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O nome é Florence Owens Thompson. Nascida Florence Leona Christie em 1903, em território indígena que viraria o estado de Oklahoma, cherokee, viúva desde 1931, quando o marido não resistiu à tuberculose. Em março de 1936 tinha trinta e dois anos e sete filhos.
Durante quarenta e dois anos ela não aparece com nome em lugar nenhum. A legenda oficial seguiu falando em colhedores de ervilha em situação de miséria, e os jornais do mundo inteiro reproduziram a legenda do arquivo sem alterar uma vírgula.
Em 1978, um repórter do Modesto Bee localizou Thompson num parque de trailers na Califórnia e publicou a identificação. As agências espalharam a informação em poucos dias, e o rosto mais reproduzido da Depressão ganhou sobrenome quando a dona dele já tinha setenta e cinco anos.
A fala dela na reportagem é seca. Disse que gostaria que aquela fotografia nunca tivesse sido tirada, que nunca conseguiu um centavo com ela, e que a fotógrafa prometeu mandar uma cópia da imagem e nunca mandou.
A conta financeira segue a mesma lógica dos dois lados do quadro. Lange trabalhava por salário federal e nunca teve direito sobre a imagem. Em 1998, uma cópia de época assinada por ela foi a leilão em Nova York e saiu por 244.500 dólares.
Em 1983, aos oitenta anos, Thompson teve um derrame, e a família tornou pública a dificuldade de pagar o tratamento. Cerca de duas mil pessoas mandaram cartas, e algo perto de trinta e cinco mil dólares chegou pelo correio, quase cinquenta anos depois do disparo em Nipomo.
Ela partiu em setembro daquele mesmo ano. Na lápide, em Hughson, na Califórnia, o nome completo vem seguido do apelido que o país colou nela e de uma linha sobre a força da maternidade americana.
Os filhos que aparecem de costas no quadro falaram pouco e falaram tarde. Katherine McIntosh, uma das meninas encostadas no ombro da mãe, contou décadas depois que a família nunca parou de se mudar e que a fotografia foi motivo de orgulho e de constrangimento ao mesmo tempo.
Lange seguiu carreira. Recebeu a bolsa Guggenheim em 1941, a primeira concedida a uma fotógrafa, e largou a bolsa no ano seguinte para registrar o confinamento de nipo-americanos em campos federais. O Exército reteve aquelas fotografias, que ficaram décadas paradas num arquivo, longe de qualquer publicação.
Ela partiu em 1965, poucos meses antes da retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de Nova York montou com o trabalho dela, a primeira que a instituição dedicou a uma fotógrafa.
Os seis negativos de Nipomo continuam no acervo federal, com e sem o polegar, à disposição de quem quiser baixar em alta resolução. Nenhum deles pede autorização, nenhum deles gera pagamento, e a legenda original continua lá, com o nome acrescentado numa nota posterior.
A fotografia que define a Grande Depressão é gratuita para qualquer um imprimir, e a mulher no centro dela passou quarenta e dois anos sendo uma linha de ficha sem nome.
"O que se deve a alguém cuja imagem o mundo inteiro pode imprimir de graça?"
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