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ED 002

A Mãe que Odiava a Própria Foto

Em março de 1936, Dorothea Lange parou dez minutos num acampamento em Nipomo e fez seis negativos de uma mulher cujo nome ela não perguntou

Um aro de roda sem pneu encostado num carro antigo, sobre chão de terra seca, ao lado da lona de uma barraca amarrada num mastro de madeira.

O aro sem pneu, vendido para comprar comida

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A ficha da fotografia mais reproduzida da Grande Depressão tem quatro linhas e nenhum nome. Colhedores de ervilha em situação de miséria, na Califórnia. Mãe de sete filhos. Trinta e dois anos. Nipomo, Califórnia.

É o que o acervo federal registra desde 1936, e foi o bastante para o quadro atravessar noventa anos. A imagem virou capa de jornal, ilustração de livro escolar e cartaz de programa de governo, sempre com a mesma legenda anônima colada embaixo, sempre apresentada como retrato de um país inteiro e nunca como retrato de uma pessoa.

A ausência do nome não foi descuido de uma tarde corrida. O trabalho de campo daquele programa federal pedia lugar, cultura agrícola e condição da família, e a ficha era preenchida com categorias: colhedor de ervilha, mãe de sete, trinta e dois anos. O rosto entrava no arquivo como exemplo de uma situação, e exemplo não costuma ter sobrenome.

O arranjo que fez a fotografia circular sem freio é jurídico, não artístico. Ela foi feita por uma funcionária do governo americano em serviço, entrou em domínio público no instante do disparo e nunca teve dono particular. Qualquer jornal do planeta podia imprimir sem pedir licença, sem dar satisfação e sem pagar um centavo a ninguém.

A frase colada na imagem diz duas coisas: que ela alimentou um acampamento inteiro e que salvou a família retratada. Uma das duas tem documento e data. A outra desmonta assim que a linha do tempo entra na conversa, e o que sobra dela é bem menos generoso.

Falta ainda a parte que legenda nenhuma carrega. Entre o dia do disparo e o dia em que a mulher da fotografia teve o nome publicado passaram quarenta e dois anos, e ela chegou ao fim da vida convencida de que aquele quadro tinha sido um mau negócio para a própria família.

Comece por uma placa de madeira na beira da rodovia 101, passada de carro por uma fotógrafa que já estava a caminho de casa, com um mês de estrada nas costas, chuva no para-brisa e vontade nenhuma de encostar.

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I  A Foto Histórica do Dia

Dez minutos e seis negativos

Uma placa de madeira na beira da estrada, uma volta de trinta e dois quilômetros e uma barraca de lona armada num campo de ervilha congelada. Aqui está a ficha do encontro, da câmera de chapa ao polegar que alguém apagou do negativo.

Dorothea Lange, Resettlement Administration, março de 1936, acampamento de colhedores de ervilha em Nipomo, na Califórnia. A câmera era uma Graflex Series D, de chapa 4x5, e o serviço estava encerrado: ela dirigia de volta para Berkeley depois de um mês inteiro fotografando o campo no sul do estado.

A placa anunciava o acampamento dos colhedores de ervilha. Lange leu, seguiu em frente e rodou mais vinte milhas pela rodovia 101 discutindo consigo mesma, até dar meia-volta e refazer o caminho sem saber direito o que ia procurar ali.

O acampamento estava parado. A geada tinha destruído a safra de ervilha da região, e milhares de trabalhadores atraídos para a colheita continuavam no terreno sem serviço, sem pagamento e sem dinheiro de gasolina para ir embora.

Ela entrou pelo caminho de terra e foi direto a um abrigo improvisado com lona esticada num mastro. Dentro estavam uma mulher de trinta e dois anos e as crianças. Lange fez as chapas se aproximando a cada disparo, sempre pelo mesmo lado, sem mudar de ângulo.

A conversa foi curta. A mulher disse a idade, disse que a família vinha comendo legumes congelados sobrados do campo e pássaros que as crianças caçavam, e disse que tinha acabado de vender os pneus do carro para comprar comida.

A fotografia mais reproduzida da década saiu de um desvio de vinte milhas que a fotógrafa quase não fez.

Lange não perguntou o nome, não perguntou de onde a família vinha e não anotou nada além do que cabia na ficha do programa. Em cerca de dez minutos guardou o equipamento e voltou para o carro.

No relato que ela publicou numa revista de fotografia em 1960, o número de chapas é cinco. O acervo da Biblioteca do Congresso guarda seis negativos da sequência, do quadro aberto que mostra o abrigo inteiro até o mais fechado, o único que o mundo reconhece.

No canto inferior direito daquele quadro final havia um polegar segurando o mastro da tenda. Alguém raspou o polegar do negativo, e a versão limpa foi a que entrou em circulação. As duas chapas seguem guardadas lado a lado no mesmo arquivo público.

De Nipomo ela dirigiu até Berkeley, revelou as chapas no laboratório de casa e levou as cópias à redação do San Francisco News na mesma semana. O que aconteceu depois de a tinta secar é a parte que tem documento, data e número.

 
 

II  O Que Ela Mudou de Verdade

Nove mil quilos, e ninguém para receber

A comida chegou ao acampamento em poucos dias. A família fotografada já tinha desmontado o abrigo e seguido estrada acima, e não comeu um grão daquele carregamento.

