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A Mão com o Anel de Anna Bertha

Em 22 de dezembro de 1895, Röntgen pediu que a esposa apoiasse a mão sobre uma placa de vidro por quinze minutos e revelou o esqueleto dela

Primeira radiografia médica, a mão esquerda de Anna Bertha Ludwig com a aliança no dedo anular, feita por Wilhelm Conrad Röntgen em 22 de dezembro de 1895.

Mão de Anna Bertha, Röntgen, 1895

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A 177 metros de altitude, no número 11 da Pleicherring, em Würzburg, o Instituto de Física da universidade ocupava um prédio de esquina com as janelas viradas para o rio Meno. Na noite de 8 de novembro de 1895, numa sala escurecida do térreo, um tubo de vidro embrulhado em papelão preto estava ligado sobre a bancada. A quase dois metros dali, uma tela pintada com platinocianeto de bário começou a brilhar. Nada naquele arranjo deveria atravessar o papelão.

Wilhelm Conrad Röntgen tinha 50 anos e dirigia o instituto. Passou as seis semanas seguintes praticamente dentro da sala, comendo e dormindo no prédio. Colocou madeira, alumínio, borracha e uma caixa de pesos de latão entre o tubo e a tela, e anotou o que cada material deixava passar. A radiação atravessava quase tudo e parava no metal denso. Faltava a prova que convencesse alguém que não estivesse ali dentro.

Em 22 de dezembro de 1895, ele chamou a esposa, Anna Bertha Ludwig, para o porão e pediu que ela apoiasse a mão esquerda sobre um chassi com placa fotográfica de vidro. A exposição durou cerca de quinze minutos com a mão imóvel. Na chapa revelada apareceram as falanges, os metacarpos, o contorno pálido da carne em volta e, sobre o dedo anular, um anel escuro e fechado, mais denso que o osso.

Seis dias depois, Röntgen entregou o manuscrito à Sociedade Físico-Médica de Würzburg e mandou cópias da chapa, com separatas do artigo, a colegas de várias cidades. Em janeiro de 1896 a imagem já saía em jornal diário de Viena, Londres e Nova York, menos de dez semanas depois da noite em que a tela brilhou.

O que veio depois foi rápido do mesmo jeito, e em direção nenhuma que Röntgen tivesse previsto. Retratos de esqueleto viraram atração paga de salão, de feira e de vitrine de sapataria, com operadores que ajustavam o tempo de exposição no olho, sem instrumento de medida e sem norma nenhuma escrita. A primeira seção reconstrói a chapa em si: o aparelho, o tempo, quem revelou e por que a aliança no dedo carrega metade do peso da imagem.

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I  A Foto Histórica do Dia

Quinze minutos sobre uma placa de vidro

O tubo usado naquele dezembro era um tubo de Crookes, ampola de vidro com ar rarefeito e dois eletrodos, alimentada por uma bobina de indução. Röntgen o embrulhou em papelão preto justamente para eliminar a luz visível e o brilho do vidro, e trabalhou com a sala às escuras. A radiação que saía dali não tinha nome, e ele a chamou de raios X, com o X de incógnita matemática, no título do artigo que escreveu em dezembro.

A chapa de 22 de dezembro não foi a primeira imagem que ele obteve. Antes dela vieram a caixa de pesos fotografada fechada e, segundo o relato do próprio artigo, a sombra dos ossos da mão dele projetada na tela fluorescente. A chapa com Anna Bertha ficou registrada em vidro, revelável, reproduzível e enviável pelo correio.

O que a chapa mostra e o que ela esconde

A leitura da imagem é direta. O osso barra mais radiação que o tecido mole e sai claro no negativo revelado; a carne aparece como uma névoa cinza em volta; o anel de metal, mais denso que tudo, sai como um bloco cheio. Não há profundidade, não há cor e não há órgão nenhum além do esqueleto da mão.

A aliança faz um trabalho que a anatomia não faria sozinha. Ela informa que aquela mão pertence a uma pessoa viva, casada, que tirou a mão da chapa quinze minutos depois e voltou para o andar de cima. Sem o anel, a imagem seria um esqueleto anônimo, e esqueleto de mão já existia em gabinete de anatomia desde o século XVI.

O anel transforma um achado de física em retrato. É por causa dele que a chapa de 22 de dezembro circula até hoje como imagem de uma mulher com nome, e não como prancha de laboratório.

A reação de Anna Bertha à própria imagem virou a frase mais citada do episódio, e foi registrada por biógrafos a partir do relato da família. Ela teria dito que tinha visto a própria morte. A frase faz sentido no vocabulário visual de 1895: até aquela tarde, ver o esqueleto de alguém significava que a pessoa já não estava mais inteira.

Röntgen não patenteou nada. Recusou as ofertas de indústria alemã de 1896 e manteve a descrição do aparelho aberta no artigo, o que permitiu que qualquer laboratório com bobina de indução montasse o próprio equipamento em poucos dias. Recebeu o primeiro Prêmio Nobel de Física, em 1901, e doou o valor à Universidade de Würzburg.

Se a mão é mantida entre o tubo de descarga e a tela, vê-se a sombra mais escura dos ossos dentro da sombra mais clara do contorno da mão.

Wilhelm Conrad Röntgen, Über eine neue Art von Strahlen, 1895

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

O esqueleto vira atração paga

Em 23 de janeiro de 1896, Röntgen fez a única palestra pública dele sobre a descoberta, na Sociedade Físico-Médica de Würzburg. No fim da fala, radiografou ao vivo a mão do anatomista Albert von Kölliker, que estava na plateia. Kölliker propôs na hora que a radiação levasse o sobrenome do professor, e em alemão os raios são chamados assim até hoje.

