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As 74 Fotos de Veados no Escuro Mudaram a National Geographic

No norte de Michigan, George Shiras III armou flash de magnésio e fio na trilha, e a revista publicou as imagens sob protesto

Fotografia de George Shiras III, 1906: dois veados na mata à noite, iluminados por flash de magnésio

Dois veados na mata à noite, George Shiras III, 1906

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A 46 graus de latitude norte, na margem sul do Lago Superior, as noites de verão nos pântanos de Michigan são quase pretas. De uma canoa parada na água, só se via o brilho verde dos olhos dos veados que desciam para beber.

Esse brilho guiava os caçadores da região havia gerações. Os ojíbuas (povo indígena dos Grandes Lagos) acendiam uma pequena fogueira num suporte na proa da canoa e remavam devagar até o animal. O veado ficava imóvel, ofuscado pela luz, e o caçador atirava de perto.

Um rapaz da Pensilvânia aprendeu o método nas férias de verão em Marquette, cidade portuária da Península Superior, e passou décadas usando a técnica sem arma. No lugar do rifle, levava uma câmera de chapa de vidro presa na canoa.

O obstáculo era a luz. As chapas da época pediam claridade forte, e a lanterna da proa não bastava para gravar imagem nenhuma. A saída veio do pó de magnésio (metal que, queimado, solta um clarão branco de fração de segundo), o mesmo usado nos estúdios de retrato.

O clarão assustava o bicho, mas a chapa já tinha registrado o animal parado, com os olhos acesos e o corpo recortado contra a mata escura. Quando a fumaça baixava, o veado já tinha sumido no mato.

Depois veio o passo mais ousado. O fotógrafo esticou fios finos em trilhas de animais e ligou cada fio ao obturador e ao flash. Quando um veado encostava a perna no fio, a câmera disparava sozinha, sem ninguém por perto, e o fotógrafo só descobria o resultado de manhã, ao revelar a chapa.

As imagens ganharam medalhas em exposições internacionais e chegaram, em 1906, à mesa de um editor de 30 anos em Washington. Ele publicou 74 delas numa só edição da revista, e a decisão custou dois conselheiros à sociedade científica dona da publicação.

A foto no topo é uma dessas páginas. Para lê-la, o caminho começa pelo homem que a fez e pelo arquivo que a guarda hoje.

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

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That’s Jensen Huang, founder and CEO of NVIDIA. 

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I  A Foto Histórica do Dia

Um deputado com câmera na proa

A resposta de ontem

Quem pagou 1 milhão de dólares pelo Photomaton?

Foi um grupo de investidores liderado por Henry Morgenthau Sr., banqueiro de Nova York e ex-embaixador dos Estados Unidos no Império Otomano. A compra, noticiada pelo The New York Times em 1927, deu origem à Photomaton Inc., a empresa que levou as cabines para outras cidades americanas.

A foto se chama Two deer in the woods at night (Dois veados na mata à noite) e foi feita por George Shiras III, advogado e ex-deputado federal da Pensilvânia, nascido em Allegheny em 1859. A imagem saiu na National Geographic de julho de 1906.

No Wikimedia Commons, o arquivo aparece em domínio público, com crédito à própria National Geographic, que o republicou em 2018 numa lista de marcos da fotografia feita para os 130 anos da revista.

Quem era Shiras

Shiras era filho de George Shiras Jr., juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos entre 1892 e 1903. Formou-se em Yale em 1881, advogou em Pittsburgh e cumpriu um mandato na Câmara dos Deputados, de 1903 a 1905.

A família passava os verões em Marquette desde a infância dele. Foi ali, nos lagos e pântanos da floresta em volta da cidade, que o menino aprendeu com guias ojíbuas a caçar à noite pela luz da proa.

No fim da década de 1880, trocou o rifle pela câmera. Passou a tratar a fotografia como uma caçada sem sangue: a mesma espera, o mesmo silêncio na canoa e o mesmo animal parado no facho, só que vivo no fim da noite.

Como o flash funcionava

A primeira montagem era de canoa. Na proa ficavam a lanterna, a câmera e uma bandeja com pó de magnésio. Um guia remava sem barulho, e Shiras esperava os olhos do animal aparecerem no facho de luz.

Quando o veado estava a poucos metros, ele acionava o obturador e o flash juntos. O pó queimava num estampido seco e numa nuvem de fumaça branca, e a chapa recebia em fração de segundo toda a luz de que precisava.

Na segunda montagem, o fotógrafo nem estava presente. O fio de disparo (linha fina esticada na trilha, presa ao gatilho da câmera) fazia do próprio animal o autor do clique. A ideia sobrevive nas armadilhas fotográficas usadas por biólogos em todos os continentes.

Com o fio na trilha, o animal virou autor da própria fotografia.

O que a foto mostra

A imagem é quase toda preta. No centro, dois veados aparecem iluminados de frente pelo clarão, com os troncos e as folhas mais próximos brancos de luz e a mata do fundo sumindo no escuro.

