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ED 013

O Beijo que Duas Câmeras Registraram

Em 14 de agosto de 1945, na Times Square, dois fotógrafos pegaram a mesma cena com segundos de diferença e destinos legais opostos

Marinheiro de uniforme escuro beijando uma moça de vestido branco no meio da Times Square, em Nova York, no dia do anúncio do fim da guerra, em 14 de agosto de 1945.

Kissing the War Goodbye, Victor Jorgensen, 1945

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Num cais de San Diego existe um marinheiro de 7,6 metros de altura inclinado sobre uma moça de vestido branco. A escultura se chama Unconditional Surrender, é de Seward Johnson, e turista nenhum passa por ela sem levantar o celular.

A peça tem ficha corrida jurídica. A empresa que administra o acervo de uma revista americana reclamou da semelhança com uma fotografia famosa, e a defesa do escultor foi curiosa: a referência não era aquela chapa, era outra, feita no mesmo instante por um militar em serviço.

A defesa se apoiava num detalhe verificável. Na tarde de 14 de agosto de 1945, em Times Square, dois homens com câmera apontaram para o mesmo casal, de posições diferentes, com poucos segundos entre um clique e outro.

Um deles trabalhava para uma revista privada, de Nova York, com contrato, pauta e arquivo próprio. O outro estava fardado, pago pelo contribuinte americano, cumprindo ordem de serviço da Marinha.

Por causa da folha de pagamento, e só por causa dela, o resultado do segundo caiu em domínio público no instante em que o obturador fechou. O do primeiro nasceu protegido e continua sendo licenciado por banco de imagem até hoje.

É o mesmo beijo, o mesmo casal, a mesma calçada, em duas condições jurídicas opostas. Uma versão você imprime em caneca, camiseta, capa de livro didático e cartaz de campanha sem pedir licença a ninguém.

A outra chega com tabela de preço, contrato de uso, prazo de veiculação e território definido. Quem escolhe entre as duas quase nunca escolhe pela composição: escolhe pela fatura.

A diferença não está no talento de quem disparou nem na qualidade do negativo. Está numa linha de lei americana escrita décadas antes, que ninguém em Times Square estava pensando naquela tarde.

Antes da lei, porém, houve uma multidão de dois milhões de pessoas, um anúncio de rádio às sete da noite e um homem de Leica andando de costas no meio do tumulto.

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I  A Foto Histórica do Dia

A Broadway com a Sétima às sete da noite

Era 14 de agosto de 1945, uma terça-feira. Às 19h desse dia, o presidente Harry Truman anunciou na Casa Branca a rendição do Japão, e o letreiro luminoso do prédio do New York Times, em Times Square, repetiu a frase em letras corridas para a rua inteira ler.

A praça encheu. As estimativas da época falam em cerca de dois milhões de pessoas circulando pela região naquela noite, entre marinheiros de licença, funcionárias de escritório saindo do expediente e famílias que desceram do metrô só para estar ali.

Alfred Eisenstaedt, fotógrafo húngaro-alemão da revista Life, estava no meio do tumulto com uma Leica IIIa. Ele não montou tripé nem procurou ponto alto: andava de costas pela calçada, olhando o que aparecia.

14 de agosto de 1945, Times Square. Duas câmeras, o mesmo casal, poucos segundos de diferença e dois destinos jurídicos que nunca mais se encontraram.

O que cada lente pegou

Segundo o próprio relato dele, um marinheiro vinha beijando toda mulher que cruzava o caminho, sem distinção de idade. Eisenstaedt disparou quatro vezes em sequência, na esperança de que uma das poses funcionasse.

A que funcionou tem o marinheiro de uniforme escuro dobrando a moça de branco para trás, com a Times Square em fuga ao fundo e a multidão fechando o enquadramento em profundidade. Ele não anotou o nome de ninguém, e a legenda saiu genérica.

A poucos metros dali estava o tenente Victor Jorgensen, fotógrafo da Marinha americana, em serviço. Ele viu a mesma cena de um ângulo mais baixo e mais à esquerda, e apertou o botão uma vez.

O quadro de Jorgensen é mais fechado. Perde a torre do Times, perde a perspectiva vertical dos letreiros e ganha o casal quase de corpo inteiro contra um fundo de gente. A composição é menos espetacular e mais direta.

A chapa da Marinha entrou no arquivo oficial com o número 80-G-377094 e o título Kissing the War Goodbye. Foi publicada no New York Times já em 15 de agosto de 1945, na cobertura da comemoração.

A da Life demorou mais. Saiu na edição de 27 de agosto de 1945, dentro de um caderno de fotos da celebração, sem chamada de capa e sem tratamento de obra-prima.

Nenhuma das duas nasceu famosa. As duas nasceram como registro de rua de uma noite em que todo mundo estava fotografando, e a fama viria décadas depois, de forma bem desigual.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O carimbo que separou as duas chapas

A fotografia de Jorgensen é obra de funcionário do governo americano no exercício do cargo. Pela lei de direito autoral dos Estados Unidos, obra assim não recebe proteção: nasce livre, para qualquer um usar.

A regra está no título 17 do código americano, na seção 105, e vale para o trabalho produzido por empregado federal dentro das funções dele. A Marinha pagava o salário de Jorgensen, a câmera era serviço, e o negativo virou documento público.

O caminho da chapa de Eisenstaedt foi o inverso. Ela nasceu como encomenda de uma revista privada, com o direito ficando na empresa, e passou por renovações de registro que estenderam a proteção década após década.

