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As Fadas de Papelão que Enganaram Conan Doyle
Em julho e setembro de 1917, no quintal de Cottingley, duas primas fotografaram figuras recortadas de um livro de presente e presas com alfinete
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Cottingley Fairies 2, Frances Griffiths, 1917
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Uma chapa de vidro não inventa nada. Ela registra a luz que atravessou a lente durante o tempo em que o obturador ficou aberto, e nada além. Foi com essa premissa que a fotografia entrou em tribunal, em jornal e em laboratório ao longo do século dezenove.
A premissa tinha lastro técnico. Emulsão sensibilizada, exposição única, revelação química: uma cadeia de etapas que qualquer perito sabia conferir. Dupla exposição deixava rastro, retoque a pincel deixava rastro, colagem de negativo deixava rastro.
O que a perícia da época não tinha aprendido a procurar era bem mais simples do que qualquer truque de laboratório. Uma figura recortada em papel de cartão, pintada à mão, espetada no capim com alfinete de chapéu, a meio metro da lente.
Nesse arranjo não existe fraude nenhuma dentro da câmera. A exposição é única, o negativo sai limpo, a chapa é original, e todo laudo técnico feito sobre ela sai correto. O objeto estava mesmo ali, diante da lente. Só não estava vivo.
A distância entre provar o negativo e provar o fato é o buraco onde a história inteira coube. Um especialista podia jurar, com razão, que a chapa não tinha sido adulterada, e ao mesmo tempo estar certificando um desenho recortado com tesoura de costura.
No buraco caiu o escritor mais associado ao raciocínio dedutivo do idioma inglês. Ele leu os laudos, aceitou a premissa, escreveu o artigo e assinou embaixo, num número de Natal que sumiu das bancas em poucos dias.
A armadilha não saiu de nenhum estúdio de falsificação. Saiu do fundo de quintal de uma casa de operário no norte da Inglaterra, montada por duas primas com material de papelaria e uma revista de presente de 1914.
O equipamento também não era de profissional. Era a câmera de placa que o pai de uma delas guardava em casa, emprestada por meia hora numa tarde de julho, com uma única chapa carregada dentro.
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I A Foto Histórica do Dia
Duas chapas no quintal de Cottingley
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Cottingley era um vilarejo colado em Bradford, no oeste de Yorkshire, com fileiras de casa de operário e quintal comprido descendo até um riacho estreito. O dos Wright terminava na beira da água.
Cottingley, West Yorkshire, uma tarde de julho de 1917, quintal da família Wright. Elsie Wright, de dezesseis anos, pediu emprestada a câmera de placa do pai, uma Midg, e desceu com uma única chapa carregada.
A prima Frances Griffiths, de nove anos, tinha chegado da África do Sul havia poucos meses e morava com os tios. As duas voltavam do riacho de vestido encharcado, e a explicação em casa era sempre a mesma: desciam para ver as fadas.
A câmera entrou como resposta a uma cobrança doméstica, não como projeto de fraude. Se as fadas estavam lá embaixo, que aparecessem na chapa.
O material do truque já estava dentro de casa. Elsie tinha passado pela escola de arte de Bradford e trabalhado alguns meses num laboratório fotográfico da cidade, onde retocava retrato de encomenda.
Ela copiou as figuras de uma ilustração de Claude Shepperson publicada no Princess Mary's Gift Book, o livro de presente de 1914, ao lado de um poema de Alfred Noyes.
O desenho foi passado para papel de cartão, pintado com aquarela, recortado com tesoura e completado com asas que a ilustração original não tinha. As figuras foram fincadas no capim com alfinete de chapéu, a poucos palmos da lente.
A primeira chapa saiu naquela tarde, com Frances apoiada no barranco e quatro figuras dançando na frente dela. Arthur Wright revelou o negativo no quarto escuro embaixo da escada e viu manchas claras que tomou por papel de embrulho.
A ficha da segunda chapa
A segunda saiu em setembro do mesmo ano, com os papéis trocados. Frances, de nove anos, ficou com a câmera e fotografou Elsie de joelhos no gramado, estendendo a mão para um gnomo alado de quase trinta centímetros.
