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As 72 Mil Fotos Coloridas do Banqueiro Albert Kahn

De Boulogne-Billancourt, Albert Kahn mandou fotógrafos a uns cinquenta países com chapas em cor, até a quebra de 1929 levar a fortuna dele

Autocromia de Stéphane Passet, 1913: caçador mongol de casaco longo, de pé na estepe perto de Urga

Caçador mongol perto de Urga, Stéphane Passet, 1913

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A 1.350 metros de altitude, no vale do rio Tuul, o verão da Mongólia é curto e seco, e a luz do meio-dia chega dura sobre a estepe. Em julho de 1913, nos arredores de Urga, a cidade dos mosteiros que hoje se chama Ulan Bator, um caçador parou diante de uma câmera de fole montada num tripé.

Ele usava o casaco longo de cavaleiro, preso na cintura, e um chapéu de aba virada. Segurava a arma e olhava para a lente sem sorrir. Precisava ficar parado alguns segundos, e ficou.

A chapa que gravou a cena era de vidro e tinha cor. Até então, quase toda fotografia da Ásia Central que chegava à Europa era em preto e branco, tirada por militares, missionários ou viajantes de passagem. Ali, o vermelho do tecido e o verde seco do capim ficaram registrados como estavam.

O fotógrafo tinha atravessado a Sibéria de trem para chegar até a Mongólia. Não trabalhava para jornal nem para governo. Recebia salário de um particular em Paris, que pagava a viagem, o equipamento e as caixas de chapas, e exigia em troca apenas imagens do mundo do jeito que ele era naquele ano.

A Mongólia daquele verão vivia um momento raro. Dois anos antes, em dezembro de 1911, os príncipes mongóis tinham rompido com a dinastia Qing, da China, e posto no trono o Bogd Khan, chefe religioso de Urga. O país novo ainda não tinha fronteira reconhecida pelas potências.

O homem que pagava a viagem queria guardar justamente esse tipo de instante, antes que a guerra, a estrada de ferro ou o tempo o apagassem. Montou para tanto um arquivo inteiro, com dezenas de milhares de chapas, e o manteve por mais de duas décadas.

A foto no topo é uma dessas chapas. Para lê-la, o caminho passa pelo fotógrafo, pela química da cor e pelo banqueiro que assinava os cheques.

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I  A Foto Histórica do Dia

Um caçador posado em julho de 1913

A resposta de ontem

Que animal recebeu o nome de Shiras em 1914?

Foi uma subespécie de alce, o alce de Shiras (Alces alces shirasi), descrita em 1914 pelo zoólogo americano Edward W. Nelson a partir de exemplares da região de Yellowstone. É o menor alce da América do Norte e vive nas Montanhas Rochosas, onde o próprio Shiras também fotografou.

A foto se chama Chasseur mongol, environs d'Ourga (Caçador mongol, arredores de Urga), feita em 20 de julho de 1913 por Stéphane Passet, fotógrafo francês contratado pelos Arquivos do Planeta, o projeto do banqueiro Albert Kahn.

No Wikimedia Commons, o arquivo aparece em domínio público, com o crédito de Passet e a data exata da tomada. O original pertence ao Museu Albert-Kahn, em Boulogne-Billancourt, na periferia oeste de Paris.

Quem era Passet

Stéphane Passet nasceu em 1875 e tinha servido no Exército francês antes de entrar para a equipe de Kahn, em 1912. Era um dos operadores, nome que o projeto dava aos fotógrafos pagos para viajar com câmera e chapas.

Em pouco mais de um ano, ele passou pela China, pela Mongólia, pela Índia e pelo Marrocos. Na China, fotografou Pequim e as tumbas dos imperadores; na Mongólia, os mosteiros, os mercados e os cavaleiros dos arredores de Urga.

Passet viveu até 1941. Depois de deixar a equipe, sumiu dos registros públicos, e a carreira dele é conhecida quase só pelas chapas que ficaram em Boulogne.

A bagagem de um operador pesava. Cada autocromia era uma placa de vidro do tamanho de um cartão-postal, e Passet levava centenas delas, além da câmera, do tripé e dos produtos de revelação, por estradas de terra e trilhas de cavalo.

Como a cor entrava no vidro

A chapa usada era a autocromia (chapa de vidro colorida, patenteada pelos irmãos Auguste e Louis Lumière em 1903 e vendida a partir de 1907). Sobre o vidro, os Lumière espalhavam grãos microscópicos de fécula de batata tingidos de laranja, verde e violeta.

Cada grão funcionava como um filtro. A luz passava por ele, atingia a emulsão logo abaixo, e a revelação devolvia uma imagem positiva em cor, única, sem negativo para copiar.

O preço da cor era a demora. A chapa pedia uma exposição de vários segundos ao sol, e qualquer movimento virava borrão. Por esse motivo, quase todos os retratos dos Arquivos mostram gente parada, de frente, posando com cuidado.

A autocromia trocou o instante pela cor: quem posava tinha de esperar a luz entrar no vidro.

O que a foto mostra

O caçador ocupa o centro da imagem, de corpo inteiro, contra a estepe aberta. O casaco tem cor viva, a faixa da cintura é clara, e o chão em volta tem o tom amarelado do capim no fim do verão.

