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O Afogado de Bayard, a Primeira Foto Encenada

Em Paris, 1840, Hippolyte Bayard posou de cadáver para cobrar a glória e o dinheiro entregues a Daguerre

Hippolyte Bayard, de tronco nu e olhos fechados, sentado e tombado contra uma parede, posando como um afogado no necrotério

Autorretrato como afogado, Hippolyte Bayard, 1840

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Na margem sul da Île de la Cité, a uns 300 metros da fachada de Notre-Dame, funcionava em 1840 o necrotério de Paris. Da calçada do quai du Marché-Neuf, qualquer passante via, através de uma vidraça, os corpos achados no Sena.

Eles ficavam deitados em lajes de pedra inclinadas, nus, com um pano sobre o quadril. As roupas pendiam de ganchos acima de cada laje, para ajudar alguém a reconhecer o morto pelo casaco ou pelo sapato.

A sala servia à polícia. Um corpo sem identidade ficava exposto por dias, à espera de um parente que o reclamasse. Os afogados do rio enchiam as lajes, e a vidraça atraía também quem não procurava ninguém: operários na hora do almoço, mães com crianças, turistas.

Na mesma cidade, a imagem fixada pela luz era a novidade do momento. Um ano antes, o Estado francês tinha comprado o daguerreótipo, uma placa de cobre prateada que guardava a cena em detalhe fino, e oferecido o processo ao mundo, sem patente.

Por trás da festa havia um ressentido. Hippolyte Bayard, funcionário do Ministério das Finanças, chegara a imagens próprias em papel, sem placa de metal, e as mostrara em público antes do anúncio oficial do daguerreótipo. Recebeu elogios, uma ajuda pequena e o silêncio.

O processo dele dava imagens mais suaves que as de Daguerre, sem o brilho de espelho do metal, e custava menos. Faltou quem apostasse nele: a Academia de Ciências já tinha escolhido o vencedor, e o governo seguiu a escolha de Arago, o cientista que comandava a Academia.

Bayard juntou as duas cenas da cidade. Pegou a vidraça do quai du Marché-Neuf e a pôs dentro do próprio ateliê, com ele mesmo no papel do corpo sem dono.

A foto do topo desta edição saiu dessa montagem. Não mostra um crime nem um acidente: mostra um homem vivo, de olhos fechados, fingindo ter saído do Sena havia dias.

A seção I descreve a imagem, o processo que a produziu e o texto que Bayard escreveu atrás dela.

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I  A Foto Histórica do Dia

O cadáver de olhos fechados

A foto mostra Hippolyte Bayard, então com 39 anos, sentado e tombado para trás contra uma parede, o tronco nu, um pano claro cobrindo o corpo da cintura para baixo. A cabeça pende para a direita, os olhos estão fechados e as mãos repousam sobre o colo, sem força.

Não há laje, vidraça nem roupa no gancho. Bayard montou o necrotério só com a pose: o corpo largado, a pele exposta, o rosto sem expressão. Quem conhecia a sala do quai entendia a referência num relance.

O positivo direto

A imagem saiu de um processo que o próprio Bayard criou, o positivo direto (a foto já nasce com os claros e os escuros no lugar, sem negativo). Cada folha era única, como a placa de Daguerre, mas feita em papel comum. O método tinha quatro etapas:

1. A folha recebia cloreto de prata e escurecia por inteiro ao sol.

2. Em seguida, ia para um banho de iodeto de potássio e entrava úmida na câmera.

3. A luz da cena clareava o papel onde batia, numa exposição de muitos minutos.

4. Um banho de hipossulfito de sódio, o fixador da época, segurava a imagem.

A exposição longa explica a pose. Um morto não se mexe, e um homem fingindo de morto também não precisa piscar. Bayard escolheu o único papel em que ficar parado por minutos parecia natural.

O verso escrito à mão

No verso de uma das cópias, Bayard escreveu um texto em francês com a própria letra e a data 18/10/1840. É a primeira legenda de ficção da fotografia, e começa como um aviso de necrotério:

“O cadáver que os senhores veem aqui é o do senhor Bayard, inventor do processo cujos resultados maravilhosos acabam de ver. O governo, que deu demais ao senhor Daguerre, disse que nada podia fazer pelo senhor Bayard, e o infeliz se afogou.”

O texto segue no mesmo tom. Conta que o inventor está no necrotério há vários dias, que ninguém o reconheceu nem o reclamou, e pede ao visitante que passe logo, porque o rosto e as mãos do senhor já começam a apodrecer.

A foto montou um processo contra o Estado: o corpo é a vítima, o verso é a acusação, e o réu é o governo francês.

Na cópia, o rosto e as mãos saem bem mais escuros que o peito. A explicação mais aceita entre os historiadores é a pele queimada de quem passava horas ao sol com as folhas expostas no jardim. Bayard usou o contraste a favor da piada e o chamou de decomposição.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A câmera aprendeu a fingir

Em 1839, Paris assistiu a uma disputa de inventores pela mesma glória. Em 24 de junho, Bayard expôs cerca de 30 fotos em papel num leilão beneficente, a primeira exposição pública de fotografias de que se tem registro.