A ficha do arquivo registra o que o quintal produziu: título Cottingley Fairies 2, autoria de Frances Griffiths, setembro de 1917, chapa de vidro de quarto de placa, hoje em domínio público.
No enquadramento dessa segunda chapa aparece um detalhe que ninguém escondeu. A ponta do alfinete de chapéu que sustentava o gnomo ficou visível na barriga da figura, bem no meio da imagem.
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A chapa que atravessaria o Atlântico, passaria por dois laboratórios industriais e sairia impressa num número de Natal esgotado foi batida por uma menina de nove anos, no fundo do próprio quintal.
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Arthur Wright não engoliu o resultado. Ele revistou o quarto das meninas e o lixo do quintal atrás de recorte de papel, não achou nada e resolveu não emprestar mais a câmera.
As cópias circularam entre parentes e vizinhos por dois anos, sem consequência. Em 1919 a mãe de Elsie levou as duas imagens a uma palestra da Sociedade Teosófica em Bradford, e a história saiu do quintal.
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Um número de Natal esgotado em dias
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As duas chapas não mudaram a fotografia. Mudaram a régua com que o público mede a palavra de um especialista. Ficou registrado em 1920 que um laudo impecável pode certificar o negativo e não dizer nada sobre o fato.
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Na palestra de Bradford as imagens chamaram a atenção de Edward Gardner, da Sociedade Teosófica de Londres, que pediu as cópias e mandou examinar os negativos.
O primeiro laudo saiu com Harold Snelling, técnico com trinta anos de laboratório. Ele afirmou que as chapas eram de exposição única, feitas ao ar livre, sem sinal de modelo de papel, fundo escuro ou retoque sobre o negativo.
A conclusão dele era tecnicamente correta e inútil. Snelling atestou o processo, não o objeto, e o objeto estava mesmo diante da lente, preso no capim por um alfinete.
A Kodak examinou o material em seguida e não encontrou evidência de manipulação. A empresa recusou o certificado de autenticidade que Gardner queria: fada não é assunto que laboratório atesta.
Nenhum laboratório afirmou que havia fada no jardim. Foi com laudo de processo e sem laudo de fato que o material chegou a um escritor famoso em 1920.
O número de Natal de 1920
Arthur Conan Doyle tinha sido contratado pela revista Strand para escrever sobre fadas no número de Natal. Espírita declarado desde 1916, ele recebeu as chapas de Cottingley como material caído do céu para a tese que defendia.
Antes de fechar o texto ele consultou o físico Oliver Lodge, que desconfiou de uma trupe de bailarinas fotografada de perto. Doyle seguiu adiante, embarcou para uma turnê na Austrália em agosto de 1920 e deixou o artigo na redação.
O texto saiu em dezembro de 1920 com o título Fairies Photographed: An Epoch-Making Event. As meninas apareceram com nome falso, Iris e Alice Carpenter, e o vilarejo virou Dalesby, para blindar a família.
O número esgotou nas bancas em poucos dias. A promessa de um mundo invisível fotografável chegava a um país recém saído da guerra, com centenas de milhares de famílias enlutadas, e encontrou público pronto.
Na leitura da segunda chapa veio o erro que ficou famoso. A ponta de alfinete visível na barriga do gnomo foi interpretada como umbigo, indício de que a criatura nascia como qualquer mamífero.
A resposta pública veio rápida e dura. A revista Truth publicou em janeiro de 1921 que, para explicar aquelas fotografias, não fazia falta conhecimento de fenômeno oculto, e sim conhecimento de criança.
O radiologista John Hall-Edwards atacou o efeito sobre o público infantil, e parte da imprensa tratou o caso como piada sobre o criador de Sherlock Holmes.
Doyle não recuou. Publicou um segundo artigo na Strand em 1921, com três chapas novas feitas no ano anterior, e em 1922 lançou o livro The Coming of the Fairies.
O custo não caiu sobre as meninas, protegidas pelo sobrenome falso. Caiu sobre a reputação de quem assinou embaixo, lida com desconto por boa parte do público desde então.
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