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O Emir em Três Vidros

Em Bukhara, em 1911, Prokudin-Gorsky expôs o emir Alim Khan três vezes seguidas, e o que se moveu entre as tomadas deixou rastro colorido

Alim Khan, emir de Bukhara, de pé com manto azul estampado, turbante branco, sabre e condecorações, retratado em cores em 1911.

Emir Alim Khan, Prokudin-Gorsky, Bukhara, 1911

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A 39 graus e 46 minutos de latitude norte, a pouco mais de 220 metros de altitude, Bukhara ocupa o centro do oásis do rio Zeravshan, cercada pelo deserto de Kyzylkum (areia vermelha, em uzbeque). Quem chegava de trem em 1911 enxergava primeiro o minarete Kalyan, torre de tijolo com cerca de 46 metros que por oito séculos serviu de farol às caravanas.

A cidade era a capital do Emirado de Bukhara, estado muçulmano da Ásia Central que desde 1868 vivia sob protetorado do Império Russo, arranjo que deixava o governo local de pé e entregava a política externa ao tsar. O emir cobrava impostos, julgava e mantinha guarda própria; São Petersburgo controlava a fronteira, o comércio de algodão e a ferrovia.

Desde janeiro de 1910, o trono pertencia a Said Mir Mohammed Alim Khan, então com 30 anos. Ele tinha estudado três anos numa escola militar de São Petersburgo, falava russo, usava uniforme de general do exército imperial nas visitas oficiais e manto de seda nas cerimônias da corte. Era o representante da dinastia Manghit, que governava Bukhara desde meados do século XVIII.

No mesmo período, um químico de 48 anos percorria o império com uma câmera de madeira feita sob encomenda, caixas de chapas de vidro e uma carta do tsar Nicolau II que mandava as autoridades locais abrir portas. Ele desceu em Bukhara com a missão de fotografar em cores tudo o que a Rússia governava.

O emir aceitou posar ao ar livre. Ficou de pé, com um manto azul estampado de flores, turbante branco, sabre curvo pendurado à cintura e uma fileira de condecorações russas e bukharenses no peito. Encarou a lente sem sorrir.

A câmera não fez uma foto só. Fez três, em sequência, na mesma chapa comprida de vidro, e o segredo do retrato mora no intervalo entre elas. A primeira seção abre esse intervalo.

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I  A Foto Histórica do Dia

I, Três tomadas para um manto azul

Serguei Mikhailovitch Prokudin-Gorsky, químico nascido em 1863 perto de Vladimir, a leste de Moscou, é o autor do retrato. Na câmera dele, a chapa de vidro era estreita e longa, montada num suporte que deslizava de lado. Cada posição do suporte deixava um terço da chapa atrás da lente.

Na frente de cada terço havia um filtro diferente: azul, verde e vermelho. O fotógrafo abria o obturador, fechava, empurrava a chapa, abria de novo. Saíam três negativos em preto e branco, cada um registrando quanto de uma só cor a cena refletia.

O manto do emir, por exemplo, sai claro no negativo do filtro azul e escuro nos outros dois. O turbante branco sai claro nos três. Nenhuma das três imagens tem cor; a cor mora na diferença entre elas.

O intervalo entre as tomadas

Para ver o resultado, Prokudin-Gorsky projetava as três imagens positivas numa tela, cada uma pela lente de um projetor triplo com o filtro da mesma cor. Sobrepostas com precisão, as três luzes se somavam e o manto voltava a ficar azul, a pele voltava a ficar morena, as medalhas voltavam a ficar douradas.

A sobreposição só funciona se nada mudou de lugar. Cada exposição pedia alguns segundos em luz de dia, e a troca de posição da chapa acrescentava outros tantos. Alim Khan, acostumado a cerimônias longas, ficou imóvel, e o rosto dele saiu nítido nas três tomadas.

O que não dependia de disciplina se mexeu. Uma dobra de tecido que o vento levantou, uma folha, um pé que mudou de apoio: cada um ocupou um lugar diferente em cada negativo. Na hora de somar, o objeto aparece três vezes, deslocado, e cada fantasma leva a cor do filtro que o registrou.

O emir parado saiu inteiro; o que se mexeu entre um filtro e outro saiu em três lugares, cada um com uma cor.

Nas composições digitais do retrato, esse deslocamento se vê como filetes de vermelho, verde ou azul nas bordas do que andou. Não são defeito de impressão nem pigmento no tecido. São a prova física de que o retrato levou segundos, e não uma fração de segundo, para ser feito.

O mesmo mecanismo explica por que nuvens e água, nas outras chapas da coleção, costumam aparecer com manchas coloridas: nada no céu fica parado por tanto tempo.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

II, Seda de ikat diante do tsar

Prokudin-Gorsky não inventou a separação em três cores; a teoria vinha do físico escocês James Clerk Maxwell, que a demonstrou em Londres em 1861. O russo aperfeiçoou a prática. Em 1902 estudou em Berlim com o químico alemão Adolf Miethe, que desenvolvia chapas sensíveis ao vermelho, a cor que as emulsões da época mal registravam.

