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Em 1839, Paris assistiu a uma disputa de inventores pela mesma glória. Em 24 de junho, Bayard expôs cerca de 30 fotos em papel num leilão beneficente, a primeira exposição pública de fotografias de que se tem registro.
Semanas antes, ele mostrara as provas a François Arago, físico, deputado e secretário da Academia de Ciências. Arago apoiava Louis Daguerre e pediu a Bayard que adiasse a divulgação do método.
A conta da lei de 1839
Em 19 de agosto, Arago apresentou o daguerreótipo numa sessão conjunta da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes. A lei francesa de 7 de agosto de 1839 já garantia a Daguerre uma pensão vitalícia de 6.000 francos por ano, e a Isidore Niépce, filho do pioneiro Nicéphore Niépce, outra de 4.000.
Bayard recebeu 600 francos do Ministério do Interior, uma vez só, para comprar equipamento melhor. Foi contra essa diferença que ele armou a pose do afogado.
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Bayard perdeu a disputa pelo dinheiro e ganhou outra, mais duradoura: provou que a câmera podia contar uma história inventada com cara de documento.
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A ficção entra na foto
Até ali, a fotografia era vendida como cópia exata do real, desenhada pela própria luz, sem mão humana no meio. O afogado de Bayard virou essa promessa do avesso: um homem vivo, posando de morto, com uma legenda falsa no verso.
Também está entre os primeiros autorretratos da fotografia. O americano Robert Cornelius se fotografou na Filadélfia nos últimos meses de 1839, encarando a lente. Bayard fez outro movimento e criou um personagem para si.
Nas décadas seguintes, a encenação virou gênero. O sueco Oscar Rejlander montou Os Dois Caminhos da Vida em 1857, juntando 32 negativos numa cena só. O inglês Henry Peach Robinson compôs Fading Away (Desvanecendo), em 1858, com cinco negativos e uma moça doente cercada pela família.
A reação dos críticos
Nem todo mundo gostou da nova arte. Charles Baudelaire a atacou no ensaio O Público Moderno e a Fotografia, escrito sobre o Salão de 1859:
“A indústria fotográfica tornou-se o refúgio de todos os pintores fracassados, mal dotados ou preguiçosos demais para concluir os estudos.”
O alvo do poeta eram os retratistas de estúdio, que cobravam caro para imitar a pintura com cenários de papelão e poses de salão.
Para Baudelaire, a câmera devia ficar como serva humilde das ciências e das artes, registrando sem opinar. O afogado de 1840 já tinha desmentido a tese: a foto podia ironizar, protestar e inventar, quase duas décadas antes do ensaio.
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