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ED 018

A Menina Afegã e a Íris Que Devolveu um Nome

Em 1984, num campo de refugiados no Paquistão, ninguém anotou o nome da menina fotografada, e o retrato virou capa sem identidade

Cartaz com o retrato de Sharbat Gula na entrada da exposição sobre o fotógrafo Steve McCurry, em Bruxelas, em 2017.

Sharbat Gula - Brussels - 2017, Saber68, 2017

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Existe uma categoria de fotografia que o mundo inteiro reconhece e ninguém consegue nomear. O rosto circula em capa de revista, cartaz de campanha, camiseta de feira e parede de museu, e embaixo dele aparece sempre a mesma legenda genérica, feita de um substantivo comum e o nome de um país.

A legenda é o ponto cego do fotojornalismo. A câmera registra o rosto com precisão de milímetro, guarda a data, guarda o tipo de filme, guarda o número do rolo e o número do quadro, e deixa de fora a única informação que a pessoa fotografada considera dela: como ela se chama.

O esquecimento raramente é maldade. Quem fotografa em zona de guerra trabalha com pouca luz, pouco tempo e nenhum idioma em comum, e o caderno de anotações termina o dia cheio de coordenadas e vazio de nomes próprios.

Um retrato sem nome também funciona melhor para quem publica. Ele vira símbolo com facilidade, cabe em qualquer texto, representa milhões de pessoas ao mesmo tempo e nunca contradiz a manchete. Um nome próprio faz o contrário: ele encolhe a imagem até o tamanho exato de uma vida, com endereço, parentes e opinião própria.

Foi por essa fresta que passou o retrato de uma menina de olhos verdes fotografada num acampamento de refugiados no norte do Paquistão, no fim de 1984. A imagem virou uma das capas mais reproduzidas do século e, por dezessete anos, a pessoa que aparecia nela não soube que existia.

A correção veio de um lugar improvável, o mesmo que tinha criado o problema: a própria fotografia. O olho registrado no filme guardava um desenho tão individual quanto uma impressão digital, e bastou existir um programa capaz de medir esse desenho para que a comparação virasse prova.

Antes do programa, porém, houve uma tenda de escola no meio da poeira, uma turma de meninas sentadas no chão e um fotógrafo com poucos minutos disponíveis e um rolo de filme quase no fim.

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I  A Foto Histórica do Dia

A tenda de escola no acampamento de Nasir Bagh

O acampamento de Nasir Bagh ficava nos arredores de Peshawar, no noroeste do Paquistão, e era um dos maiores da região. Depois da invasão soviética do Afeganistão em 1979, a fronteira recebeu um fluxo contínuo de famílias, e em meados dos anos 1980 o Paquistão abrigava mais de três milhões de refugiados afegãos.

Nasir Bagh não tinha nada de provisório além do nome. Casas de barro, ruas de terra, mercado, poço, mesquita e escolas improvisadas em tendas de lona, montadas por organizações de ajuda para dar alguma rotina às crianças que tinham atravessado a montanha a pé.

Em dezembro de 1984, um fotógrafo em pauta sobre a guerra afegã entrou numa dessas tendas. A turma era de meninas, e ele pediu autorização ao professor para trabalhar ali por alguns minutos, na luz que entrava pela abertura da lona.

A menina tinha cerca de doze anos, nunca tinha sido fotografada antes e concordou com um gesto de cabeça, sem dizer o nome.

O que estava dentro da tenda

Ela era pashtun, órfã, e tinha chegado ao Paquistão depois que um ataque aéreo soviético destruiu a aldeia da família nas montanhas próximas a Tora Bora. A caminhada até a fronteira levou semanas, com a avó e os irmãos, por passagens de neve.

Nada disso apareceu no enquadramento. A imagem tem apenas o rosto de frente, o xale vermelho gasto e rasgado no ombro, o fundo verde da lona e os olhos claros olhando direto para a lente, sem sorriso e sem pose.

O equipamento era comum para a época: câmera manual de 35 milímetros, lente de 105 milímetros e filme colorido de baixa sensibilidade, o tipo que exige luz boa e devolve cor saturada. A sessão inteira durou poucos quadros, porque a menina ficou desconfortável e a turma precisava continuar a aula.

O fotógrafo anotou o local, a data e o rolo. Não anotou o nome, e o professor não foi perguntado. Na mesa de edição, meses depois, a ficha da imagem chegou com a identificação que viraria o título permanente: menina afegã, Paquistão, 1984.

A escolha do quadro também foi disputada. Havia uma versão em que ela cobria parte do rosto com o xale, considerada mais delicada por parte da equipe, e havia a versão do olhar direto, que o editor da revista defendeu por causa da tensão que ela produzia em quem abria a página.

A capa saiu na edição de junho de 1985. Nenhuma linha do texto trazia um nome próprio, porque não havia nome próprio a trazer, e a menina fotografada seguiu a vida no acampamento sem saber que tinha virado a imagem de uma revista distribuída em dezenas de países.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

A capa que virou rosto de uma guerra inteira

Aquela edição de junho de 1985 fez algo raro para uma revista de reportagem: transformou uma pessoa desconhecida num símbolo reconhecível em qualquer aeroporto do planeta. A capa foi reimpressa em cartaz, em calendário, em campanha de arrecadação e em capa de livro escolar.

O apelido apareceu logo depois. A imprensa começou a chamar a fotografia de Mona Lisa afegã, comparação que diz mais sobre o mercado de imagens do que sobre a guerra, porque coloca no mesmo balcão um retrato renascentista e uma criança deslocada por bombardeio.