Em maio de 1908, fotografou em cores o escritor Liev Tolstói na propriedade de Iasnaia Poliana. O retrato circulou em cartões-postais e deu fama ao método. No ano seguinte, apresentou as projeções coloridas à família imperial, e Nicolau II decidiu patrocinar o levantamento.

Um vagão como laboratório

O governo cedeu um vagão ferroviário adaptado para câmara escura (sala sem luz onde se revelam as chapas) e salvo-condutos para entrar em fábricas, mosteiros e palácios. Entre 1909 e 1915, Prokudin-Gorsky viajou dos Urais ao Cáucaso e à Ásia Central, sempre com o mesmo equipamento.

Em Bukhara, a novidade estava no tecido. O manto de Alim Khan era de ikat (seda cujos fios são tingidos antes de ir ao tear), técnica em que as manchas de cor se desfazem nas bordas. Nenhuma pintura oficial nem fotografia em preto e branco da corte tinha guardado aquelas cores com a fidelidade de uma medida química.

O retrato também mostra um arranjo de poder. As medalhas russas ao lado das bukharenses, o sabre e a pose de oficial dizem que o soberano local governava sob a tutela de São Petersburgo. A cor transforma o detalhe em informação: o azul do manto e o ouro das ordens imperiais aparecem lado a lado.

A chapa registrou, em 1911, um soberano da Ásia Central em cores que se mediam, e não em cores que um pintor escolhia.

Na época, quase ninguém viu o resultado como hoje o vemos. O método não produzia cópia colorida em papel com facilidade; as imagens viviam na tela das projeções e em poucas reproduções impressas. O retrato do emir ficou guardado como três imagens cinzentas numa placa de vidro.

A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que hoje guarda a coleção, resumiu assim o conjunto de chapas na exposição que dedicou a ele:

As fotografias oferecem um retrato vívido de um mundo perdido, o Império Russo às vésperas da Primeira Guerra Mundial e da revolução que viria.

Biblioteca do Congresso, exposição The Empire That Was Russia, 2001

 

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III  Depois da Foto

III, Do vagão ao arquivo de Washington

A revolução de 1917 derrubou o patrocínio. Prokudin-Gorsky deixou a Rússia em 1918, passou pela Noruega e pela Inglaterra e se instalou em Paris, onde abriu um estúdio com os filhos. Levou consigo a maior parte das chapas; parte delas ficou retida pelo novo governo.

Alim Khan perdeu o trono nove anos depois do retrato. Em setembro de 1920, o Exército Vermelho, sob o comando de Mikhail Frunze, tomou Bukhara, e o emir fugiu para o Afeganistão. Viveu o resto da vida em Cabul, no exílio, e morreu lá em 1944. Prokudin-Gorsky morreu em Paris no mesmo ano, semanas depois da libertação da cidade.

Em 1948, a Biblioteca do Congresso comprou dos herdeiros a coleção: 1.902 negativos de vidro e os álbuns de provas do fotógrafo. Cada chapa traz as três imagens empilhadas na vertical, uma sobre a outra, e a do emir segue no acervo da Divisão de Impressos e Fotografias. Por meio século, as chapas ficaram arquivadas quase sem uso público.

A cor montada por computador

Em 2000 e 2001, a Biblioteca digitalizou as chapas e montou versões coloridas, alinhando as três camadas em software. O fotógrafo Walter Frankhauser fez à mão as composições da exposição de 2001, corrigindo deslocamentos e contraste. As franjas que sobram nas bordas vêm do que se mexeu na cena, e nenhum alinhamento as elimina sem apagar informação.

O retrato do emir virou uma das imagens mais reproduzidas da coleção e o rosto de Alim Khan mais conhecido no mundo. Está no Wikimedia Commons em domínio público, como toda a coleção.

O que o retrato não responde

1O dia da sessão. A Biblioteca data a chapa de 1911 e nenhum diário do fotógrafo publicado fixa o mês ou o dia.
2O lugar exato. O fundo mostra apenas parede e porta, e nenhuma anotação de Prokudin-Gorsky identifica o palácio ou o pátio.
3Se o emir viu a projeção colorida. Nenhum documento conhecido registra Alim Khan diante da tela, e a pergunta fica aberta por falta de fonte.

Alguns segundos de imobilidade bastaram ao emir; o resto da cena não obedeceu, e o rastro dessa desobediência é o que prova a técnica.

Em Bukhara, a pouco mais de 220 metros de altitude, o minarete Kalyan continua de pé sobre o oásis do Zeravshan. Em Washington, a chapa de 1911 guarda Alim Khan três vezes, lado a lado, em cinza, e só a soma das três devolve o azul do manto que ele vestiu diante da lente.

“Se o emir tivesse piscado entre o filtro verde e o vermelho, de que cor os olhos dele sairiam na composição?”

 
 
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