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A Palavra Photographie Nasceu em Campinas
Entre 1833 e 1834, um francês fixou imagens com sais de prata no interior paulista e batizou o processo cinco anos antes de John Herschel
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Retrato de Hércules Florence, autor desconhecido
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A 680 metros de altitude, a cerca de 100 quilômetros a noroeste da cidade de São Paulo, a Vila de São Carlos tinha ruas de terra, uma matriz no alto e uma botica que vendia droga importada em vidro lacrado. De um sobrado com quintal, entre 1833 e 1834, um francês de pouco menos de trinta anos punha ao sol folhas de papel molhadas em sal de prata e contava os minutos até a mancha escura aparecer. No caderno, em francês, ele registrou o nome que dava ao procedimento: photographie, ou fotografia em português, escrita pela luz.
O homem se chamava Antoine Hercule Romuald Florence, nascido em Nice em 1804 e desembarcado no Rio de Janeiro em 1824. Tinha sido segundo desenhista da expedição do barão de Langsdorff pelo interior do Brasil, quatro anos de rio e mato entre 1825 e 1829, e voltou dela com cadernos cheios de índios, peixes e cachoeiras desenhados à mão. A vila onde se fixou depois virou Campinas em 1842.
Fixar imagem com luz, naquela altura, era problema aberto em vários lugares do mundo ao mesmo tempo. Em Paris, Louis Daguerre trabalhava no processo que anunciaria em 1839. Na Inglaterra, William Henry Fox Talbot corria por outro caminho químico. O astrônomo John Herschel usou a palavra photography em inglês num texto apresentado à Royal Society em 1839, e ficou com o crédito de ter batizado a técnica.
O francês de São Carlos não tinha revista científica para publicar, nem academia para protocolar prioridade, nem correio confiável para atravessar o Atlântico com prova. Tinha um caderno, um farmacêutico como sócio de bancada e o sol do interior paulista. O que ele escreveu ficou guardado em papel de família por mais de um século, até um pesquisador brasileiro abrir os documentos e levá-los para teste de laboratório nos Estados Unidos.
A primeira seção reconstrói a fotografia que sobrou dele: quem está no quadro, quando a chapa foi feita, quem guarda o original hoje e por que a única imagem livre de um pioneiro da fotografia foi feita por outra pessoa, sem nome.
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I A Foto Histórica do Dia
O retrato feito por outra pessoa
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A fotografia que circula em acervo aberto mostra Hércules Florence já velho, sentado, de casaco escuro e barba branca aparada rente ao queixo, numa pose de estúdio fotográfico do século XIX. O arquivo está no Wikimedia Commons com o título Retrato de Hércules Florence, datado pelo acervo entre 1870 e 1879, com licença Creative Commons Attribution-ShareAlike 4.0, atribuição com compartilhamento igual, o que permite republicar a imagem citando a fonte.
O crédito do fotógrafo está vazio. A ficha do arquivo registra autor desconhecido e aponta a guarda para o Centro de Memória-Unicamp, em Campinas, dentro do conjunto João Falchi Trinca. O retrato também responde pelo verbete de Florence no Wikidata, a base de dados aberta que liga entidades entre projetos da Wikimedia, na propriedade de imagem principal.
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O que está no quadro e o que não está
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O quadro tem o corpo inteiro do assunto e nada do trabalho. Não aparecem o quintal, a mesa de experimento, as folhas ao sol, o vidro de nitrato de prata. O homem que passou a vida tentando provar que tinha fixado imagem com luz na província de São Paulo posou para uma câmera comercial, operada por alguém cujo nome ninguém anotou, quatro décadas depois do experimento que dá assunto a esta edição.
A produção fotográfica do próprio Florence sobreviveu em espécimes de uso prático, não em retratos. Restaram folhas impressas por contato que ele fazia sob encomenda: diplomas para a loja maçônica da vila e rótulos para vidro de farmácia, tirados a partir de matriz desenhada em vidro e papel sensibilizado exposto ao sol. Eram peças de serviço, feitas para pagar contas, e por serem de serviço foram guardadas em gaveta de cliente e de família.
