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As Balas Que Fenton Pôs na Estrada

Em 1855, um fotógrafo britânico fez duas chapas do mesmo trecho de estrada na Crimeia, e as pedras da encosta contam qual delas saiu primeiro

The Valley of the Shadow of Death, fotografia de Roger Fenton feita na Crimeia em 23 de abril de 1855, mostrando uma trilha de carroça entre encostas de calcário com balas de canhão espalhadas sobre a estrada.

The Valley of the Shadow of Death, Roger Fenton, 1855

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A ravina fica na península da Crimeia, a uns doze quilômetros do porto de Balaclava, num corredor de encosta calcária que sobe na direção das linhas russas de Sebastopol. De dentro dela se via pouco: paredes de pedra clara fechando a passagem, uma trilha de carroça no fundo e, no alto da crista, as baterias que alcançavam o corredor inteiro sem precisar mirar.

Round shot russo era bola de ferro maciça. Não explodia. Batia no calcário, quicava, rolava encosta abaixo e parava na vala, e quem passasse pela trilha ouvia o barulho antes de ver a peça chegar. A tropa britânica que fazia o trajeto de abastecimento batizou o corredor com um verso do Salmo 23, e o apelido pegou tão bem que virou nome de mapa.

Em abril de 1855, a guerra ali já não tinha manobra. Era cerco: trincheira, bombardeio de artilharia, tifo e cólera nos acampamentos. O público de Londres acompanhava pelos despachos de William Howard Russell no The Times, que chegavam por telégrafo e descreviam frio, fome e comando incompetente com um detalhe que o Parlamento não conseguia desmentir.

Foi nesse cenário que a fotografia entrou em campanha pela primeira vez em escala. O processo disponível era o colódio úmido: a chapa de vidro precisava ser sensibilizada, exposta e revelada em cerca de dez minutos, antes de a emulsão secar, o que obrigava o fotógrafo a carregar um quarto escuro atrás de si. Cada imagem custava trabalho pesado, e ninguém gastava chapa à toa.

Uma única passagem por aquela ravina rendeu duas chapas quase idênticas: mesmo enquadramento, mesma trilha, mesma encosta. Numa delas a estrada está limpa e as balas se acumulam na vala. Na outra, dezenas de balas cobrem a própria estrada. Cento e cinquenta e dois anos depois, um cineasta americano pegou um avião para medir a inclinação das pedras daquela encosta.

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I  A Foto Histórica do Dia

Vinte e três de abril, duas chapas

Em 23 de abril de 1855, uma carroça de comerciante de vinho reconvertida em laboratório fotográfico subiu da base britânica em Balaclava em direção ao corredor. Dentro dela ia todo o equipamento necessário para revelar no local, e na boleia ia Marcus Sparling, o assistente contratado que dirigia os cavalos e aparece sentado ali numa das fotografias mais reproduzidas da campanha.

Quem comandava a carroça era Roger Fenton, então com 36 anos, formado em direito e um dos fundadores da Photographic Society de Londres. Ele tinha desembarcado em Balaclava em março, financiado pela casa de gravuras Thomas Agnew & Sons, de Manchester, para trazer imagens vendáveis de uma guerra que a imprensa escrita já estava contando mal para o governo.

O calor dentro da carroça no meio do dia inutilizava chapa. O trajeto era batido por artilharia. Ainda assim, a ravina rendeu duas exposições feitas do mesmo ponto de tripé, com a câmera apontada para o mesmo trecho de trilha, e as duas sobreviveram.

O que muda entre uma chapa e outra

Na versão hoje catalogada como a estrada vazia, as balas de canhão se concentram na vala à esquerda da trilha, empilhadas onde a gravidade as deixou. O leito da estrada aparece batido, com marca de roda, e nada obstrui a passagem.

Na outra versão, dezenas de balas estão espalhadas sobre a própria estrada, no meio do caminho de carroça. O resto é igual: a mesma curva de encosta, os mesmos matacões de calcário, o mesmo horizonte de crista, a mesma luz.

Fenton deu às duas chapas o mesmo título, e nenhuma das duas carrega numeração, hora ou anotação de campo que diga qual saiu da câmera antes. O arquivo guardou as duas imagens e perdeu a ordem delas.

O título também plantou uma confusão que durou décadas. Muita publicação tratou a ravina como o vale da Carga da Brigada Ligeira, o desastre de cavalaria de outubro de 1854. São terrenos distintos, separados por quilômetros. O corredor fotografado por Fenton só ganhou o nome porque a tropa de abastecimento andava por ele debaixo de fogo.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.

Salmos 23, versículo 4, Bíblia

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Uma acusação publicada em 2003

Fenton voltou para a Inglaterra em junho de 1855, depois de contrair cólera, com mais de trezentas chapas. A exposição das imagens em Londres, ainda naquele ano, vendeu gravuras para um público que nunca tinha visto o teatro de guerra. Dessas centenas de imagens, a da estrada coberta de balas foi a que atravessou o século: é ela que aparece em manual de história da fotografia, em catálogo de museu e em documentário.

Em 2003, a ensaísta Susan Sontag publicou Diante da Dor dos Outros e escreveu que Fenton havia mandado espalhar as balas sobre a estrada para melhorar a imagem, tratando a versão de estrada limpa como a primeira das duas. A afirmação virou item de bibliografia obrigatória e passou a ser repetida como fato estabelecido.

