sessão conjunta da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes de Paris, em 19 de agosto de 1839, e o governo francês comprou a patente para liberar o método ao público. Poucos meses depois, manuais impressos ensinavam a preparar a placa em qualquer cidade portuária do mundo.
Por que a calçada aparece vazia
A prata iodada da época respondia mal à luz, e uma cena de rua exigia minutos de porta aberta. Qualquer figura em movimento passava por cada ponto do quadro por uma fração do tempo total, e a soma de luz que ela deixava em cada ponto era pequena demais para escurecer a placa. O que sobrava era o cenário fixo: pedra, fachada, árvore, telhado.
O homem da esquina fez sem querer o único gesto que a técnica pedia. Ele apoiou o pé, ficou parado enquanto o sapato era engraxado, e a prata teve tempo de acumular a luz refletida por aquele corpo. O engraxate, ocupado com as mãos, ficou meio dissolvido no contorno.
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Uma exposição longa não fotografa a rua, fotografa o que a rua tem de imóvel. O Boulevard du Temple de 1838 é o retrato de um cruzamento cheio de gente do qual só ficaram duas pessoas, e ficaram porque uma delas estava pagando pelo serviço da outra.
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A placa original passou às mãos do rei Ludwig I da Baviera e foi guardada em Munique, onde acabou danificada por uma tentativa de limpeza no século seguinte. O que circula hoje vem de reproduções feitas antes do estrago, e o quadro mais publicado é a cópia fotográfica do daguerreótipo, não a prata em si.
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A placa daguerreotipada é infinitamente mais precisa em sua representação do que qualquer pintura feita por mãos humanas.
Edgar Allan Poe, The Daguerreotype, Alexander's Weekly Messenger, 1840
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Nove minutos no Largo do Paço
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A corveta L'Orientale ancorou na baía de Guanabara em janeiro de 1840 com um passageiro que carregava o aparelho completo: câmera, placas, caixa de iodo, retorta de mercúrio. O abade Louis Compte, capelão de bordo, tinha aprendido o processo na França e vinha fazendo demonstrações nos portos da viagem.
No dia 17 de janeiro de 1840, o Jornal do Commercio publicou o relato de uma dessas demonstrações no centro do Rio. O texto descreve o aparelho voltado para o Largo do Paço e o Cais Pharoux, e registra que a imagem ficou pronta em menos de nove minutos, com detalhe de fachada, telha e mastro de embarcação.
Dom Pedro II, com quatorze anos, assistiu à demonstração. Em março do mesmo ano, ele comprou um equipamento daguerreotípico, o que o coloca entre os primeiros compradores brasileiros do aparelho e o torna o primeiro chefe de Estado do mundo a operar uma câmera com as próprias mãos.
O que travava um retrato
Nove minutos de pose ao sol servem para um cais e não servem para uma pessoa. Uma criança não fica parada, o olho pisca, a cabeça oscila, e o rosto sai como uma mancha clara sem traço. Por isso as primeiras imagens feitas no Brasil são de prédio, praça e navio ancorado.
A saída veio pelo aumento de luz e de sensibilidade. A objetiva calculada por Joseph Petzval em 1840 abriu muito mais luz que as lentes anteriores, e o uso de bromo junto com o iodo acelerou a placa. Somadas, as duas mudanças derrubaram a exposição de minutos para poucos segundos entre 1841 e 1842.
Só então o retrato de estúdio virou negócio. Apareceram o apoio de nuca em pedestal de ferro, o encosto de braço, a claraboia voltada para o norte e a cadeira com altura regulável, todos itens de mobiliário criados para segurar um corpo humano imóvel pelo tempo que a prata ainda exigia.
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A cara séria do retrato do século XIX não é temperamento de época. Sorriso não se sustenta por vinte segundos sem tremer, e a boca fechada era a única expressão que a química conseguia gravar com nitidez.
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O daguerreótipo nunca ficou barato como o papel que veio depois, mas dominou o retrato ocidental por quase duas décadas. Cada cliente saía do estúdio com uma peça única em estojo forrado, algo mais próximo de uma joia do que de uma foto no sentido atual.
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Ficaram reproduzidos com tal fidelidade, exatidão e minuciosidade que bem se via terem sido feitos pela própria mão da natureza.
Relato da demonstração do daguerreótipo, Jornal do Commercio, 1840
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