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Eisenstaedt nunca anotou quem estava na foto. A legenda original tratava o casal como marinheiro e enfermeira, e a suposição da profissão vinha só do vestido branco, roupa de trabalho de muita gente naquela época.
A moça de branco não era enfermeira. Chamava-se Greta Zimmer, tinha 21 anos e trabalhava como assistente de dentista num consultório a poucas quadras dali, com o uniforme claro do serviço.
Ela era austríaca, de Viena, e tinha chegado aos Estados Unidos em 1939, com as irmãs, fugindo da perseguição aos judeus. Os pais dela ficaram na Europa e não sobreviveram à guerra que estava sendo comemorada na rua.
Greta contou depois que saiu do consultório porque ouviu falar do letreiro. Queria confirmar com os próprios olhos a notícia que, para ela, tinha peso bem específico.
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Não foi minha escolha ser beijada. O rapaz simplesmente veio, agarrou e beijou.
Greta Zimmer Friedman, depoimento ao Veterans History Project, Library of Congress, 2005
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O marinheiro era George Mendonsa, do contratorpedeiro USS The Sullivans, em licença na cidade. Ele estava num encontro com Rita Petry, que aparece sorrindo ao fundo do quadro e viraria mulher dele pouco depois.
Mendonsa tinha visto enfermeiras trabalhando no resgate de feridos a bordo de um navio atingido no Pacífico. Segundo ele, ao ver o vestido branco na calçada, com o anúncio recém-saído do rádio e umas doses a mais, agiu sem pensar.
As identificações demoraram porque não havia registro nenhum. Ao longo das décadas, várias pessoas se apresentaram como o marinheiro ou como a moça, e a revista chegou a publicar chamadas pedindo que os protagonistas aparecessem.
Duas candidaturas ficaram famosas e continuam citadas: uma professora aposentada da Califórnia e um policial aposentado de Nova York, ambos com histórias detalhadas e nenhuma prova definitiva.
A confirmação veio por caminho técnico. Pesquisadores compararam marcas de nascença, cicatrizes, tatuagem, proporção corporal e sombra do horário com fotos antigas dos candidatos, e o par Mendonsa e Zimmer foi o que resistiu ao teste.
Greta se casou, virou Greta Zimmer Friedman, criou família em Maryland e viveu até 2016, aos 92 anos. Mendonsa voltou para Rhode Island, foi pescador a vida inteira, ficou casado com Rita por mais de setenta anos e viveu até 2019, aos 95.
A leitura da cena mudou junto com a época. O que a década de 1940 leu como alegria de rua, o leitor de hoje lê com um olho no consentimento, porque a própria mulher da foto disse em depoimento que não escolheu aquele beijo.
A estátua de San Diego, réplicas em outras cidades, selo, camiseta e cartaz continuam repetindo a silhueta. Quase todos usam, por segurança jurídica, o ângulo do fotógrafo fardado, não o da revista.
As duas chapas mostram o mesmo par de corpos por um segundo e não contam nada do resto: a fuga de Viena, o navio no Pacífico, o encontro interrompido e os setenta anos de vida que vieram depois do clique.
“Se a mesma cena da sua vida fosse registrada por duas câmeras, qual das duas versões o mundo escolheria guardar?”
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