Hoje a imagem é comercializada por banco de imagem, com preço variável conforme uso, tiragem e território. Quem quer estampar uma camiseta, ilustrar um livro ou rodar um comercial precisa fechar contrato antes.

A consequência prática é uma divisão de território silenciosa. A versão paga domina a revista, a exposição de museu e o pôster oficial. A versão livre domina a enciclopédia aberta, o material escolar, o blog e a apresentação de sala de aula.

Onde a versão livre venceu

O Wikimedia Commons hospeda a chapa de Jorgensen justamente por ela ser de domínio público, e a partir dali a imagem se espalha em dezenas de idiomas sem que ninguém precise pedir permissão.

Cada derivação nova reforça o ciclo. Recorte, colorização, montagem, meme, capa de trabalho escolar: tudo se apoia na chapa que não cobra nada, porque a alternativa exige advogado e orçamento.

A briga da escultura de San Diego mostra o tamanho do problema. Quando surge dúvida sobre a origem visual de uma obra derivada, apontar para a chapa livre é defesa jurídica, não capricho estético.

Existe um efeito colateral pouco comentado no ofício. Fotógrafo de agência aprendeu a olhar para o mesmo evento sabendo que a versão gratuita do concorrente vai circular mais, e que circulação não é sinônimo de receita.

O contrário também vale. A chapa de Eisenstaedt ficou cara porque virou símbolo, e virou símbolo porque uma revista de grande tiragem a colocou no lugar certo, com curadoria e repetição ao longo dos anos.

As duas imagens vivem, portanto, de economias diferentes. Uma monetiza escassez, a outra monetiza presença. Ninguém em Times Square, naquela terça-feira, tinha a menor ideia de estar fundando as duas.

O que nenhuma das duas trouxe, em nenhum momento, foi o nome das pessoas dentro do quadro. Esse buraco levaria mais de meio século para começar a fechar.

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III  Depois da Foto

Os nomes que demoraram meio século

Eisenstaedt nunca anotou quem estava na foto. A legenda original tratava o casal como marinheiro e enfermeira, e a suposição da profissão vinha só do vestido branco, roupa de trabalho de muita gente naquela época.

A moça de branco não era enfermeira. Chamava-se Greta Zimmer, tinha 21 anos e trabalhava como assistente de dentista num consultório a poucas quadras dali, com o uniforme claro do serviço.

Ela era austríaca, de Viena, e tinha chegado aos Estados Unidos em 1939, com as irmãs, fugindo da perseguição aos judeus. Os pais dela ficaram na Europa e não sobreviveram à guerra que estava sendo comemorada na rua.

Greta contou depois que saiu do consultório porque ouviu falar do letreiro. Queria confirmar com os próprios olhos a notícia que, para ela, tinha peso bem específico.

Não foi minha escolha ser beijada. O rapaz simplesmente veio, agarrou e beijou.

Greta Zimmer Friedman, depoimento ao Veterans History Project, Library of Congress, 2005

O marinheiro era George Mendonsa, do contratorpedeiro USS The Sullivans, em licença na cidade. Ele estava num encontro com Rita Petry, que aparece sorrindo ao fundo do quadro e viraria mulher dele pouco depois.

Mendonsa tinha visto enfermeiras trabalhando no resgate de feridos a bordo de um navio atingido no Pacífico. Segundo ele, ao ver o vestido branco na calçada, com o anúncio recém-saído do rádio e umas doses a mais, agiu sem pensar.

As identificações demoraram porque não havia registro nenhum. Ao longo das décadas, várias pessoas se apresentaram como o marinheiro ou como a moça, e a revista chegou a publicar chamadas pedindo que os protagonistas aparecessem.

Duas candidaturas ficaram famosas e continuam citadas: uma professora aposentada da Califórnia e um policial aposentado de Nova York, ambos com histórias detalhadas e nenhuma prova definitiva.

A confirmação veio por caminho técnico. Pesquisadores compararam marcas de nascença, cicatrizes, tatuagem, proporção corporal e sombra do horário com fotos antigas dos candidatos, e o par Mendonsa e Zimmer foi o que resistiu ao teste.

Greta se casou, virou Greta Zimmer Friedman, criou família em Maryland e viveu até 2016, aos 92 anos. Mendonsa voltou para Rhode Island, foi pescador a vida inteira, ficou casado com Rita por mais de setenta anos e viveu até 2019, aos 95.

A leitura da cena mudou junto com a época. O que a década de 1940 leu como alegria de rua, o leitor de hoje lê com um olho no consentimento, porque a própria mulher da foto disse em depoimento que não escolheu aquele beijo.

A estátua de San Diego, réplicas em outras cidades, selo, camiseta e cartaz continuam repetindo a silhueta. Quase todos usam, por segurança jurídica, o ângulo do fotógrafo fardado, não o da revista.

As duas chapas mostram o mesmo par de corpos por um segundo e não contam nada do resto: a fuga de Viena, o navio no Pacífico, o encontro interrompido e os setenta anos de vida que vieram depois do clique.

“Se a mesma cena da sua vida fosse registrada por duas câmeras, qual das duas versões o mundo escolheria guardar?”

 
 
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APorque foi publicada primeiro, em 15 de agosto de 1945
BPorque ele era funcionário da Marinha, pago pelo governo, em serviço
CPorque o direito autoral da época expirava em poucos dias
DPorque a revista Life abriu mão do registro voluntariamente

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