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As Fotos Que Saíram de um Leilão de Guarda-Móveis

Em 2007, um lote de negativos arrematado num leilão de Chicago devolveu à rua uma obra que ficou anos travada na vara de sucessões de Illinois

Meninos parados na calçada em frente a um mercado A&P no South Side de Chicago, à espera de trabalho carregando compras, fotografados por Russell Lee para a Farm Security Administration em abril de 1941.

Rua do South Side de Chicago, Russell Lee, 1941

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Portage Park fica a doze quilômetros a noroeste do Loop, na ponta da cidade onde a Milwaukee Avenue corta o traçado quadriculado de Chicago. Num galpão de leilões do bairro, em 2007, foi a lance o conteúdo de um box de guarda-móveis com aluguel atrasado: caixas de papelão, malas, recibos, sacolas de roupa e, no meio da pilha, milhares de negativos e rolos de filme que ninguém tinha revelado.

John Maloof, corretor de imóveis de 26 anos, estava ali por um motivo estreito. Ele montava um livro de fotos antigas do próprio bairro e queria fachadas, calçadas e vitrines dos anos 1950. Levou um dos lotes por cerca de 380 dólares, valor que ele repete no documentário Finding Vivian Maier, de 2013. As fachadas quase não apareceram nos negativos.

O acervo do box não saiu inteiro numa única mão. Outros compradores levaram partes do mesmo material naquele leilão, entre eles Ron Slattery e Randy Prow, e Slattery chegou a publicar algumas imagens na internet em 2008, sem nenhuma repercussão. Os negativos de Maloof ficaram guardados num armário por quase dois anos.

O que voltava em cada tira de filme era retrato de rua feito com câmera de visor de cintura, na altura do peito, olhando gente de frente na calçada. Havia um nome escrito à mão num envelope de laboratório, Vivian Maier, e uma busca por ele em 2009 devolveu uma nota publicada dias antes no Chicago Tribune pelos três irmãos que ela tinha criado como babá no North Shore.

A imagem que abre esta edição seguiu caminho oposto. Ela é uma rua de Chicago fotografada em abril de 1941 por um funcionário do governo federal, catalogada, legendada e depositada num arquivo público no mesmo ano em que foi feita, sem jamais depender de um box de aluguel para chegar até aqui.

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I  A Foto Histórica do Dia

Meninos na porta do mercado A&P

Em abril de 1941, Russell Lee parou numa esquina do South Side de Chicago e fotografou meninos encostados na fachada de um mercado da rede A&P. Eles esperavam serviço: carregar as compras dos clientes até em casa por alguns centavos. A câmera está na altura dos olhos, a rua aparece atrás, e ninguém na cena posa.

Lee trabalhava para a Farm Security Administration, a agência federal americana que mantinha uma equipe de fotógrafos em campo desde 1935. A tarefa original era documentar a pobreza rural para sustentar o programa de crédito agrícola. Em 1941, a mesma equipe já cobria cidade industrial, cortiço, fila de emprego e bairro negro do Norte.

O negativo saiu do laboratório com legenda datilografada, data, local e nome do fotógrafo, e entrou direto no arquivo da agência em Washington. O conjunto migrou depois para a Library of Congress, que hoje descreve o arquivo FSA e OWI como algo em torno de 175 mil negativos em preto e branco, disponíveis em domínio público.

Por que uma foto de rua sobrevive

Uma fotografia atravessa o tempo por dois motivos bem prosaicos: alguém pagou para guardá-la e alguém escreveu ao lado dela quem fez, quando e onde. A foto de Lee tem as duas garantias desde o primeiro dia, porque o empregador dela era um arquivo.

O acervo do box de Portage Park não tinha nenhuma das duas. Nenhuma legenda, nenhuma instituição pagando a conta, nenhum registro de autoria além de um nome manuscrito em envelope de revelação. A permanência dependia de um aluguel mensal que parou de ser pago.

Um arquivo público custa dinheiro de contribuinte e devolve o negativo com nome, data e endereço colados nele. Um armário alugado custa o mesmo dinheiro todo mês e, no dia em que a mensalidade falha, entrega o acervo inteiro ao maior lance de um sábado de manhã.

Roy Stryker, o economista que dirigiu a seção fotográfica da FSA, tratava o conjunto como um só objeto e insistia que o valor estava na soma, não na imagem isolada. Ele chamava o material de arquivo, nunca de coleção de autor, e queria que fosse consultado por jornalista, professor e político.

As faces, para mim, eram a parte mais significativa do arquivo.

Roy Stryker, In This Proud Land, 1973

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O armário que virou sala de museu

Em outubro de 2009, Maloof digitalizou um punhado de negativos do lote, montou um blog e postou o link num grupo de fotografia de rua na internet, pedindo opinião sobre o que tinha comprado. A resposta veio em horas e não parou mais. O material saiu do armário e passou a ser tratado como obra.

A partir daí a escalada foi rápida. O Chicago Cultural Center abriu em janeiro de 2011 a primeira exposição grande do acervo. No mesmo ano saiu o livro Vivian Maier: Street Photographer, pela editora powerHouse. O documentário Finding Vivian Maier, dirigido por Maloof e Charlie Siskel, estreou em 2013 e concorreu ao Oscar de longa documental em 2015.

