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A Mulher de Tehuantepec, Última Foto de Tina Modotti no México

Em 1930, um atentado ao presidente Ortiz Rubio pôs a fotógrafa num navio em Veracruz, e ela guardou a câmera

Mulher de Tehuantepec, foto de Tina Modotti, 1929: tehuana com uma cabaça na cabeça contra o céu

Mulher de Tehuantepec, Tina Modotti, 1929

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A 2.240 metros de altitude, no vale do México, o ar rarefeito deixa a luz dura e as sombras recortadas como papel. Dali, de um apartamento no centro da capital, uma fotógrafa italiana passou sete anos apontando a câmera para mãos de operários, bandeiras, espigas de milho e rostos de mulheres no mercado.

Em 5 de fevereiro de 1930, o novo presidente do México, Pascual Ortiz Rubio, deixava o Estádio Nacional depois da cerimônia de posse. Um jovem chamado Daniel Flores se aproximou do carro e disparou. A bala atingiu o rosto do presidente, que sobreviveu com a mandíbula ferida.

Naquela mesma noite, a polícia saiu prendendo militantes comunistas pela cidade. Entre os presos estava a fotógrafa, levada para a penitenciária de Lecumberri, que os mexicanos chamavam de Palácio Negro pelas paredes escuras e da fama de quem entrava ali.

Ninguém apresentou prova contra ela. Flores agiu sozinho, e a ligação da fotógrafa com o atentado nunca passou de suspeita de jornal. O governo aplicou o artigo 33 da Constituição mexicana, que permite ao presidente expulsar um estrangeiro sem processo e sem direito a recurso.

Ela tinha 33 anos e poucos dias para desmontar a vida. Vendeu a mobília, distribuiu cópias e negativos entre amigos e fez as malas sob vigilância. Os jornais da capital publicavam a foto dela ao lado da palavra agitadora.

No dia 24 de fevereiro, escoltada por agentes, embarcou em Veracruz, no golfo do México, no navio holandês Edam, rumo à Europa. A Itália de Mussolini a tratava como inimiga política, e ela não podia descer no próprio país.

Poucos meses antes da prisão, numa viagem ao sul, ela tinha feito a fotografia que abre esta edição. A seção I conta quem era a mulher da imagem, o que ela carrega na cabeça e por que a fotógrafa foi buscá-la tão longe da capital.

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I  A Foto Histórica do Dia

Uma cabaça contra o céu do istmo

A autora da foto era Assunta Adelaide Luigia Modotti, conhecida como Tina Modotti, nascida em Udine, no nordeste da Itália, em 17 de agosto de 1896. Aos 16 anos, emigrou para San Francisco, na Califórnia, onde costurou numa fábrica de seda e depois subiu ao palco do teatro italiano da cidade.

Em 1920, fez o papel principal do filme mudo The Tiger's Coat (O casaco do tigre), em Hollywood. Foi no meio artístico de Los Angeles, em 1921, que conheceu o fotógrafo americano Edward Weston, dez anos mais velho.

A aprendiz de Weston

Em 1923, os dois se mudaram juntos para a Cidade do México. Weston abriu um estúdio de retratos, e Modotti trabalhou como assistente, modelo e aluna. Aprendeu com ele a revelar, a ampliar e a compor com a câmera de grande formato, apoiada em tripé.

Weston voltou para a Califórnia em 1926. Modotti ficou, montou o próprio trabalho e trocou as naturezas-mortas por gente: camponeses em marcha, mulheres com filhos no colo, mãos segurando uma pá.

A viagem a Tehuantepec

Em 1929, ela viajou ao istmo de Tehuantepec, no estado de Oaxaca, a faixa mais estreita do México, onde o Pacífico e o golfo ficam a cerca de 200 quilômetros um do outro. Ali vivem as tehuanas, mulheres zapotecas (povo indígena do sul do México) famosas por comandar o comércio dos mercados.

Para esse trabalho, Modotti levou uma Graflex, câmera de reflexo com espelho interno, mais leve e rápida do que o equipamento de tripé que tinha aprendido a usar com Weston. Assim podia fotografar gente andando, sem pedir pose.

A série do istmo tem outras imagens do mesmo mês: crianças nuas no rio, mulheres conversando na sombra, uma tehuana de costas carregando um cesto. Nenhuma traz data exata no verso, e os catálogos registram apenas o ano de 1929.

O que a imagem mostra

Na foto, uma tehuana aparece vista de baixo, recortada contra o céu claro. Na cabeça, ela equilibra uma jícara (cabaça pintada, usada como tigela para levar frutas e mercadoria ao mercado), segura com uma das mãos.

O rosto fica de perfil, sério, e o ombro coberto pelo huipil (blusa bordada típica das zapotecas) ocupa a parte baixa do quadro. Não há paisagem, mercado nem multidão: só a mulher, a carga e o céu.

O ângulo de baixo era escolha deliberada. Fotografada assim, a vendedora fica mais alta do que quem olha a imagem, e a cabaça do mercado ganha o peso de uma coroa. Weston usava o mesmo truque com cactos e jarros de barro; Modotti o aplicou a uma trabalhadora.

Uma mulher de baixo para cima, com a carga do mercado na cabeça, ocupa o quadro inteiro, sem paisagem nem pose.