O San Francisco News publicou duas das fotografias em 10 de março de 1936, com uma reportagem sobre as condições do acampamento e um editorial perguntando o que o New Deal significava para aquela mãe e para os filhos dela.

A resposta veio rápida para os padrões do período. O governo federal despachou cerca de nove mil quilos de comida para Nipomo, e a distribuição alcançou os trabalhadores que continuavam presos ao terreno sem colheita e sem salário.

O efeito medido é esse, e vale dizer com todas as letras: uma fotografia publicada numa terça-feira moveu carga de alimento em questão de dias, num país em que o socorro costumava levar meses e travar em comissão antes de sair do papel.

A família da imagem ficou fora da conta. Eles tinham parado ali por causa de uma pane no carro, e não pela colheita, e retomaram a estrada antes de o carregamento chegar. Souberam da existência da fotografia bem depois, já longe de Nipomo.

Dentro do programa federal, o quadro virou ferramenta de trabalho. Roy Stryker, que chefiava a seção fotográfica, passou a tratá-lo como a imagem definitiva da agência, e ele circulou como argumento a favor dos acampamentos oficiais para famílias migrantes.

Ela tem em si todo o sofrimento da humanidade, mas também toda a perseverança. Você pode ver nela o que quiser ver. Ela é imortal.

Roy Stryker, In This Proud Land, 1973

O rastro continua no mesmo jornal. Em outubro de 1936, o San Francisco News publicou a série de reportagens de John Steinbeck sobre os acampamentos da Califórnia, ilustrada com fotografias de Lange, e três anos depois saiu As Vinhas da Ira.

O que a imagem não moveu foi a vida da pessoa retratada. Não houve nome na legenda, não houve procura posterior pela família e não houve pagamento, porque o mesmo arranjo legal que espalhou o quadro pelo mundo é o que torna impossível cobrar por ele.

A troca é essa. A lenda entrega uma fotografia que salvou a mulher do quadro. O acervo entrega um acampamento abastecido em poucos dias, um programa de governo com o cartaz pronto e uma família que já estava a caminho do próximo campo de colheita.

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III  Depois da Foto

O nome que apareceu em 1978

O nome é Florence Owens Thompson. Nascida Florence Leona Christie em 1903, em território indígena que viraria o estado de Oklahoma, cherokee, viúva desde 1931, quando o marido não resistiu à tuberculose. Em março de 1936 tinha trinta e dois anos e sete filhos.

Durante quarenta e dois anos ela não aparece com nome em lugar nenhum. A legenda oficial seguiu falando em colhedores de ervilha em situação de miséria, e os jornais do mundo inteiro reproduziram a legenda do arquivo sem alterar uma vírgula.

Em 1978, um repórter do Modesto Bee localizou Thompson num parque de trailers na Califórnia e publicou a identificação. As agências espalharam a informação em poucos dias, e o rosto mais reproduzido da Depressão ganhou sobrenome quando a dona dele já tinha setenta e cinco anos.

A fala dela na reportagem é seca. Disse que gostaria que aquela fotografia nunca tivesse sido tirada, que nunca conseguiu um centavo com ela, e que a fotógrafa prometeu mandar uma cópia da imagem e nunca mandou.

A conta financeira segue a mesma lógica dos dois lados do quadro. Lange trabalhava por salário federal e nunca teve direito sobre a imagem. Em 1998, uma cópia de época assinada por ela foi a leilão em Nova York e saiu por 244.500 dólares.

Em 1983, aos oitenta anos, Thompson teve um derrame, e a família tornou pública a dificuldade de pagar o tratamento. Cerca de duas mil pessoas mandaram cartas, e algo perto de trinta e cinco mil dólares chegou pelo correio, quase cinquenta anos depois do disparo em Nipomo.

Ela partiu em setembro daquele mesmo ano. Na lápide, em Hughson, na Califórnia, o nome completo vem seguido do apelido que o país colou nela e de uma linha sobre a força da maternidade americana.

Os filhos que aparecem de costas no quadro falaram pouco e falaram tarde. Katherine McIntosh, uma das meninas encostadas no ombro da mãe, contou décadas depois que a família nunca parou de se mudar e que a fotografia foi motivo de orgulho e de constrangimento ao mesmo tempo.

Lange seguiu carreira. Recebeu a bolsa Guggenheim em 1941, a primeira concedida a uma fotógrafa, e largou a bolsa no ano seguinte para registrar o confinamento de nipo-americanos em campos federais. O Exército reteve aquelas fotografias, que ficaram décadas paradas num arquivo, longe de qualquer publicação.

Ela partiu em 1965, poucos meses antes da retrospectiva que o Museu de Arte Moderna de Nova York montou com o trabalho dela, a primeira que a instituição dedicou a uma fotógrafa.

Os seis negativos de Nipomo continuam no acervo federal, com e sem o polegar, à disposição de quem quiser baixar em alta resolução. Nenhum deles pede autorização, nenhum deles gera pagamento, e a legenda original continua lá, com o nome acrescentado numa nota posterior.

A fotografia que define a Grande Depressão é gratuita para qualquer um imprimir, e a mulher no centro dela passou quarenta e dois anos sendo uma linha de ficha sem nome.

"O que se deve a alguém cuja imagem o mundo inteiro pode imprimir de graça?"

 
 
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Depois que o San Francisco News publicou as fotos de Lange, quantos quilos de comida o governo federal despachou para o acampamento de Nipomo?

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