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A Rua Que Só Existe na Chapa de Augusto Malta

Contratado em 1903 pela prefeitura de Pereira Passos, Augusto Malta fotografou os cortiços do centro do Rio pouco antes de a picareta chegar

Rua do Hospício, no centro do Rio de Janeiro, fotografada em 1905 por Augusto Malta, com sobrados de dois andares dos dois lados de uma via de sete metros de largura.

Rua do Hospício, Augusto Malta, 1905

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A menos de 400 metros do cais do porto, num trecho plano do centro do Rio de Janeiro, a Rua do Hospício mal passava de sete metros de largura. Dos dois lados havia sobrados coloniais de dois andares, loja no térreo e quartos alugados em cima, com janelas que davam para corredores internos sem ventilação. Quem parava ali em 1905 via roupa estendida atravessando a fachada, tabuleta de comércio pintada à mão e portas de madeira abertas para um vão escuro que seguia quarteirão adentro.

Naquele ano, um homem de trinta e nove anos armou um tripé no meio da rua, encaixou na câmera uma chapa de vidro, o negativo de vidro que servia de suporte à fotografia antes do plástico, e fez a exposição. Augusto César Malta de Campos, alagoano de Mata Grande, era o fotógrafo oficial da Prefeitura do Distrito Federal, função criada para ele em 1903 pelo prefeito Francisco Pereira Passos.

O serviço tinha finalidade administrativa antes de qualquer outra. A prefeitura precisava de imagem do que ia derrubar, do que estava derrubando e do que erguia no lugar, para instruir processo de desapropriação, prestar conta de obra e ilustrar relatório de gestão. As demolições em massa que Pereira Passos conduziu entre 1903 e 1906 ganharam na boca dos cariocas o apelido de Bota-Abaixo.

O efeito colateral durou mais que a obra. O registro visual das ruas estreitas, das casas de aluguel coletivo e das fachadas que sumiram saiu da mesma máquina pública que assinava a ordem de demolição. Quem quer ver o Rio anterior à reforma depende hoje do olho contratado por quem a reforma pagou.

A primeira seção reconstrói a chapa da Rua do Hospício: o que entrou no enquadramento, o que ficou de fora, quem guarda o arquivo aberto hoje e por que uma fotografia de serviço urbano virou a imagem mais republicada das habitações populares cariocas.

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I  A Foto Histórica do Dia

A rua estreita de sete metros

A fotografia disponível em acervo aberto mostra a Rua do Hospício vista do nível da calçada, em perspectiva fechada, com as duas fileiras de sobrados quase se tocando no fundo do quadro. A imagem está no Wikimedia Commons com o título MALTA, Augusto. Rua do Hospício, Rio de Janeiro. 1 fotografia. 1905, datada de 1905, crédito de autoria para Augusto Malta e licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0, atribuição com compartilhamento igual, que permite republicar a imagem citando a fonte.

A origem do arquivo digital está registrada na própria ficha: o Centro de Pesquisa em História Social da Cultura, o Cecult da Unicamp, publicou a reprodução dentro de um material sobre cortiços do Rio. Cortiço, no vocabulário do período, era a habitação coletiva de aluguel: um sobrado ou um terreno subdividido em quartos, com torneira e latrina de uso comum no fundo.

O que entrou no enquadramento

O quadro tem arquitetura e não tem biografia. Aparecem fachada, sacada de ferro, telha, tabuleta, o desenho da rua e a largura que a câmera comprova melhor que qualquer laudo. Não aparece o interior dos quartos, não aparece a torneira do fundo, e os moradores, quando surgem, surgem pequenos e sem nome.

O silêncio tem causa administrativa. A ficha que acompanhava a chapa na prefeitura identificava logradouro, número de imóvel e data, porque o documento servia a processo de desapropriação. Nome de morador não entrava no campo. Quem vivia atrás daquelas janelas em 1905 continua desconhecido, e nenhum arquivo do município preencheu essa lacuna depois, porque o dado nunca foi coletado.

A chapa da Rua do Hospício prova a largura da rua, a altura dos sobrados e a data. Sobre as pessoas que dormiam ali, a mesma chapa não responde nada, e não responde de propósito.

A rua fotografada ainda existe com outro nome: o trecho corresponde à atual Rua Buenos Aires, no centro do Rio. O casario que Malta enquadrou foi substituído ao longo do século XX por prédios comerciais, e a comparação entre a chapa de 1905 e a fachada de hoje serve de exercício corrente em pesquisa de história urbana carioca.

Rua do Hospício no Rio de Janeiro.

Descrição do arquivo no Wikimedia Commons, reprodução publicada pelo Cecult-Unicamp

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O fotógrafo contratado por quem demolia

Pereira Passos assumiu a prefeitura do Distrito Federal em dezembro de 1902, nomeado pelo presidente Rodrigues Alves, e governou com poder para legislar por decreto. Engenheiro formado na França, tinha visto de perto a Paris reconstruída por Georges-Eugène Haussmann e importou o método: abrir avenidas largas e retas por dentro do tecido antigo, derrubando o que estivesse no traçado.