A cópia em Los Angeles pertence ao Museu J. Paul Getty, que a liberou para uso livre. A imagem do topo vem desse acervo, com registro no Wikimedia Commons.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A câmera que virou documento

Em dezembro de 1929, semanas depois da viagem a Tehuantepec, Modotti abriu a única exposição individual da vida dela, na Biblioteca Nacional, na Cidade do México. O pintor David Alfaro Siqueiros deu uma palestra na abertura e chamou a mostra de primeira exposição fotográfica revolucionária do país.

O adjetivo tinha razão de ser. As fotos dela já circulavam no El Machete, jornal do Partido Comunista Mexicano, ao qual Modotti se filiara em 1927, e na revista Mexican Folkways, editada pela americana Frances Toor.

O texto de 1929

No mesmo ano, Modotti publicou na Mexican Folkways um ensaio curto chamado Sobre a fotografia. Nele, recusou o rótulo de artista e defendeu a câmera como instrumento de registro da vida como ela é:

“Eu me considero uma fotógrafa, nada mais.”

A frase respondia a uma discussão da época, quando muitos fotógrafos imitavam a pintura com lentes desfocadas e cópias retocadas. Modotti queria nitidez, luz natural e gente real.

Os murais em papel

Ela também fotografou os murais de Diego Rivera e José Clemente Orozco, e essas cópias levaram as pinturas das paredes de prédios públicos mexicanos para revistas de outros países. Rivera a pintou em 1928 no painel Na arsenal, na Secretaria de Educação Pública, distribuindo armas.

O caso Mella

Em 10 de janeiro de 1929, o revolucionário cubano Julio Antonio Mella, companheiro de Modotti, foi baleado numa rua da capital enquanto caminhava ao lado dela. A imprensa conservadora a acusou de cumplicidade e publicou fotos íntimas tiradas por Weston anos antes.

A investigação apontou para agentes do ditador cubano Gerardo Machado, e Modotti foi liberada. Um ano depois, quando Flores atirou em Ortiz Rubio, a fama criada pelo caso Mella pesou mais do que qualquer prova.

Para o governo de Ortiz Rubio, ela reunia três marcas suspeitas ao mesmo tempo: estrangeira, comunista e mulher sozinha com vida pública. O artigo 33 dispensava explicar qual das três pesava mais.

O preço de uma cópia

Em 1991, a casa de leilões Sotheby's, em Nova York, vendeu uma cópia de Rosas, foto de Modotti feita em 1924, por 165 mil dólares, então o maior valor já pago por uma fotografia num leilão.

A venda devolveu Modotti aos catálogos de fotografia, depois de décadas em que ela aparecia nos livros sobretudo como modelo e aluna de Weston. A partir dali, museus como o MoMA, em Nova York, e o Getty passaram a disputar cópias de época com a assinatura dela.

 

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III  Depois da Foto

Do cais de Veracruz ao Panteão de Dolores

O Edam levou Tina Modotti até a Europa, e em 1930 ela tentou recomeçar em Berlim. Comprou uma Leica, câmera pequena de filme de 35 milímetros, mas não se adaptou ao aparelho nem às ruas alemãs, e escreveu a Weston contando a dificuldade.

Ainda em 1930, mudou-se para Moscou e foi trabalhar para o Socorro Vermelho Internacional, organização soviética de apoio a presos políticos. Pouco depois, deixou de fotografar. As cópias que restam dela foram feitas quase todas entre 1923 e 1930.

Espanha e a volta

Durante a Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, Modotti atuou em hospitais e campanhas de ajuda do lado republicano, usando o codinome María. Viveu esse período ao lado do italiano Vittorio Vidali, comunista que viajara com ela no Edam.

Com a derrota republicana, voltou ao México em 1939, com documentos falsos. O governo de Lázaro Cárdenas anulou depois a expulsão, e ela ficou na capital, sem retomar a câmera.

Os amigos da capital guardavam ainda as caixas de negativos deixadas em 1930. Parte delas foi parar, décadas depois, na Fototeca Nacional do Instituto Nacional de Antropologia e História, em Pachuca, no estado de Hidalgo.

O táxi de 1942

Na madrugada de 6 de janeiro de 1942, Modotti teve um ataque cardíaco dentro de um táxi, na Cidade do México, voltando de um jantar. Tinha 45 anos. A autópsia registrou insuficiência do coração.

Parte da imprensa levantou suspeita de envenenamento e apontou para Vidali. Nenhuma prova apareceu, e o caso nunca foi reaberto; o laudo oficial segue como a única versão documentada.

Daniel Flores, o atirador de 1930, foi condenado sozinho; a fotógrafa expulsa no rastro dele nunca respondeu a processo.

O poeta chileno Pablo Neruda escreveu Tina Modotti morreu, e versos do poema estão gravados na lápide dela, no Panteão de Dolores, o maior cemitério da capital mexicana.

A 2.240 metros, no vale do México, a fotógrafa está enterrada a poucos quilômetros de Lecumberri. A jícara da tehuana segue equilibrada contra o céu de 1929, na cópia guardada pelo Getty em Los Angeles.

 
 
Quiz da edição

Qual artigo da Constituição mexicana o governo usou para expulsar Tina Modotti sem processo, depois do atentado contra Ortiz Rubio?

AArtigo 123
BArtigo 13
CArtigo 33
DArtigo 27

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