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O Almoço na Viga que Ninguém Assinou
Em 20 de setembro de 1932, três fotógrafos subiram ao 69º andar do Rockefeller Center e a viga com onze operários saiu no jornal sem autor
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Lunch atop a Skyscraper, autor não creditado, 1932
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Numa das maiores agências de imagem do mundo, a ficha de uma das fotografias mais reproduzidas do século vinte tem um campo vazio. No lugar do nome de quem apertou o botão, a linha de crédito informa autoria não identificada.
A cena é reconhecível em qualquer continente. Onze operários sentados lado a lado numa viga de aço, almoçando, fumando, conversando, com Manhattan aberta centenas de metros abaixo dos sapatos e nenhum cinto de segurança dentro do quadro.
A imagem está em pôster de quarto de estudante, parede de bar, capa de caderno, caneca, camiseta e cartão-postal. É uma das fotografias mais licenciadas do planeta, e a licença é cobrada por quem guarda o negativo, não por quem o produziu.
Três nomes aparecem nos registros de fotógrafos que trabalharam naquele canteiro naquele dia: Charles C. Ebbets, Thomas Kelley e William Leftwich. Nenhum arquivo consegue provar qual dos três fez este quadro específico.
Um deles chegou a receber o crédito de forma oficial, depois que a família contratou pesquisa própria e levou documentos ao acervo. O reconhecimento durou pouco e a ficha voltou para a caixa da autoria desconhecida.
O negativo também não está em nenhuma redação. Ele desceu para uma antiga mina de calcário na Pensilvânia, dezenas de metros abaixo do solo, dentro de câmara com temperatura e umidade controladas, ao lado de milhões de outras chapas compradas em bloco.
O ano do disparo ajuda a entender o resto. Em 1932 a Depressão americana chegou ao fundo do poço, com cerca de um quarto da força de trabalho do país sem emprego, e o canteiro que produziu a fotografia era um dos maiores empregadores privados de Nova York.
O ponto de partida é o dia do disparo: setembro de 1932, o 69º andar de um prédio ainda sem paredes e uma viga de aço pendurada sobre a Sexta Avenida, com três câmeras autorizadas a subir junto.
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I A Foto Histórica do Dia
Onze homens numa viga a 256 metros
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Um prédio a meses da inauguração, um departamento de divulgação com andares inteiros para alugar e três fotógrafos com autorização de acesso ao topo da estrutura. Aqui está a ficha do disparo, do andar exato ao dia em que o quadro saiu impresso.
RCA Building, Rockefeller Center, Nova York, 20 de setembro de 1932, 69º andar, cerca de 256 metros acima da rua. O registro foi feito em chapa de grande formato, e toda cópia que circula hoje descende desse negativo.
O complexo estava em obra desde 1930. O RCA Building era o prédio mais alto do conjunto, com setenta andares, e abriria as portas em maio de 1933, ainda com boa parte dos escritórios sem inquilino.
Naquele 20 de setembro, três fotógrafos subiram à estrutura. Charles C. Ebbets tinha sido contratado no mesmo ano como diretor fotográfico do projeto. Thomas Kelley e William Leftwich estavam no canteiro pela mesma razão, produzir imagem para a imprensa.
Os onze homens na viga não eram atores. Eram operários da montagem de aço do próprio canteiro, muitos deles imigrantes recém-chegados, e passavam o dia inteiro naquela altura.
A altura, portanto, é verdadeira. Não havia cinto, não havia rede e não havia truque de perspectiva: a viga estava suspensa no vazio, e a cidade lá embaixo é a cidade real, fotografada de cima sem linha de horizonte.
O que foi montado é a hora do almoço. Os homens foram posicionados na viga, sentados na ordem que a câmera pedia, com sanduíche, garrafa e cigarro na mão, e a sessão rendeu vários quadros seguidos.
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A altura não foi encenada e o almoço foi. Os onze trabalhavam ali todos os dias, e naquela hora estavam posando para um pedido do departamento de divulgação.
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Outros quadros da mesma sessão sobreviveram. Num deles os mesmos homens aparecem deitados sobre a viga, fingindo dormir, com o vazio da rua correndo por baixo das costas.
A fotografia foi publicada no New York Herald Tribune de 2 de outubro de 1932, no suplemento fotográfico de domingo. Saiu grande, com legenda descrevendo o almoço no alto do arranha-céu, e sem linha de crédito.
A ausência de assinatura não foi descuido de um editor apressado. Material entregue de graça por departamento de imprensa entrava assim na página, sem nome de fotógrafo, porque ninguém do outro lado cobrava crédito.
O padrão só virou problema setenta anos depois, quando a imagem passou a valer dinheiro de verdade e alguém precisou dizer, por escrito, quem tinha feito o quadro.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Um almoço encenado para alugar andares
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A fotografia não foi feita para registrar a coragem de onze operários. Foi feita para vender escritório vazio no pior ano da Depressão, e funcionou tão bem que os jornais a publicaram como notícia, de graça, na melhor página do domingo.
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O problema comercial era grande. Nova York tinha milhões de metros quadrados de escritório desocupado em 1932, e o complexo precisava fechar contratos de locação antes mesmo de terminar a obra.
A resposta veio do escritório de imprensa do empreendimento, dirigido por Merle Crowell, jornalista de revista contratado justamente para transformar canteiro em pauta. A ideia era simples e barata: em vez de comprar anúncio, entregar fotografia forte às redações.
O jornal ganhava uma página de impacto sem custo de produção. O empreendimento ganhava capa, nome repetido e endereço fixado na cabeça do leitor, sem pagar um centavo de espaço publicitário.
A conta fechou. A imagem rodou o país, voltou em revistas, virou referência de um gênero inteiro de fotografia de canteiro de obra e continua sendo o retrato mais conhecido da construção de Nova York.
A versão que se repete diz que a foto documenta a bravura anônima de quem ergueu a cidade. O arquivo diz outra coisa. A sessão estava na agenda de um departamento de divulgação, os homens foram posicionados e o almoço aconteceu na hora que a câmera pediu.
O que a fotografia documenta com precisão é a competência de um escritório de imprensa em 1932. A coragem dos operários é real, mas ela está no dia comum de trabalho deles, não no quadro montado para o jornal.
O mérito da imagem é de composição. A viga corta o quadro na horizontal, onze figuras se alinham nela como notas numa pauta, e o fundo se dissolve sem horizonte, o que impede o olho de calcular a distância até o chão.
O desenho sobrevive a qualquer redução. Funciona em selo, em capa de caderno e em painel de seis metros, e a robustez do desenho explica como a imagem atravessou noventa anos de reprodução sem perder força.
E aqui entra a diferença que explica o dinheiro. Nesta história não falta dono, falta autor. A chapa teve proprietário desde o primeiro dia, e o proprietário mudou de mãos algumas vezes ao longo do século.
O negativo acabou dentro do Arquivo Bettmann, montado por Otto Bettmann, alemão que chegou aos Estados Unidos em 1935 com duas malas de negativos e passou décadas comprando fototecas de jornal em bloco, incluindo a da United Press International em 1981.
Quem cobra pela reprodução é quem tem a chave do cofre, não quem apertou o botão. E no caso desta fotografia o cofre não é figura de linguagem.
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