A comparação com um quadro de museu foi o carimbo definitivo: a partir dali a imagem passou a ser tratada como obra, e a pessoa dentro dela virou detalhe técnico.

A economia disso é simples de descrever. Um rosto anônimo pode representar três milhões de pessoas sem que ninguém reclame de imprecisão. Um rosto com nome, aldeia e sobrenome representa uma pessoa só, e obriga o texto a contar a história dela em vez de usar a foto como ilustração de tese.

Notei uma menina com aqueles olhos incríveis e soube na hora que era a única foto que eu queria fazer.

Steve McCurry, entrevista à National Geographic, 2002

O que a imagem fez circular

O efeito prático não foi pequeno. A capa aumentou o volume de doações destinadas a refugiados afegãos, entrou em material de campanha de agências humanitárias e ajudou a manter o assunto em pauta num período em que a guerra saía das primeiras páginas com frequência.

O efeito colateral também não foi pequeno. A imagem passou a ser usada como sinônimo visual de sofrimento em geral, aplicada a contextos que nada tinham a ver com o Afeganistão, e o olhar da menina virou uma espécie de moeda gráfica aceita em qualquer lugar.

Fotógrafos e editores discutiram o caso durante anos. O argumento a favor é que a fotografia deu escala a um drama que estatística nenhuma consegue comunicar. O argumento contra é que ela fez isso ao custo da pessoa retratada, que não foi consultada, não foi identificada e não recebeu nada.

Havia ainda a questão prática do consentimento. Uma menina de doze anos num acampamento não tem como avaliar o que significa aparecer na capa de uma revista internacional, e não existia mecanismo nenhum, na época, para localizar a família depois e explicar o que tinha acontecido.

O tempo empurrou o problema para frente. A revista mudou de editor, o fotógrafo seguiu para outras coberturas, a União Soviética saiu do Afeganistão em 1989 e o acampamento de Nasir Bagh continuou de pé, com uma segunda geração nascida lá dentro.

A pergunta que ficou pendurada era sempre a mesma, e ninguém tinha resposta. Quem é ela, onde está e o que aconteceu com a menina do xale vermelho depois que o fotógrafo guardou o equipamento e pegou a estrada de volta para Peshawar.

 
 

III  Depois da Foto

O nome que voltou pelo desenho da íris

Em janeiro de 2002, uma equipe de reportagem foi ao Paquistão com uma única tarefa: encontrar a pessoa da capa. O acampamento de Nasir Bagh estava sendo desmontado naquele momento, as casas de barro derrubadas por trator, e os moradores se dispersavam para o Afeganistão ou para outras cidades paquistanesas.

A busca começou errada. Várias mulheres foram apresentadas como sendo a menina da foto, algumas por engano sincero, outras por interesse. Um homem chegou a apresentar a esposa, convencido da semelhança, e a comparação de traços descartou a hipótese em pouco tempo.

A pista boa veio de um morador antigo que reconheceu o rosto e disse ter estudado com o irmão dela. Ele levou a equipe até uma aldeia remota do lado afegão da fronteira, e dias depois uma mulher aceitou ser fotografada de novo, com autorização do marido.

O desenho da íris se estabiliza na primeira infância e não muda com a idade, o que transforma um olho fotografado em documento comparável décadas depois.

Como a confirmação foi feita

A verificação foi montada em três frentes independentes:

1John Daugman, de Cambridge, autor do algoritmo de reconhecimento de íris usado até hoje em controle de fronteira, comparou os padrões das duas imagens e classificou a coincidência como certa.
2Analistas forenses do FBI examinaram a geometria do rosto, especialmente a estrutura das órbitas e a proporção entre nariz e maxilar, e chegaram à mesma conclusão.
3A própria mulher descreveu a tenda de escola, o dia do bombardeio que matou os pais e a caminhada pela montanha, detalhes que batiam com o caderno de campo de 1984.

O nome era Sharbat Gula. Ela tinha por volta de trinta anos, era casada com um padeiro, morava sem eletricidade e sem água encanada, e tinha perdido uma filha ainda bebê. Nunca tinha visto a capa da revista, e a primeira vez que olhou para a própria imagem foi naquele encontro.

A reportagem do reencontro saiu em abril de 2002 e virou documentário no mesmo ano. A revista criou um fundo para meninas e mulheres afegãs, que passou a receber doações do público, e uma parte do dinheiro foi destinada diretamente à família dela, com casa, tratamento médico e acompanhamento.

A vida seguiu difícil depois disso. Em 2016, Sharbat Gula foi presa em Peshawar acusada de usar documento de identidade paquistanês irregular, ficou detida por dias, foi deportada para o Afeganistão e recebida oficialmente em Cabul pelo presidente do país, que lhe entregou um apartamento.

Em 2021, com a volta do Talibã ao poder, ela deixou o Afeganistão outra vez e foi acolhida pela Itália, num programa de evacuação. O retrato de 1984 continuou circulando o tempo todo, agora com o nome impresso ao lado, e ela seguiu pedindo o oposto do que a fama oferece: privacidade.

Uma legenda que custou dezessete anos para ser preenchida acabou provando que a informação estava dentro da foto o tempo inteiro, esperando alguém inventar o instrumento certo para lê-la.

“Quantas imagens você já compartilhou sem saber o nome de quem aparece nelas?”

 
 
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A Datação por Camadas que descobre o ano, o lugar e o nome na foto de família que ninguém soube explicar.

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Quiz da edição

Qual lente equipava a câmera que registrou o retrato da menina afegã na tenda de escola de Nasir Bagh?

A50 milímetros
B200 milímetros
C105 milímetros
D24 milímetros
 
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