Semanas antes, ele mostrara as provas a François Arago, físico, deputado e secretário da Academia de Ciências. Arago apoiava Louis Daguerre e pediu a Bayard que adiasse a divulgação do método.

A conta da lei de 1839

Em 19 de agosto, Arago apresentou o daguerreótipo numa sessão conjunta da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes. A lei francesa de 7 de agosto de 1839 já garantia a Daguerre uma pensão vitalícia de 6.000 francos por ano, e a Isidore Niépce, filho do pioneiro Nicéphore Niépce, outra de 4.000.

Bayard recebeu 600 francos do Ministério do Interior, uma vez só, para comprar equipamento melhor. Foi contra essa diferença que ele armou a pose do afogado.

Bayard perdeu a disputa pelo dinheiro e ganhou outra, mais duradoura: provou que a câmera podia contar uma história inventada com cara de documento.

A ficção entra na foto

Até ali, a fotografia era vendida como cópia exata do real, desenhada pela própria luz, sem mão humana no meio. O afogado de Bayard virou essa promessa do avesso: um homem vivo, posando de morto, com uma legenda falsa no verso.

Também está entre os primeiros autorretratos da fotografia. O americano Robert Cornelius se fotografou na Filadélfia nos últimos meses de 1839, encarando a lente. Bayard fez outro movimento e criou um personagem para si.

Nas décadas seguintes, a encenação virou gênero. O sueco Oscar Rejlander montou Os Dois Caminhos da Vida em 1857, juntando 32 negativos numa cena só. O inglês Henry Peach Robinson compôs Fading Away (Desvanecendo), em 1858, com cinco negativos e uma moça doente cercada pela família.

A reação dos críticos

Nem todo mundo gostou da nova arte. Charles Baudelaire a atacou no ensaio O Público Moderno e a Fotografia, escrito sobre o Salão de 1859:

“A indústria fotográfica tornou-se o refúgio de todos os pintores fracassados, mal dotados ou preguiçosos demais para concluir os estudos.”

O alvo do poeta eram os retratistas de estúdio, que cobravam caro para imitar a pintura com cenários de papelão e poses de salão.

Para Baudelaire, a câmera devia ficar como serva humilde das ciências e das artes, registrando sem opinar. O afogado de 1840 já tinha desmentido a tese: a foto podia ironizar, protestar e inventar, quase duas décadas antes do ensaio.

 

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III  Depois da Foto

O inventor voltou ao arquivo

Hippolyte Bayard não se afogou nem largou a câmera. Seguiu no Ministério das Finanças e fotografou nas horas livres por mais de duas décadas, sempre em Paris e nos arredores.

Trocou o positivo direto pelo calótipo do inglês William Henry Fox Talbot, um negativo em papel que permitia tirar várias cópias da mesma imagem. Depois passou ao negativo de vidro coberto de albumina, a clara de ovo usada para prender a prata.

Os moinhos e o jardim

Fotografou os moinhos de Montmartre, as casas novas do bairro de Batignolles, o próprio jardim, pilhas de vasos e ferramentas arrumadas como natureza-morta. Várias dessas cópias estão hoje no Metropolitan Museum, de Nova York, e no Getty, de Los Angeles.

A Missão Heliográfica

Em 1851, a Comissão dos Monumentos Históricos escolheu cinco fotógrafos para registrar igrejas, castelos e pontes da França: Édouard Baldus, Henri Le Secq, Gustave Le Gray, Auguste Mestral e Bayard. Ele recebeu a Normandia.

Das imagens normandas dele quase nada chegou aos arquivos da comissão. Os historiadores não sabem ao certo o motivo. Bayard usava negativo de vidro, mais frágil e lento de copiar, e nenhum documento da época registra a entrega do lote.

O homem que encenou o próprio afogamento por falta de reconhecimento terminou entre os fundadores oficiais da fotografia francesa.

As sociedades de fotografia

Ainda em 1851, Bayard esteve entre os criadores da Sociedade Heliográfica, o primeiro clube de fotógrafos do mundo. Em 1854, ajudou a fundar a Sociedade Francesa de Fotografia, que existe até hoje e guarda o maior conjunto das obras dele, com a cópia do afogado.

Durante 130 anos, os manuais contaram a invenção da fotografia com dois nomes, Daguerre e Talbot. Nas últimas décadas, exposições e catálogos da Sociedade Francesa de Fotografia devolveram Bayard ao terceiro lugar da história, com o papel de pioneiro do papel e da encenação.

O necrotério do quai du Marché-Neuf fechou em 1864 e se mudou para trás de Notre-Dame, na ponta leste da ilha. O afogado de papel nunca passou pela vidraça dele: segue numa caixa de arquivo em Paris, com o rosto escurecido e a acusação no verso. Bayard, por sua vez, deixou a cidade na velhice e foi viver longe do Sena.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em qual cidade Hippolyte Bayard passou os últimos anos, longe de Paris?

 
 
Quiz da edição

Pela lei francesa de 1839 que recompensou os inventores da fotografia, quanto Hippolyte Bayard recebeu do Ministério do Interior para comprar equipamento melhor?

A6.000 francos por ano, vitalícios, como Daguerre
B4.000 francos por ano, vitalícios, como Isidore Niépce
C600 francos, pagos uma única vez
D1.200 francos, divididos em duas parcelas anuais

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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