Os grãos da fécula dão à imagem uma textura de pontilhado, como pintura vista de perto. O nome do caçador não foi anotado na ficha da chapa, e nenhum documento do arquivo identifica quem ele era. Sabe-se o lugar, o dia e o fotógrafo; o homem ficou anônimo.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O banqueiro que queria fotografar o mundo

Albert Kahn nasceu Abraham Kahn em 1860, em Marmoutier, na Alsácia, filho de um comerciante de gado. Aos 16 anos foi para Paris trabalhar num banco e, nos anos seguintes, fez fortuna com ações de minas de ouro e diamante da África do Sul e com empréstimos ao governo do Japão.

Para terminar os estudos, contratou como professor particular um jovem filósofo chamado Henri Bergson, que mais tarde ganharia o Nobel de Literatura, em 1927. Os dois ficaram amigos pelo resto da vida.

Kahn acreditava que a guerra nascia da ignorância entre os povos. Em 1898, criou as bolsas Autour du Monde (Volta ao Mundo), que pagavam a jovens professores franceses uma viagem de um ano para conhecer outros países.

O arquivo

Em 1908 e 1909, o próprio Kahn deu a volta ao mundo, levando o motorista Albert Dutertre com uma câmera. Na volta, decidiu fazer em grande escala o inventário que tinha começado nessa viagem. Em 1909, mandou o fotógrafo Auguste Léon ao Brasil e à Argentina, e o arquivo nasceu ali.

Em 1912, Kahn financiou uma cátedra de geografia humana no Collège de France para o geógrafo Jean Brunhes, que virou diretor científico do projeto. Brunhes escolhia os lugares, orientava os operadores e definia o que valia registrar: casas, roupas, ofícios, mercados, festas.

Os operadores levavam chapas autocromas e também câmeras de cinema. Foram a uns cinquenta países, da Irlanda ao Vietnã, do Benin à Noruega. Durante a Primeira Guerra Mundial, filmaram as trincheiras e as cidades destruídas do norte da França.

A equipe nunca passou de uma dúzia de nomes fixos. Além de Léon e Passet, viajaram por Kahn os fotógrafos Georges Chevalier, Paul Castelnau, Fernand Cuville, Frédéric Gadmer, Lucien Le Saint e Roger Dumas. Cada viagem durava meses, e as chapas expostas voltavam a Paris em caixas de madeira, protegidas da umidade e do calor.

Kahn pagou o arquivo do próprio bolso: nenhum governo, jornal ou universidade dividiu o custo.

O que se fazia com as chapas

Kahn não publicava o material em livros nem em revistas. As autocromias ficavam guardadas em Boulogne-Billancourt, na casa dele, cercada de jardins japonês, inglês e francês, e eram projetadas em sessões para convidados.

Pela sala de projeção passaram políticos, cientistas e escritores, entre eles o próprio Bergson e o escritor indiano Rabindranath Tagore. A ideia era mostrar aos que decidiam o destino dos países como viviam os outros povos.

 

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NVIDIA's Founder Says Farmers Should Absolutely Use AI

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III  Depois da Foto

A quebra de 1929 e o jardim de Boulogne

A crise da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, atingiu em cheio os investimentos de Albert Kahn. A fortuna dele encolheu nos dois anos seguintes, e em 1931 os Arquivos do Planeta pararam: os operadores foram dispensados e as viagens acabaram.

O saldo, segundo o Museu Albert-Kahn, ficou em cerca de 72 mil autocromias e mais de 180 mil metros de filme, gravados entre 1909 e 1931.

Kahn perdeu também a casa. Em 1936, o departamento do Sena, governo regional que cuidava de Paris e arredores, comprou a propriedade de Boulogne com as coleções e os jardins, e deixou o antigo dono morar ali.

O fim de Kahn

Albert Kahn passou os últimos anos na casa que já não era dele. Morreu em novembro de 1940, aos 80 anos, poucos meses depois de as tropas alemãs ocuparem Paris.

As chapas atravessaram a ocupação guardadas em Boulogne. Depois da guerra, o arquivo ficou décadas conhecido quase só por especialistas, até a abertura do museu ao público e, em 2007, a série The Wonderful World of Albert Kahn (O maravilhoso mundo de Albert Kahn), da BBC, levar as cores dele à televisão britânica.

As cores de 1913 sobreviveram ao dono: a fortuna acabou em 1931, e as 72 mil chapas ficaram.

Onde a foto está

O Museu Albert-Kahn, mantido pelo departamento de Hauts-de-Seine, reabriu em 2022 com um prédio novo do arquiteto japonês Kengo Kuma. As autocromias originais ficam em reserva, longe da luz, porque a fécula tingida desbota com a exposição.

O público vê as imagens digitalizadas, nas salas do museu e no acervo on-line da instituição. A cópia que circula no Wikimedia Commons vem dessa digitalização.

A 1.350 metros de altitude, no vale do Tuul, Urga virou Ulan Bator, capital da Mongólia independente. O caçador sem nome continua de pé no capim amarelado, de casaco vivo e arma na mão, numa chapa de vidro guardada no escuro em Boulogne, com a etiqueta de 20 de julho de 1913.

 
 
Quiz da edição

Na autocromia que Passet usou para fotografar o caçador mongol, o que gerava o efeito de cor sobre a chapa de vidro?

APigmento pintado a mão depois da revelação
BCristais de sal tingidos em três camadas
CGrãos de fécula de batata tingidos de laranja, verde e violeta
DFilme de celulose colorido colado sobre o vidro

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