A adoção médica foi quase imediata, por um motivo prático: hospital nenhum precisava esperar autorização nem treinamento formal. Em fevereiro de 1896 já havia registro de uso clínico para localizar fratura e projétil alojado na Europa e na América do Norte. A Guerra Hispano-Americana, em 1898, e depois a Guerra dos Bôeres levaram aparelhos de campanha para hospitais militares.

Da enfermaria para a calçada

O mesmo equipamento saiu do hospital e foi para o comércio no mesmo ano. Estúdios fotográficos de cidade grande passaram a vender o retrato de esqueleto como novidade de salão, com a cliente apoiando a mão enluvada sobre a chapa do jeito que Anna Bertha tinha feito. A imagem de uma mão com joias atravessada por raios virou peça de decoração e brinde de visita.

A feira pegou o costume em seguida. Operador de parque montava a ampola numa caixa, cobrava pela sessão e deixava o cliente olhar a própria mão na tela fluorescente pelo tempo que quisesse pagar. Nos anos 1920, o aparelho ganhou forma de móvel e entrou na sapataria: o fluoroscópio de calçado, com uma janela de visor no topo, mostrava o pé da criança dentro do sapato novo.

Entre o laboratório de Würzburg e a vitrine da sapataria passaram menos de trinta anos, e nesse intervalo ninguém tinha publicado um limite de exposição que valesse para os dois lugares.

A ausência de norma não era descuido de uma pessoa. Não existia unidade de medida aceita para quantidade de radiação, não existia instrumento portátil de leitura, e a única forma de saber que a dose tinha sido alta era esperar a pele reagir dias depois. O operador ajustava o tempo pela nitidez da imagem, que é o critério errado quando o dano se acumula e aparece com atraso.

Houve aviso cedo. Ainda em 1896, publicações médicas americanas e europeias já descreviam queda de cabelo, vermelhidão e descamação em quem trabalhava perto dos tubos. Thomas Edison, que desenvolvia um fluoroscópio próprio, abandonou a linha de pesquisa em 1903 depois que o assistente dele adoeceu gravemente, e declarou publicamente que não queria mais saber do aparelho.

O que faltava para transformar aviso em regra era autoridade com jurisdição: cada hospital, estúdio e parque decidia o próprio procedimento.

 

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III  Depois da Foto

O monumento de Hamburgo

No pátio do hospital St. Georg, em Hamburgo, existe desde 1936 um monumento de pedra dedicado a quem trabalhou com raios X e radium antes de haver proteção. A lista gravada começou com 169 nomes de quinze países, e novas placas foram acrescentadas depois. Os primeiros operadores serviram, sem saber, de dosímetro humano.

Os casos que abriram a conta são documentados um a um. Clarence Dally, assistente de Edison no laboratório de West Orange, passou anos testando telas fluorescentes com as próprias mãos, sofreu amputações sucessivas dos dois braços e não resistiu a um carcinoma em 1904. Elizabeth Fleischman Aschheim, que operava um dos primeiros serviços de radiografia de São Francisco, teve o braço direito amputado e faleceu em 1905.

Como conferir a chapa por conta própria

1Procure no Wikimedia Commons pelo arquivo First medical X-ray by Wilhelm Röntgen of his wife Anna Bertha Ludwig's hand, de 22 de dezembro de 1895, e confira data, autoria e licença na própria página antes de reutilizar a imagem.
2Repare no dedo anular. A mancha escura e fechada do anel é o teste mais rápido de autenticidade da chapa, porque as versões refeitas em estúdio nos anos seguintes costumam trazer mão sem joia ou com anel em outro dedo.
3Desconfie de versão colorida em verde ou azul. A chapa original é uma imagem em preto e branco sobre vidro, e a cor entrou só nas reproduções modernas feitas para capa de revista.

A regulação chegou por congresso profissional, não por lei nacional. O primeiro comitê internacional de proteção contra raios X e radium nasceu em 1928, no Segundo Congresso Internacional de Radiologia, em Estocolmo, e virou em 1950 a Comissão Internacional de Proteção Radiológica. Trinta e três anos separam a chapa de Würzburg da primeira recomendação internacional de proteção.

O fluoroscópio de sapataria demorou ainda mais para sair das lojas. Ele continuou em uso comercial nos Estados Unidos e na Europa até a virada dos anos 1950 e 1960, quando Estado por Estado passou a proibir o equipamento. As últimas proibições saíram quando o aparelho já era peça de colecionador.

A radiologia é uma das poucas áreas técnicas que ergueu um monumento para as próprias vítimas de aprendizado. A pedra de Hamburgo faz o papel que nenhum relatório fez: manter o custo à vista de quem entra na sala hoje.

O aparelho que saiu daquele porão continua na medicina, com exposição medida em fração de segundo, avental de chumbo e registro individual de dose acumulada para quem trabalha na sala. A mesma mão que ficou quinze minutos parada em 1895 hoje sai numa radiografia em menos tempo do que leva para piscar.

A chapa de vidro de 22 de dezembro está no acervo do Deutsches Röntgen-Museum, em Remscheid, cidade natal de Röntgen, e a mão com o anel segue sendo a imagem mais reproduzida da história da radiologia. O anel escuro no dedo anular de Anna Bertha Ludwig continua ali, mais denso que o osso, marcando a hora em que o corpo humano virou objeto fotografável por dentro.

“Quantas descobertas precisaram de um monumento antes de ganharem uma norma?”

 
 

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