Maloof passou a informar um acervo acima de cem mil negativos entre o que comprou e o que recomprou dos outros arrematantes daquele leilão, somando ainda filmes em Super 8, gravações em fita e correspondência. A maior parte desse material nunca tinha sido ampliada em papel por quem apertou o botão.

O problema de editar a obra de alguém que não editou

Fotógrafo de rua com carreira publicada deixa pistas do próprio critério: a folha de contato com marca de lápis, a ampliação escolhida, a sequência de livro. O acervo de Chicago tinha rolo sem revelar às centenas, o que significa que boa parte das imagens hoje famosas nunca passou pelo olho de quem as fez.

Quem seleciona, corta e amplia passa a decidir o que a obra é. Curadores e críticos levantaram a questão desde a primeira exposição, e ela continua aberta: cada recorte publicado depois de 2009 é uma escolha de terceiros apresentada como se fosse do autor.

O leilão de 2007 mudou o preço de mercado de acervo órfão. Depois de Chicago, negociante de fotografia passou a acompanhar leilão de guarda-móveis e sótão de espólio como quem acompanha catálogo de casa de arte, e museu americano voltou a abrir caixa de amador que estava no depósito havia décadas.

Uma gravação em fita feita pela própria fotógrafa foi usada no documentário de 2013 e virou a frase mais citada do caso. Ela fala de rodízio, de espaço que se abre quando alguém sai, e a leitura óbvia é que a autora não contava com museu nenhum.

Nada foi feito para durar para sempre. Temos que abrir espaço para outras pessoas. É uma roda: você entra, tem que ir até o fim, e então outra pessoa tem a mesma oportunidade e vai até o fim.

Vivian Maier, gravação em fita usada em Finding Vivian Maier, 2013

 

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III  Depois da Foto

Cinco anos parados na vara de sucessões

A fotógrafa saiu de cena em abril de 2009, aos 83 anos, sem testamento. Pela lei de Illinois, o direito patrimonial sobre a obra não acompanha quem comprou o negativo em leilão: ele vai para os herdeiros do autor, ainda que ninguém saiba onde estão. Quem arrematou o lote levou o objeto físico e nada mais.

Maloof tentou fechar o buraco pelo caminho civil. Contratou pesquisa genealógica na França, região de origem da família materna, localizou um primo em segundo grau chamado Sylvain Jaussaud e comprou dele a cessão dos direitos em 2014, para poder licenciar imagem, publicar livro e montar exposição com segurança.

A construção durou meses. Ainda em 2014, o advogado e fotógrafo David Deal peticionou na vara de sucessões do condado de Cook em nome de outro parente possível, apontando que a linha francesa tinha mais de um ramo vivo. O administrador público do condado assumiu o espólio e o caso virou disputa formal.

O que trava quando a autoria fica em aberto

Com o espólio sob administração judicial, exposições e licenciamentos passaram a andar sob risco jurídico, e galeria em Illinois recuou de mostras já programadas. As imagens continuavam circulando em livro e em tela fora do estado, enquanto a titularidade ficava suspensa. O acordo entre as partes só chegou em 2016.

1Confirmar a autoria com documento físico do próprio material: envelope de laboratório, anotação em folha de contato, marca de revelação com data.
2Mapear a linha sucessória do autor antes de licenciar qualquer imagem, porque a compra do negativo transfere o suporte, não o direito de publicar.
3Guardar recibo do leilão, foto do lote fechado e o registro de onde cada caixa veio, que é o único lastro de procedência quando aparece um herdeiro.

Nenhum desses três passos existia em 2007, e não existia porque ninguém tinha motivo para dar valor a caixa de guarda-móveis atrasado. O caso de Chicago criou o motivo, e hoje casa de leilão e negociante tratam lote fotográfico sem procedência como ativo com defeito de título.

A obra ficou acessível ao público por um acidente de comércio, um aluguel vencido e um lance de 380 dólares, e ficou travada na justiça pelo mesmo acidente: o comprador tinha o negativo na mão e não tinha a assinatura de ninguém autorizando a cópia.

O contraste com a foto de 1941 é direto. A imagem de Russell Lee pode ser baixada agora, em alta resolução, sem pedir licença a herdeiro nenhum, porque nasceu paga por um orçamento público e catalogada por um arquivista. As duas foram feitas na mesma cidade, com poucas décadas de diferença, e só uma delas passou por um tribunal.

O box de Portage Park foi esvaziado num sábado de 2007 e devolvido para aluguel na semana seguinte. As caixas de papelão que saíram dali por 380 dólares hoje têm inventário, número de série, sala com controle de umidade e um acordo judicial de 2016 dizendo quem pode imprimir cada folha de contato guardada dentro delas.

“Quantos arquivos você guarda hoje sem nome, sem data e sem ninguém pagando a conta depois de você?”

 
 

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Quiz da edição

Quanto John Maloof pagou pelo lote de negativos no leilão de guarda-móveis de 2007, em Chicago?

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C800 dólares
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