Os animais olham na direção da lente. O flash congelou o instante anterior à fuga: as orelhas em pé, o corpo ainda parado, nenhum borrão de movimento. Para o leitor de 1906, era a primeira vez que um bicho selvagem aparecia assim, de noite, sem saber que estava sendo visto.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O editor de 30 anos e os dois conselheiros

Gilbert H. Grosvenor, editor da National Geographic, recebeu as fotos de Shiras e decidiu publicá-las num artigo inteiro: Photographing Wild Game with Flashlight and Camera (Fotografando bichos selvagens com flash e câmera), na edição de julho de 1906, com 74 imagens.

Até então, a revista da National Geographic Society era uma publicação de sociedade científica, com mapas, relatórios de expedição e longos textos técnicos. Fotografia entrava como ilustração pontual, perdida entre colunas de texto.

Grosvenor tinha entrado na Society em 1899 como assistente, contratado por Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, que presidia a instituição e depois virou sogro dele. Bell defendia uma revista com mais imagens e menos tabelas.

O protesto

Dois integrantes do conselho da Society se demitiram depois da edição. Para eles, a revista tinha virado um livro de figuras, e páginas cheias de bichos na noite rebaixavam uma publicação de geografia.

Os relatos da própria National Geographic sobre o episódio citam a saída sem dar os nomes dos dois, e os registros acessíveis ao público seguem sem identificá-los. Sabe-se do protesto e do motivo; quem eram os conselheiros ficou fora da história oficial.

Grosvenor não recuou. A edição de julho atraiu novos sócios, e ele tomou o resultado como prova de que o leitor queria ver o mundo, além de ler sobre ele.

Uma edição de bichos na noite pôs a fotografia no centro da revista.

O caminho aberto

Nos anos seguintes, a revista multiplicou as páginas de foto. Em 1910, publicou uma série de imagens coloridas à mão da Coreia e da China, e a cor virou marca da publicação nas décadas seguintes.

Shiras também colheu o efeito. Suas fotos já tinham levado medalha de ouro na Exposição Universal de Paris, em 1900, e repetiram o prêmio na Exposição de St. Louis, em 1904. Depois de 1906, o nome dele passou a ser associado à revista que tinha ajudado a mudar.

Para a fotografia de natureza, o artigo marcou outra mudança de rumo. Pela primeira vez, uma revista de grande circulação mostrava que dava para registrar o animal sem matá-lo, e que a imagem do bicho vivo valia mais que o troféu na parede.

 

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III  Depois da Foto

Das aves migratórias ao livro de 1935

George Shiras III seguiu fotografando por mais de três décadas, no Michigan, no Canadá e no parque de Yellowstone. Publicou outros artigos na National Geographic ao longo das décadas de 1910 e 1920.

Como deputado, entre 1903 e 1905, ele tinha apresentado um projeto de lei para pôr as aves migratórias sob proteção federal. O projeto não passou no mandato dele, mas a ideia voltou na Lei Weeks-McLean, aprovada em 1913, e no Tratado das Aves Migratórias, firmado com o Canadá em 1916.

O caçador que trocou o rifle pela câmera virou, assim, um dos nomes da conservação americana. As fotos noturnas mostravam o animal; a lei protegia o lugar por onde ele passava.

O livro

Em 1935, a National Geographic Society publicou Hunting Wild Life with Camera and Flashlight (Caçando a vida selvagem com câmera e flash), em dois volumes, com centenas de fotos de Shiras e o relato das noites de trabalho.

Os volumes reúnem as fotos de canoa, as de fio na trilha e as tiradas em Yellowstone, com textos de Shiras sobre o comportamento de cada espécie diante da luz. Viraram referência para quem estudava fauna e para os primeiros fotógrafos de natureza que tentaram repetir as montagens.

Shiras viveu até 1942. Deixou parte da fortuna para Marquette, onde a fundação Shiras Institute, criada com esse dinheiro, financia até hoje obras públicas da cidade.

As armadilhas fotográficas de hoje repetem o fio de Shiras com sensor infravermelho.

Onde a foto está

O acervo de imagens da National Geographic, em Washington, guarda o material original de Shiras. A cópia no Wikimedia Commons veio da reprodução publicada pela revista e circula em domínio público, porque a imagem saiu nos Estados Unidos antes de 1930.

No Commons, a imagem leva o título em inglês e a data de 1906, a do número da revista em que saiu. A data exata da noite em que os dois veados passaram diante da câmera não foi registrada na publicação, e o artigo de julho não diz se o disparo veio da canoa ou do fio.

Os pântanos da margem sul do Lago Superior, a 46 graus de latitude norte, continuam escuros nas noites de verão, e os veados ainda descem para beber onde a canoa de Shiras esperava com o magnésio pronto. O nome dele, porém, foi parar num bicho bem maior que um veado.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que animal recebeu o nome de George Shiras III em 1914?

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quantas fotos de George Shiras III a National Geographic publicou na edição de julho de 1906?

A24 fotos
B44 fotos
C74 fotos
D104 fotos

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