A obra maior foi a Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, rasgada do cais até o Passeio Público sob comando da Comissão Construtora chefiada pelo engenheiro Paulo de Frontin. O historiador Jaime Larry Benchimol, no livro Pereira Passos: um Haussmann tropical, publicado em 1990 pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio, reconstitui o processo de desapropriação e demolição que abriu caminho para a avenida, inaugurada em novembro de 1905.

Fotografia como peça de processo

O cargo de Malta nasceu dentro dessa engrenagem. Ele fotografava o imóvel antes da derrubada, acompanhava o canteiro e registrava a rua pronta, produzindo uma sequência que a prefeitura usava para justificar gasto e provar entrega. O fotógrafo saía a campo com câmera de chapa de vidro, equipamento pesado que exigia tripé e exposição longa, motivo pelo qual as ruas dele aparecem com poucas pessoas nítidas.

A reforma urbana andava junto com a sanitária. Oswaldo Cruz, à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública desde 1903, atacava febre amarela, peste e varíola com brigadas que entravam nas casas, e a lei de vacinação obrigatória contra a varíola, aprovada em 1904, provocou em novembro daquele ano o levante popular conhecido como Revolta da Vacina.

A prefeitura mandava fotografar o que ia derrubar pelo mesmo motivo que mandava numerar o processo: para ter documento. O arquivo de história urbana que o Rio usa hoje começou como papelada de desapropriação.

Quem perdia casa não recebia apartamento novo. As famílias despejadas do centro subiram os morros próximos ou foram empurradas para os subúrbios servidos por trem, e o adensamento das encostas centrais acelerou nas duas décadas seguintes. A câmera de Malta registrou o antes e o depois do quarteirão, sem registrar o destino de quem morava nele.

Vale separar o que a fotografia oficial mostra do que ela argumenta. As chapas não foram feitas para denunciar a demolição, foram feitas para documentá-la a serviço de quem a executava. O valor de prova que elas têm hoje vem justamente do rigor burocrático: data, logradouro e imóvel anotados com exatidão, porque disso dependia o pagamento.

 

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III  Depois da Foto

As chapas que sobraram do corte

Malta permaneceu no cargo muito além do prefeito que o contratou. Seguiu fotografando o Rio por sucessivas administrações até a década de 1930, cobrindo carnaval, enchente, inauguração, favela, obra de aterro e retrato de rua, e construiu um conjunto que virou a espinha dorsal da iconografia carioca da Primeira República.

O acervo está repartido entre instituições públicas e privadas. O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro guarda o núcleo principal dos negativos, e o Instituto Moreira Salles mantém outra parte digitalizada e disponível para consulta, com fichas que trazem logradouro e datação.

Como conferir a fotografia por conta própria

1Procure no Wikimedia Commons pelo arquivo MALTA, Augusto. Rua do Hospício, Rio de Janeiro. 1 fotografia. 1905 e leia na página a datação de 1905, o crédito para Augusto Malta e a licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0 antes de reutilizar a imagem. 2. Abra o verbete de Augusto Malta no Wikidata, item Q16495239, e confira o vínculo entre o nome do fotógrafo e a obra catalogada. É esse vínculo que evita confundir o autor com homônimo e sustenta a atribuição da chapa. 3. Compare o enquadramento com as vistas da Avenida Central digitalizadas pelo Instituto Moreira Salles, feitas pelo mesmo fotógrafo poucos anos depois. A largura da avenida ao lado da largura da Rua do Hospício mede a reforma melhor que qualquer descrição escrita.

O que continua em aberto é quanto do trabalho dele sobreviveu. Negativo de vidro quebra, e parte das chapas se perdeu em mudança de guarda, umidade e manuseio ao longo do século XX, sem inventário completo do que existia no começo. Os catálogos descrevem o que está nas prateleiras hoje, não o que saiu da câmera entre 1903 e 1936, e essa diferença nenhuma instituição conseguiu fechar.

Sobrou também uma ironia de arquivo. O homem pago para documentar a destruição do casario acabou sendo o principal responsável por ele ainda ser visível, e as imagens que a prefeitura encomendou para justificar a picareta hoje aparecem em tese de história urbana que critica a mesma reforma.

A fotografia oficial serviu a dois donos em tempos diferentes: à administração que precisava provar obra feita, e ao pesquisador que precisa provar o que existia antes da obra.

A Rua do Hospício de sete metros de largura, com a roupa estendida e a tabuleta pintada à mão, está catalogada como arquivo aberto de 1905, assinado por Augusto Malta, a poucos quarteirões da avenida que a reforma abriu no lugar do casario vizinho.

“Quem registra a demolição a mando de quem demole produz documento ou produz defesa?”

 
 

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Segundo o texto, qual é o nome atual da Rua do Hospício, fotografada por Augusto Malta em 1905?

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CRua Buenos Aires
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