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A imagem livre de Hércules Florence é um retrato de estúdio assinado por ninguém. O que ele inventou não está em nenhuma fotografia sua, está na letra dos cadernos e em papel de encomenda que sobrou por acaso.
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A guarda do material segue dividida entre duas instituições de Campinas. O Centro de Memória-Unicamp detém o conjunto que inclui o retrato, e o Instituto Hercule Florence, criado por descendentes, cataloga e digitaliza o acervo de manuscritos e desenhos da família. Parte do que a expedição Langsdorff rendeu em prancha desenhada também está em domínio público no Commons, com a assinatura Hercule Florence, fecit, expressão latina que significa fez isto.
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Obra que integra o conjunto João Falchi Trinca do acervo do Centro de Memória-Unicamp.
Centro de Memória-Unicamp, descrição do arquivo no Wikimedia Commons
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II O Que Ela Mudou de Verdade
Nitrato de prata e um farmacêutico de esquina
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A química de Campinas não veio de catálogo europeu. Quem abastecia a bancada era Joaquim Corrêa de Mello, farmacêutico e botânico da vila, que forneceu os sais e discutiu as reações com Florence ao longo dos experimentos. Papel embebido em nitrato de prata escurece sob luz; o problema técnico do período era parar o escurecimento depois, para que a imagem não continuasse a queimar até virar mancha uniforme.
Florence testou fixadores ao alcance de quem morava longe de tudo, incluindo amoníaco obtido de urina, e trabalhou por contato: matriz desenhada em vidro sobre o papel sensibilizado, exposição ao sol, lavagem. O procedimento não formava imagem de câmera com nitidez de lente, formava cópia de original opaco ou translúcido. Ele chamou a técnica de impressão sem prensa de polygraphie, poligrafia em português, e reservou o termo photographie para a parte feita pela luz.
A conta que o laboratório refez
O caso saiu do baú por trabalho de arquivo. O pesquisador e fotógrafo Boris Kossoy localizou e estudou os manuscritos da família na década de 1970 e publicou em 1980 o livro Hercule Florence: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil, que reuniu a documentação e a cronologia dos experimentos. A pesquisa transformou uma tradição familiar em dossiê com data, procedimento e testemunha.
Kossoy não parou no papel. Levou o processo descrito nos cadernos para teste em laboratório de ciência fotográfica nos Estados Unidos, no Rochester Institute of Technology e no Smithsonian Institution, onde as receitas anotadas por Florence foram reproduzidas com os mesmos insumos. A reprodução mostrou que o método descrito funciona e gera imagem estável, o que tirou o caso do terreno da lenda regional.
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O crédito internacional pelo batismo da técnica continua com John Herschel, que publicou em 1839 dentro do circuito científico britânico. A anterioridade de Florence, cinco anos antes e em francês, está documentada em manuscrito, e a documentação ficou em Campinas.
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A ordem das datas ajuda a entender o tamanho da distância. Florence escreve photographie no caderno em 1834. Daguerre anuncia o daguerreótipo em Paris em 1839, com apoio do governo francês e pensão vitalícia aprovada pela Câmara. Herschel apresenta o termo em inglês no mesmo ano. Entre o sobrado no interior paulista e a Academia de Ciências de Paris havia um oceano, dois meses de navio e nenhum interlocutor disposto a examinar papel vindo do Brasil.
Vale separar o que a anterioridade significa e o que ela não significa. Florence não inventou a fotografia moderna, não chegou à imagem de câmera fixada de forma estável, não formou escola e não influenciou o desenvolvimento técnico que veio depois. Ele chegou sozinho a uma solução parcial do mesmo problema e deu a ela um nome que o mundo adotaria por outro caminho.
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