Por que a ordem das chapas decide o caso

A acusação inteira depende da sequência. Se a chapa de estrada limpa veio primeiro, alguém carregou as balas para o leito da via entre uma exposição e outra, e a fotografia mais famosa da campanha é uma cena arrumada.

Se a chapa cheia veio primeiro, a leitura se inverte. Tropa de abastecimento recolhia ferro russo do chão para reaproveitar, e o esvaziamento da estrada entre duas exposições passa a ser trabalho de soldado, não de fotógrafo. Nesse caso Fenton registrou o que encontrou e depois registrou o que sobrou.

Sontag não apresentou documento, testemunho ou marca física para sustentar a sequência que afirmou. Ela leu as duas imagens e concluiu pela intenção que atribuiu ao fotógrafo, que é exatamente o tipo de raciocínio que uma fotografia costuma premiar.

Encenar, em 1855, não era crime de ofício. O tempo de exposição do colódio úmido tornava impossível fotografar movimento: soldado em pose, oficial sentado, acampamento parado. Fenton posou quase tudo que fotografou, e ninguém nunca escondeu que era assim.

O caso da ravina incomoda por outro motivo. Aquela chapa não vende pose: ela vende evidência de bombardeio. Uma estrada coberta de projéteis funciona como prova de que o corredor era intransitável, e prova arrumada por quem fotografa muda de categoria.

As duas chapas estão preservadas na Library of Congress, em Washington, dentro da coleção de 263 fotografias que Fenton fez na campanha da Crimeia. As duas fichas de catálogo trazem o mesmo título, e nenhuma delas indica sequência.

 

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III  Depois da Foto

As pedras que desceram a encosta

Em setembro de 2007, o cineasta Errol Morris publicou no The New York Times uma série de três textos sobre o problema, com o título Which Came First, the Chicken or the Egg?, e voltou ao assunto no livro Believing Is Seeing, de 2011. A pergunta que ele quis responder era estreita: qual chapa saiu primeiro.

Morris tentou o caminho das sombras. Comparando a direção e o comprimento das sombras nas duas imagens, dá para estimar a hora aproximada de cada exposição, e a estimativa dizia que as duas foram feitas em intervalo curto, no mesmo período do dia. Só que sombra parecida não estabelece ordem.

Então ele foi ao lugar. Em 2007, com guia local, Morris localizou a ravina na Crimeia, conferiu o desenho da crista e o formato dos matacões contra as chapas de 1855 e fotografou o terreno do mesmo ângulo. O corredor continuava reconhecível pedra por pedra.

O detalhe veio da encosta, não da estrada

Dennis Purcell, engenheiro óptico e amigo de Morris, alinhou as duas imagens uma sobre a outra e reparou num punhado de pedras soltas na encosta acima da trilha que aparecem em posições distintas nas duas chapas. Pedra solta em ladeira só faz um movimento.

1Sobrepor as duas chapas no mesmo enquadramento, corrigindo a pequena variação de tripé, até a crista e os matacões grandes coincidirem.
2Marcar cada pedra pequena que ocupa posição diferente de uma imagem para a outra.
3Ler o sentido do deslocamento. Toda pedra marcada aparece mais abaixo na versão com a estrada coberta de balas, e nenhuma aparece mais acima.

A conclusão saiu do terreno: a chapa de estrada limpa é a primeira, e a chapa cheia é a segunda. Entre uma e outra, alguém carregou as balas de canhão da vala para o leito da via, e o tempo que passou foi suficiente para o pé de gente na encosta empurrar seixo ladeira abaixo.

Sontag acertou a resposta e errou o método. A ordem das chapas não estava na intenção atribuída ao fotógrafo nem no efeito dramático da composição: estava em quatro ou cinco pedras do tamanho de um punho, obedecendo à gravidade entre duas exposições.

Morris nunca encontrou documento nomeando quem carregou as balas. Pode ter sido Fenton, pode ter sido Sparling, podem ter sido os soldados que acompanhavam a carroça e conheciam a rotina de recolher ferro. O que a encosta prova é a sequência, não a autoria.

Fotografias atraem crenças falsas do mesmo jeito que papel pega-mosca atrai mosca.

Errol Morris, Believing Is Seeing, 2011

Fica de pé um método barato de conferir imagem antiga. Antes de discutir a intenção de quem apertou o disparador, vale procurar no quadro alguma peça física que só se mova numa direção: água que escorre, sombra que gira, pedra que desce. O terreno responde perguntas que o autor não responde.

A ravina continua entre Balaclava e Sebastopol, com os mesmos matacões calcários na encosta e a mesma trilha no fundo. As duas chapas de 23 de abril de 1855 estão na Library of Congress, catalogadas sob o mesmo título, e as pedrinhas que Purcell marcou seguem paradas alguns centímetros mais abaixo na chapa em que a estrada aparece coberta de balas.

“Quantos passos existem entre a cena que a foto mostra e a cena que estava lá?”

 
 

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Quem afirmou, publicamente, que Fenton teria mandado espalhar as balas sobre a estrada para melhorar a fotografia, e em que ano?

AWilliam Howard Russell, em 1855
BSusan Sontag, em 2003
CErrol Morris, em 2007
DThomas Agnew, em 1855

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